O país do luto: como lidar com a tristeza nossa de cada dia em tempos de Covid

No Dia Nacional do Luto, ViDA & Ação reúne análises e orientações de duas especialistas sobre a dor da perda em tempos de Covid

Neste sábado, dia 19 de junho, é celebrado o Dia Nacional do Luto, uma data dedicada à reflexão e aos sentimentos de perda. Esse dia ganha uma evidência especial, principalmente neste momento dramático onde a pandemia ceifou de forma abrupta a vida de milhares de pessoas. Deveremos chegar nessa data ao fatídico número de 500 mil mortos pela Covid-19, em meio a protestos programados contra o presidente Jair Bolsonaro por sua necropolítica na condução da crise sanitária.

Está cada dia mais comum escutar em grupos de amigos, em aulas, reuniões como os dias estão difíceis e como estamos cansados. Seja criança, adulto, idoso. O sentimento de desânimo e cansaço é geral. O isolamento social, a incerteza de dias mais tranquilos e os números de casos e de óbitos altos decorrentes da Covid-19. Tudo isso é devastador para o emocional das pessoas.

Num passado recente, trabalhar com o luto era algo específico para momentos de perda de algum ente querido; hoje essa situação está se alterando. “Vivemos todos num luto social, onde fomos privados de diversas situações. As crianças foram privadas das brincadeiras com os amigos, os jovens das baladas, e os adultos, da vida social. Além do luto relacionado à morte, também temos o luto da autonomia”, avalia a psicóloga clínica Luciana Deutscher, coordenadora de psicologia do Projeto Com.Vida.

Segundo Luciana, se formos interpretar literalmente todo as alterações que a pandemia tem causado às pessoas, 95% da população necessitariam de orientação psicológica, para poder enfrentar o período de forma mais leve. “Infelizmente a pandemia nos trouxe inúmeras perdas, que afetaram diretamente o nosso psicológico”, salienta.

No projeto Com.Vida, que atende pacientes recuperados da Covid, sejam eles graves, leves ou assintomáticos, 90% deles necessitam de acompanhamento psicológico. Já entre os familiares, que não foram contaminados mas acompanharam o processo de cura, 80% recorrem à orientação psicológica.

Muito se fala do paciente grave e das sequelas. No entanto, o paciente assintomático e as famílias têm apresentado sequelas psicológicas graves, e principalmente, a de lidar com as perdas sociais e com o medo, após a recuperação da doença”, explica Luciana.

Segundo a psicóloga, pacientes assintomáticos chegam a levar até 6 meses para apresentar sequela psicológica, tais como irritabilidade, dificuldade para dormir, perda de memória e ansiedade alta. Já os familiares de pacientes, mesmo dos recuperados, acabam apresentando angústias e medos, que atrapalham a rotina.

Muitos, por terem acompanhado todo o tratamento, e pela angústia e expectativa de boas notícias, desenvolvem quadros de ansiedade altos, precisando ser trabalhados e orientados sobre como retornar às atividades, com o cuidado necessário”, ressalta a psicóloga.

Segundo ela, não devemos criar expectativas sobre o “novo normal” tão falado. “Precisamos ter em mente que, ao fim da pandemia, novas relações sociais acontecerão normalmente, bem como uma nova forma de educar, novos valores e principalmente uma nova forma de encarar a vida”, reforça.

Para a especialista, o luto social que hoje é vivenciado precisa ser trabalhado pelo indivíduo de modo a se adaptar para um novo cenário que vem se desenhando, não se apegando ao passado. “Aquela forma de vida que levávamos antes de março de 2020 mudou, e nos deixou mais experiente”, avalia Luciana.

Já em relação aos adolescentes e às crianças, muito do sofrimento vivenciado é reflexo do diálogo e da ação dos pais e responsáveis sobre o momento. “Temos que ter o cuidado de sempre optar pelo diálogo e estar presentes na vida dos nossos filhos. Só assim eles conseguirão passar por momentos como esses vividos na pandemia, que afetam das crianças aos idosos, da mesma forma”, finaliza Luciana.

A elaboração do luto em tempos de Covid

Leninha Wagner: neuropsicóloga (Foto: Divulgação)

Para os familiares e amigos de quem se foi, fica a sensação de ter acontecido um “corte”, uma “edição” no filme da vida, pois muitos sequer tiveram o consolo de um rito de passagem, uma despedida, honrando a vida e a memória de quem partiu. Conforme explica a neuropsicóloga Leninha Wagner, o luto é vivenciado de maneira singular.

Não existe um padrão de reação. Há variações em intensidade e duração, influenciadas por fatores como o contexto da morte e as características do enlutado. É importante dar tempo e espaço para a expressão de emoções e sentimentos negativos, para não considerar como patológicas aquelas reações que são necessárias e naturais. Temos que permitir a manifestação da dor da perda para que este momento seja devidamente elaborado”, analisa.

O apoio ao indivíduo enlutado deve ser efetivo; e para tanto, alguns equívocos devem ser evitados, orienta Leninha. “Deve-se considerar as culturas, as crenças, os contextos e as dinâmicas dos relacionamentos familiares, bem como identificar fatores que possam prejudicar o enfrentamento do luto, como a não manifestação dos sentimentos, o adiamento do processo ou a negação da perda”.

Ainda segundo a especialista, a elaboração do luto pode ser compreendida como a fase em que há diminuição do sofrimento frente às lembranças do falecido, havendo a retomada do interesse pela vida, por parte dos familiares. Mesmo quando o processo de luto é considerado normal, isto não significa que não exista sofrimento ou necessidade de adaptação à nova estrutura familiar.

Assim, encontrar espaços onde seja possível expressar-se livremente, compartilhar a dor e se deparar com outras pessoas que experimentam sentimentos e dificuldades semelhantes ameniza o sofrimento e favorece a busca pelas soluções dos problemas enfrentados”, pondera a neuropsicóloga.

Pra a especialista, todo luto precisa ser olhado com atenção, apesar de nem todos os enlutados necessitarem de cuidado, o que ressalta a necessidade da existência de espaço a ser utilizado por aqueles que demandarem atenção. “Oferecer cuidado ao enlutado auxilia no processo de elaboração das famílias, no resgate de prazer e continuidade da vida de quem permaneceu”, completa Leninha.

A neuropsicóloga ressalta que, diante de um luto patológico, onde a pessoa não se sente capaz de retomar a vida e suas atividades, “é importante buscar por um profissional da saúde mental, um psicólogo será de grande valia neste momento tão devastador onde tantas vidas têm sido perdidas”.

Com Assessorias

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