Obesidade é segundo maior fator de risco para o coronavírus

Pacientes estigmatizados precisam de cuidados específicos e acolhimento. Conheça as principais complicações causadas pela obesidade

Estudos no Reino Unido, França e EUA apontam que obesidade é segundo maior fator de risco para covid-19, depois da idade (Foto: Reprodução de internet)

Considerada a maior epidemia não infecciosa do planeta, a obesidade acomete cerca de 30% das pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A previsão é que, até 2025, 700 milhões de pessoas sejam diagnosticadas no mundo.

O Brasil tem mais de um quarto da população adulta com o quadro de obesidade, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em outubro de 2020. São mais de 20 milhões de indivíduos obesos, sendo que 56% da população estão acima do peso. 

Um alerta emitido pelo governo britânico indica que pode haver uma relação entre a obesidade e as formas mais graves de infecção pela Covid-19. Segundo o estudo liderado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Auditoria em Terapia Intensiva do Reino Unido, sete em cada dez pacientes com coronavírus em UTIs no Reino Unido são obesos. 

Os múltiplos fatores que aumentam o risco de pessoas acometidas com obesidade perante à Covid-19, são outras doenças metabólicas, como hipertensão arterial e diabetes tipo 2 – ambas são fatores de risco para as formas mais graves de Covid-19.

Sabemos que as pessoas obesas, com IMC superior a 40 kg/m2, estão mais sujeitas a ter complicações de gripes comuns, e mesmo quando estão vacinadas elas têm uma proteção diminuída contra o vírus influenza. Se considerarmos ainda que 5% dos infectados pela Covid-19 irão precisar de UTI, temos um cenário que para o paciente obeso é ainda pior”, afirma Teresa Bonansea, endocrinologista e professora do curso de Medicina da Unisa. 

Segundo ela, nos hospitais faltam leitos apropriados para essa parcela da população, a intubação é mais difícil e na maioria das vezes não há aparelhos de imagens disponíveis que atendam às necessidades físicas de pessoas acima do peso.

O cenário é alarmante, ainda mais no atual contexto da pandemia de Covid-19, já que a obesidade é o segundo fator de risco para infecção pelo novo coronavírus, ficando atrás apenas do fator idade. Para chamar atenção para o problema e estimular medidas para enfrentamento da doença, a OMS instituiu o Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março.

Abeso lança campanha voltada para profissionais de saúde

Cintia Cercato, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), lembra que a doença envolve aspectos genéticos, neuroquímicos, ambientais e psicossociais. Não bastasse isso, a pandemia e a necessidade de isolamento social aumentaram a vulnerabilidade dessas pessoas.

Com 60% da população apresentando excesso de peso, é natural que médicos de todas as especialidades, e não só endocrinologistas, atendam frequentemente pacientes com complicações da obesidade em sua rotina. Muitos pioraram a qualidade da alimentação e ganharam peso. E, já sabemos que a obesidade é um importante fator de risco para formas graves de Covid-19”, completa.

Segundo ela, é fundamental entender que o excesso de peso pode afetar qualquer órgão ou sistema do corpo. “Para realizar uma abordagem adequada, é importante oferecer cuidados específicos para pessoas com essa condição e, também, é claro, acolhimento, já que estamos falando de um paciente muito estigmatizado”, ressalta.

Por isso, a Abeso resolveu unir forças com várias entidades médicas e convida seus representantes a dissertarem sobre as formas de cuidado com a obesidade dentro de sua especialidades. Os textos das diferentes entidades médicas compõem o Manifesto: Cuidar de Todas as Formas, um e-book que pode ser baixado gratuitamente no site da associação. 

O material foi lançado junto com a campanha do Dia Mundial da Obesidade, em 4 de março, a #CuidarDeTodasAsFormas, que tem o apoio da World Obesity Federation. A data tem como objetivo aumentar a conscientização sobre a doença, melhorar políticas públicas de saúde e compartilhar boas experiências e práticas em todo o mundo.

Ao contrário do que muita gente pensa, as pessoas não podem ser totalmente responsabilizadas por terem obesidade. Afinal, estamos falando de uma doença crônica e multifatorial, que não existe uma solução simples e fácil”, afirma a médica.

As doenças que podem ser causadas pela obesidade

A obesidade é uma doença crônica que pode ser causada por diversos fatores –  genéticos, psicológicos, sociais, metabólicos. Iniciada geralmente na infância, a tendência é que a condição evolua para casos graves. Assim como o excesso de peso, a obesidade aumenta o risco para o desenvolvimento de diversas outras doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, diabetes, alguns tipos de cânceres, dentre outras,

Além disso, a obesidade foi identificada com um dos fatores mais críticos para o agravamento da Covid-19, o que reforça ainda mais a importância de medidas para a redução de peso, como o acompanhamento médico e a adoção de hábitos saudáveis. Os tratamentos vão de intervenção clínica, com atendimento multidisciplinar e medicamentos, a cirurgias metabólicas e bariátricas.

Combate à obesidade tem incentivo nos planos privados

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) reforça informações relevantes sobre o tema, informando que a pandemia de Covid-19 tem destacado também as fragilidades do sistema de saúde. Entre elas, estão a fragmentação do cuidado e a ausência de um profissional de saúde de referência, de coordenação e de continuidade do cuidado na integralidade nas ações em saúde.

Nesse sentido, o Programa de Certificação de Boas Práticas em Atenção à Saúde, desenvolvido pela ANS, visa incentivar as operadoras de planos de saúde a desenvolverem um cuidado cada vez mais qualificado aos seus beneficiários, através da implantação de redes de atenção ou linhas de cuidado certificadas por entidades acreditadoras reconhecidas.

A primeira iniciativa do programa é a Certificação em Atenção Primária à Saúde (APS), que prevê a concessão de uma certificação às operadoras que cumprirem requisitos pré-estabelecidos nessa estratégia. A proposta é estimular a qualificação, o fortalecimento e a reorganização da atenção primária, por onde os pacientes devem ingressar preferencialmente no sistema de saúde.  

Risco maior para o câncer e gestantes

Também estão sendo elaborados projetos para certificação em outras linhas de cuidado que são importantes quando falamos em obesidade: parto e nascimento e atenção oncológica.

Segundo a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer, da OMS, o excesso de gordura corporal representa risco para pelo menos 13 tipos de câncer, como esôfago, estômago, pâncreas, vesícula biliar, fígado, intestino (cólon e reto), rins, mama (mulheres na pós-menopausa), ovário, endométrio, meningioma, tireoide e mieloma múltiplo 2.

Nessa direção, o Projeto OncoRede é uma importante iniciativa da ANS para a implantação de um novo modelo de cuidado a pacientes oncológicos beneficiários de planos privados de saúde.  

Em relação ao parto, um estudo brasileiro (clique aqui) indicou que grupos com maiores índices de massa corpórea – IMC (sobrepeso e obesidade) mostram probabilidades maiores de complicações no parto (realização de cesariana e hemorragia de grande porte) e intercorrências maternas (diabetes gestacional e síndrome hipertensiva).

Também apresentaram maiores possibilidades de intercorrências perinatais, e as gestantes consideradas obesas foram as que apresentaram complicações mais intensas.

Nessa perspectiva, Movimento Parto Adequado tem o objetivo de identificar modelos inovadores e viáveis de atenção ao parto e nascimento, que valorizem o parto normal e reduzam o percentual de cesarianas sem indicação clínica na saúde suplementar.

Essa iniciativa visa ainda a oferecer às mulheres e aos bebês o cuidado certo, na hora certa, ao longo da gestação, durante todo o trabalho de parto e pós-parto, considerando a estrutura e o preparo da equipe multiprofissional, a medicina baseada em evidência e as condições socioculturais e afetivas da gestante e da família. Clique aqui e saiba mais sobre essas iniciativas.  

Promoção da Saúde e Prevenção de Riscos e Doenças   

A má alimentação, o sedentarismo, fatores endócrinos e genéticos são fatores que contribuem para a obesidade e o excesso de peso. O tratamento ideal é constituído por etapas como mudança de hábitos, reeducação alimentar e a prática regular de exercícios físicos. A adoção de hábitos saudáveis pode evitar o excesso de peso e as enfermidades desencadeadas pela obesidade.

Nesse sentido, ações de promoção e prevenção de saúde também são fundamentais para o enfrentamento da doença. Por meio do Promoprev, a ANS estimula as operadoras a desenvolverem programas em diversas linhas de cuidado. Atualmente, há 899 programas Promoprev cadastrados na ANS com foco na obesidade. Eles contemplam 1.469.425 beneficiários de todas as faixas etárias e são desenvolvidos por 318 operadoras.    

Em 2017, a ANS criou, ainda, grupo de trabalho para discussão sobre o Enfrentamento da Obesidade e do Sobrepeso, trabalho multidisciplinar pautado em estudos científicos que visa promover melhorias e incentivos na atenção à saúde relacionada ao combate à obesidade e excesso de peso entre beneficiários de planos de saúde.

Como resultado, foi produzido o Manual de Diretrizes para o Enfrentamento da Obesidade na Saúde Suplementar Brasileira, ferramenta para orientar as operadoras a adotarem medidas de combate à doença e adoção de um modelo de atenção à saúde integral e mais centrado nas necessidades dos indivíduos. 

Campanha #CuidarDeTodasAsFormas

Como parte da campanha #CuidarDeTodosAsFormas, que propõe unir forças e formas diferentes para tratar a obesidade, tida como outra pandemia que assola o país, serão realizadas uma série de ações ao longo de três semanas, entre elas:

  • Realização de seis lives, sendo duas por semana, com grandes estudiosos da obesidade sobre temas urgentes e necessários, como o alto risco de pessoas com obesidade desenvolverem formas graves de Covid-19 e o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados como importante fator para o crescimento da obesidade em todo o mundo. Também será discutida a relação entre hormônios e obesidade, além do expressivo crescimento da obesidade infantil nos últimos anos. A atividade física para controlar e prevenir o ganho de peso e o papel da cirurgia bariátrica no tratamento da doença também serão abordados.
  • Lançamento de mais dois e-books gratuitos: um com foco na prevenção da obesidade infantil, com receitas e dicas para montar lancheiras saudáveis; e outro com truques culinários de chefs famosos do Brasil, para mostrar que cozinhar de forma saudável em casa pode ser fácil, rápido e prático.
  • Apresentação de um infográfico animado e didático sobre nutrição e alimentação.
  • Publicação de muito conteúdo nas redes sociais (instagram.com/abeso_evidenciasemobesidadetwitter.com/_abesofacebook.com/evidenciasemobesidade e youtube.com/user/obesidadeabeso) e no site (abeso.org.br) da ABESO.

Obesidade em números

A doença atinge uma média de 26,8% da população, de acordo com dados mais recentes do IBGE. Isto é, 26,8% dos brasileiros acima de 20 anos são considerados obesos e 6,7% dos adolescentes sofrem com a doença.

Dados da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) indicam que 43,2% dos adultos apresentaram prática insuficiente de atividade física, sendo esse percentual maior entre as mulheres (49,8%) do que entre os homens (34,8%).

O Vigitel também mostrou que 7,7% da população adulta apresenta diabetes e 24,7% apresentam hipertensão, doenças que podem estar relacionadas à obesidade.   

Com Assessorias

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