O sangue conecta todos nós e pode salvar vidas

No Brasil, taxa de doadores de sangue [e bem abaixo da média mundial, um desafio em ano olímpico (Foto: Pixabay)
No Rio, taxa de doadores de sangue é bem abaixo da média mundial, uma preocupação em ano olímpico (Foto: Pixabay)

Aos 18 anos, Ana Cristina Gonçalinho da Matta doou sangue pela primeira vez. Era uma campanha da Casa do Hemofílico, que usava um ônibus para ir até as universidades pedir doações. A partir daí, ela nunca mais parou. “Como meu sangue é raro (O -), doei diversas vezes para campanhas, voluntariamente e até mesmo em emergências, quando era solicitado”, conta a professora, hoje aposentada, aos 54 anos. “Me sinto feliz e útil, sabendo que estou colaborando para que alguém possa viver”, justifica ela.

De fato, uma única doação de sangue, de apenas 450 ml. é capaz de salvar até três vidas. Apesar disso, apenas 1,8% da população entre 16 e 69 anos de idade doa sangue. A Organização Mundial da Saúde estima que o ideal é que entre 3% e 5% da população de um país seja doadora constante de sangue – como acontece no Japão e nos Estados Unidos, por exemplo. No Brasil, este percentual é inferior a 2% e no Rio de Janeiro fica em torno de 1,5%.

O Hemorio, por exemplo, recebe cerca de 150 voluntários, apesar de ter capacidade instalada para cerca de 500 doadores por dia. Com a proximidade dos Jogos Olímpicos, captar voluntários para novas doações se faz ainda mais necessário. O hemocentro abastece mais de 180 unidades de saúde veiculadas ao SUS – incluindo as grandes emergências como a dos hospitais Getúlio Vargas, Souza Aguiar e Miguel Couto, maternidades e UTIs neonatais.

Criado pela OMS para homenagear doadores e chamar a atenção da população mundial para a importância do hábito de doar sangue constantemente, o Dia Mundial do Doador de Sangue (14 de junho) é comemorado desde 2004. Este ano, o tema é “O sangue conecta todos nós”, e tem a finalidade de agradecer aos doadores de sangue pelas suas doações voluntárias, ressaltar a importância de compartilhar a vida e a conexão entre doadores e pacientes.

“Muito mais do que salvar vidas, a doação de sangue é um ato que sintetiza a cultura de paz. Sangue não tem cor, nem gênero, nem religião, nem partido político, nem time de futebol. Sangue é o que nos iguala e nivela”, diz Debi Aronis, idealizou  o movimento Eu Dou Sangue pelo Brasil, junto com Diana Berezi.

“Somente quem vive a dificuldade de conseguir sangue sabe a importância das doações”, explica Diana, que, depois de sentir na pele o que é isso, decidiu disseminar e promover a conscientização para que a doação de sangue se torne um hábito na vida do brasileiro. Ela se envolveu com a causa em 2011, depois de vivenciar um problema de saúde na família. “Nada substitui o sangue e, portanto, só a solidariedade pode ajudar aqueles que precisam”, enfatiza.

Para Diana, a doação de sangue deve ser um hábito na vida do brasileiro assim como cortar o cabelo, ir ao dentista ou trocar o óleo do carro. “Dar sangue no sentido figurado é se envolver, é se importar, é dar de si para o bem de todos. E cada pessoa pode se engajar e escolher sua própria causa para contribuir e aos poucos mudar sua comunidade, seu bairro, sua cidade e assim por diante. Isso é o que muda o mundo!”, finaliza.

Eu Dou Sangue pelo Brasil

O movimento Eu Dou Sangue pelo Brasil realiza a campanha Junho Vermelho, para contribuir na criação da cultura da doação de sangue junto à população. Desde o início do mês, prédios e monumentos públicos em diversas capitais do país se iluminam de vermelho, em adesão ao movimento, para chamar a atenção para novos doadores. No Rio, o escolhido é o Cristo Redentor. A proposta é que os doadores postem fotos com o curativo para posts em redes sociais com a hashtag #DoeSangue, convidando amigos e conhecidos a doar.

A coordenadora nacional da iniciativa, Debi Aronis lembra que em situações de emergência os estoques nem sempre são suficientes, inclusive em países desenvolvidos. No último domingo (12 de junho), a cidade de Orlando, nos Estados Unidos, sofreu um ataque terrorista que matou 49 e feriu 53 pessoas. Moradores da cidade de 240 mil habitantes e cidades vizinhas fizeram longas filas para doar sangue nos hospitais, em resposta à convocação dos médicos.

“O Brasil, graças a Deus, não tem na sua memória recente histórico de guerras ou grandes catástrofes climáticas como terremotos, atentados terroristas ou situações traumáticas, e de grande comoção nacional que envolvam feridos que precisam de doações de sangue. No entanto, os acidentes de trânsito, os portadores de câncer, de anemia falciforme e outras patologias, procedimentos cirúrgicos de grande complexidade são o dia-a-dia dos nossos hospitais”, explica,

Pacientes precisam de transfusões durante tratamentos curativos ou em emergências como acidentes e grandes catástrofes. No período de férias, cresce o número de acidentes nas estradas, pressionando ainda mais os estoques dos hemocentros. As bolsas de sangue coletadas são compostas por hemácias, plasma e plaquetas, que também têm prazos de validade. Muitas vezes, o paciente necessita apenas de um tipo de hemoderivado.

Três motivos para se sentir seguro ao doar sangue

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) lista três motivos para que as pessoas sintam-se seguras ao doar sangue e praticar este ato de cidadania:
-Triagem clínica criteriosa do doador;

– Coleta adequada do sangue por meio de bolsas descartáveis, estéreis, apirogênicas (livres de vírus, fungos e bactérias), uso de antissépticos, e executada por profissionais capacitados;

– Testes laboratoriais rígidos: testes imunohematológicos (tipo sanguínea e pesquisa de anticorpos irregulares) e testes sorológicos em cada doação com kits registrados e autorizados pela Anvisa.

Para a infectologista e hematoterapeuta Patrícia Scuracchio, membro do comitê científico de Laboratório da SBI, é preciso que se estimule às pessoas a doarem sangue de forma voluntária e com regularidade, além de incentivar quem nunca doou a se disponibilizar para a ação, particularmente jovens em boas condições de saúde.

A especialista explica que a coleta durante a doação de sangue é feita por profissionais especializados, com a utilização de materiais descartáveis protegidos contra vírus, bactérias e fungos que garantem segurança de quem doa e de quem recebe. Segundo ela, o sangue coletado é submetido a testes sorológicos de alta sensibilidade para as doenças infectocontagiosas como Hepatites C e B, Sífilis, doença de Chagas, HTLV e HIV. Além de testes obrigatórios de detecção do ácido nucleico (NAT) para hepatite B, C e HIV, que contribuem para maior segurança do sangue doado.

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Onde doar no Rio

O Hemorio funciona todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados, das 7h às 18h,na Rua Frei Caneca, n° 8, no Centro do Rio Para mais informações, o voluntário deve ligar para o Disque Sangue (0800 282 0708), que esclarece dúvidas e informa o endereço das outras 25 unidades de coleta distribuídas pelo estado.

O Serviço de Hemoterapia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) também está pedindo doações. Para fazer a doação, basta comparecer ao 3º andar do hospital, de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 13h30. Mais informações pelo telefone: 3938-2305 ou pelo e-mail: hemoter@hucff.ufrj.br.

 

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