Obesidade: enquanto o foco estiver na dieta, problema crônico não terá fim

Nutricionista lança manifesto contra a obesidade para chamar a atenção de autoridades públicas para epidemia que afeta quase 20% da população

Redação

O mundo, inclusive o Brasil, vive uma pandemia crônica que é a obesidade. Uma pesquisa divulgada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que a obesidade no Brasil atinge um em cada quatro adultos. O estudo, que abrange o período de 2002 a 2019, revela também um triste fato: atualmente, quase 62% da população de 20 anos ou mais está acima do peso, sendo identificada maior recorrência entre as mulheres.

Mas falando sério, isso te surpreende? Caso sim, não deveria, já que todo ano – desde 1975 – é o mesmo alerta e as políticas sanitárias no combate à obesidade são sempre as mesmas, em um discurso já contaminado: dieta, exercício físico, ficar longe de alimentos ultra-processados, entre outros.

Para Sophie Deram, PHD em Nutrição, autora do best sellerO Peso das Dietas” e especialista em comportamento alimentar, o aumento nos casos de obesidade não é uma surpresa porque não há políticas públicas e nem métodos eficazes para o controle do problema. Ainda segundo a PHD, o que surpreende os profissionais da área da saúde é a velocidade com que o excesso de peso tem aumentado não só no Brasil, mas no mundo todo.

Doutora pela FMUSP, pesquisadora e especialista em tratamento de Transtornos Alimentares pelo AMBULIM – Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP – , Sophie acredita que o combate à obesidade está obsoleto e nada disso vai resolver esta pandemia que vivemos há décadas.

A obesidade é um problema de saúde que afeta 19,8% da população brasileira e até hoje não foi encontrada uma solução efetiva. A revista científica The Lancet, em 2015, já chamava atenção para este problema ao se referir à obesidade como uma pandemia que assola todos os países. Nenhuma nação conseguiu superar esta dificuldade”, cita Sophie .

Dietas restritivas não resolvem o problema

De acordo com a especialista, o mundo vive em uma pandemia crônica e a comunidade médica, os próprios nutricionistas e a mídia em geral não sabem como tratar o tema obesidade. Segundo ela, o maior problema está em pensar que a obesidade se soluciona apenas com a perda de peso e as dietas restritivas seriam a maneira mais eficaz de eliminar este mal.

Privações alimentares e jejuns não ajudam a combater a obesidade, pelo contrário, podem aumentar em até três vezes as chances de uma pessoa se tornar obesa, inclusive, mais de 90% dos pacientes que são submetidos a dietas restritivas voltam a engordar. As dietas restritivas não têm eficácia, pois uma pessoa pode adquirir todo o peso novamente depois de um tempo, que pode ser de seis meses até cinco anos, dependendo do método que escolheu”, alerta.

Além disso, as dietas modificam o comportamento alimentar da pessoa, deixando ela com mais apetite e aumentando o risco dela desenvolver transtornos alimentares ou mesmo psicológicos, como ansiedade e depressão.

O paciente não tem culpa

Outra polêmica em torno deste assunto é se a obesidade pode ou não ser considerada uma doença. Quanto a esta questão, a nutricionista acredita que o excesso de peso pode ser visto como uma condição neuro-comportamental, ou seja, focar apenas na mudança física da pessoa não será o suficiente e nem mesmo a principal alternativa para resolver o problema.

Para ela, o problema da obesidade não pode ser considerado de forma alguma responsabilidade única do paciente, estigmatizar quem já sofre com esta circunstância tende a agravar ainda mais o transtorno alimentar. Na sua avaliação, é preciso dar um olhar mais humanizado aos pacientes com obesidade porque, infelizmente, existe muita estigmatização e gordofobia na pessoa em excesso de peso.

Temos que acabar com esta retórica de que a culpa sempre é do paciente. Nossos profissionais de saúde devem ser mais responsáveis e olhar o paciente como um ‘todo’, inclusive a partir de sua saúde mental. Mais de 90% dos pacientes submetidos ao procedimento de dietas voltam a engordar”, enfatiza.

Não podemos identificar tais pessoas como preguiçosas, gulosas e faltando força de vontade. As causas do excesso de peso são múltiplas e precisam ser abordadas com respeito e empatia. A saúde é um conceito que engloba o bem estar físico, mental e social da pessoa e sua qualidade de vida, não somente o seu peso”, completa.

Ainda segundo ela, o tratamento atual está sendo um fracasso, pois nenhum país do mundo conseguiu diminuir a prevalência de obesidade nesses últimos 35 anos.

Precisamos rever o tratamento. A responsabilidade do sucesso do emagrecimento implica diretamente em questões de controle, cálculo, restrição, disciplina e força de vontade. No entanto, simplificar o tratamento a “fechar a boca e malhar mais”, ou “foco, força e fé”, não está cientificamente associado a uma perda de peso sustentável”, explica a PhD em nutrição.

Sophie Deram é autora de “O Poder das Dietas” (Foto: Divulgação)

Manifesto sobre a obesidade

Sophie acredita ainda que o quadro de saúde da população tende a piorar enquanto o foco principal no tratamento estiver ligado diretamente à perda de peso. É com este discurso, totalmente na contramão da maioria dos profissionais da saúde, que Sophie Deram pretende chamar a atenção de autoridades públicas por meio do “Manifesto para o novo olhar sobre a obesidade”, que acontece online e ao vivo no dia 21 de novembro.


Aproveitando que estamos em um momento gravíssimo em questão de saúde pública, Sophie conta com a chancela de profissionais e pesquisadores renomados no Brasil e no mundo. O objetivo é chamar a atenção da sociedade e de autoridades públicas. Em formato online, o evento debaterá com especialistas maneiras mais humanizadas e efetivas para o controle do sobrepeso.

Trazer um amplo debate para despertar uma reflexão de como lidar de forma mais atualizada e humana com o tratamento por conta do excesso de peso é o principal objetivo do evento online. A ideia é que também sejam apresentadas alternativas para enfrentar essa condição que afeta 19,8% da população brasileira, segundo o Ministério da Saúde, levando a conclusão do manifesto diretamente ao poder público.

Os convidados também apresentarão estudos científicos que contribuirão para discutir os desafios do tratamento da obesidade sem o uso de dietas restritivas. A programação é destinada a profissionais de saúde que atuam com pessoas acima do peso, além do público em geral interessado no tema.

Para Sophie, o “Manifesto para um Novo Olhar sobre Obesidade” tratará, sobretudo, de algumas questões centrais. Entre elas, as formas de respeitar o paciente, como colocá-lo como protagonista num eventual atendimento sem uso de dietas restritivas. Hoje, muitas evidências científicas mostram que é importante o paciente parar de terceirizar a fome e se reconectar consigo mesmo. O respeito da fome é central e o peso é consequência e não causa do problema.

Evento sem conflito de interesses com as indústrias alimentícia e farmacêutica

Especialistas discutirão formas de respeitar o paciente e de como colocá-lo na condição de protagonista num eventual atendimento sem uso de dietas restritivas. A programação é destinada a profissionais de saúde que atuam com pessoas acima do peso, além do público em geral interessado no tema.

A iniciativa é sem fins lucrativos e, para evitar conflitos de interesses, a organização não tem aceitado patrocínios de empresas alimentícias ou farmacêuticas. Os lucros do evento serão revertidos para os laboratórios de pesquisa dos palestrantes e outras iniciativas de pesquisa sobre o tratamento da obesidade.

O manifesto contará com as participações do sociólogo e antropologista francês Claude Fischler, do coordenador da Assistência Clínica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), o psiquiatra Táki Cordás, da médica Paula Teixeira, fundadora do centro brasileiro de Mindful Eating e dos pesquisadores e também nutricionistas Dennys Cintra e Maria Carolina Mendes, da Unicamp.

O evento, que terá a mediação da jornalista Fabíola Cidral, estava previsto para acontecer de forma presencial em maio, no MASP em São Paulo. Com o isolamento social motivado pela pandemia diante da Covid-19, ele será transmitido online dia 21 de novembro.

SERVIÇO

“Manifesto para o novo olhar sobre a obesidade”
Mediação: Fabíola Cidral
Quando: 21 de novembro.
Horário: das 9h às 17h
Inscrições: neste link
OBS: os ingressos são limitados

PROGRAMAÇÃO

9h – 11h – Apresentação e introdução sobre os desafios de resolver a obesidade no Brasil e no mundo. Palestras gravadas de Claude Fischler, Sophie Deram e Taki Cordas.

11h – Bate papo ao vivo com a Mediadora, Taki Cordas, Sophie Deram e um paciente.

14h – 16h – Palestras gravadas sobre o funcionamento do cérebro de pessoas obesas quando realizam dietas restritivas, com Dennys Cintra e Sophie Deram. Discussão sobre a influência da microbiota (microorganismos instalados no intestino) no funcionamento do cérebro, com Maria Carolina Mendes. Apresentação da médica Paula Teixeira, especialista em comer consciente (mindful eating), com depoimento da historia dela.

16h – Bate papo ao vivo com os palestrantes e a Mediadora

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