Pandemia ou pandemônio: o amor (e o diálogo) entre paredes

Live do ViDA & Ação dia 13 de junho traz pesquisa sobre emoções e comportamentos durante o isolamento social e dicas para tornar relações familiares mais conscientes e construtivas

Redação

A quarentena não tem sido fácil para ninguém. O principal sentimento relatado é o de privação, falta de liberdade. Por conta da pandemia de Covid-19, as relações familiares e afetivas têm sido afetadas pela convivência intensa em regime de confinamento forçado. Por outro lado, esta maior aproximação pode ajudar a reforçar laços afetivos ou acentuar sentimentos como solidão. Afinal, como está a relação entre os casais, entre pais e filhos e entre parentes durante a pandemia?

Para avaliar o que está acontecendo entre as paredes das casas de 500 cariocas e fluminenses durante esse convívio diário de 24 horas por dia, a Mediator Pesquisa e a Contexto Brasil, com o apoio da ColheData, realizaram a pesquisa “Entre Paredes – Retrato das relações familiares durante o confinamento”, que faz parte do projeto “Pandemia Pandemônio”. Entrevistas feitas entre os dias 20 e 25 de maio por telefone ou internet revelaram que a convivência contínua e obrigatória trouxe ou intensificou a percepção de irritabilidade (47%), estresse  e impaciência (44% cada), o que resulta em  discussões, “brigas” e “picuinhas” do dia a dia.

Maria Nazareth Barcellos, especialista em pesquisas de consumo e mercado (Foto: Divulgação)

Neste momento de muitas inseguranças e incertezas, muito de nós fomos forçados a enfrentar grandes e novas provocações. Esta pesquisa aborda, principalmente, o desafio da convivência “obrigatória” e contínua. Seguindo a proposta de stay home, famílias, com diferentes configurações, seguem confinadas há mais de 60 dias”, afirma a publicitária Maria Nazareth Barcellos, diretora da Contexto Brasil Estudos de Comportamento e Mercado.

Neste cenário bélico, desenvolver novas formas de diálogo é fundamental para manter o equilíbrio e a sanidade. Desenvolvida pelo americano Marshall Rosenberg nos anos 1960, a Comunicação Não-Violenta ajuda as pessoas a se expressarem e ouvirem o outro com empatia. Para Marie Bendelac Ururahy, sócia da Be Coaching, o uso da linguagem não-violenta e empática se torna ainda mais indispensável nos dias de hoje, quando famílias precisam se reeducar à nova rotina, permanecendo mais tempo dentro de casa.
Marie Bendelac Ururahy, especialista em comunicação não-violenta (Foto: Divulgação)

A CNV ajuda a prestar atenção na forma como nos expressamos, a ouvir com atenção e empatia. Aprendemos a harmonizar as necessidades das pessoas, a não julgar e estabelecer um clima de confiança e respeito mútuo. Ela abre um espaço para um diálogo saudável, em busca de soluções que vão funcionar para todos e nos ajuda também a nos conectar com nossas próprias necessidades através da percepção dos nossos sentimentos”, afirma a especialista em CNV e empatia.

A publicitária Maria Nazareth Barcellos e a coach Marie Bendelac Ururahy foram as convidadas da jornalista Rosayne Macedo, editora do Portal ViDA & Ação, para a live realizada neste sábado, dia 13 de junho, às 10 horas, com transmissão pelo Facebook e Youtube. Com o tema ‘Pandemia ou pandemônio: como evitar conflitos familiares’, o  encontro virtual é o segundo do projeto Papo de Pandemia, iniciado no último dia 5 de junho, quando o portal completou quatro anos.

Falta de privacidade é um problema

Uma consequência negativa deste maior tempo de compartilhamento é a perda da privacidade e esta parece irremediável. Não ter um momento, um canto da casa para si – até por problemas de espaço.  Às vezes nenhuma atividade individual. Falar no celular sem ninguém ouvir. Depreende-se a sensação de que, mesmo quando terminar a quarentena, as antigas regras de respeito à privacidade dificilmente retornarão.
Os casados com filhos pequenos e adolescentes, muitas vezes relatam a perda total da privacidade, do espaço, da paciência. Muitas vezes, do controle sobre a educação dos filhos (apesar da grande alegria em poder conviver, estar junto).
Ainda por conta da questão da privacidade, o desejo sexual para a grande maioria (70%) se mantém da mesma forma, indo na contramão da percepção de carinho (44%), maior capacidade de diálogo (50%) e companheirismo (50%).
A situação chegou também ao quarto dos casais. Apesar de 25%  notarem up no clima de romance, apenas 14% (maioria masculina) atestam que seu apetite sexual aumentou e 11% afirmam ter diminuído (maioria de mulheres), tendo como justificativas mais comuns o cansaço/sobrecarga de trabalho (tarefas domésticas, filhos e trabalho) e a pouca ou falta de privacidade.

O lado positivo do ‘estar junto’

A experiência dos “acompanhados” revela também outra fase do “estar junto”: No sentido positivo, a convivência “forçada” parece ter trazido grandes conquistas e até descobertas, sendo principalmente, a capacidade de diálogo/melhoria na comunicação.
A reboque veio a percepção de mais união (55% ), carinho (44%)  e empatia, compreensão, aceitação, menor escrutínio em avaliar os pontos negativos dos outros. Abriu-se uma espécie de umbral, e a expectativa é de que esses elementos estarão presentes nos relacionamentos daí em diante.
A pesquisa aponta que após quase 70 dias de confinamento, a maioria dos entrevistados continua ou teve a sua preocupação aumentada com a contaminação do vírus, respeitando a quarentena. Os mais rígidos com o isolamento são aqueles de 51 anos. E a grande maioria procura sair somente para compras essenciais.
Para os filhos, a maior angústia é não estar perto dos pais, mas destacam a necessidade de poupá-los para preservar quem amam. Aliás, essa é a palavra de ordem deste momento: Preservar-se da doença, bem como àqueles que amam e por isso, é comum a percepção de que ser agarram a este lema para poder suportar o período.

Solidão x solidariedade

O estudo procurou entender esse isolamento social, buscando compreender emoções e comportamentos e medir o impacto sobre as relações familiares e seus possíveis desdobramentos para o futuro.

De acordo com a pesquisa, os que estão totalmente sozinhos vivenciam maior desafio emocional. Estes relatam sentimentos como depressão, tristeza e solidão deflagradas pela falta de convivência, principalmente entre as mulheres.

Já os homens têm emoções de origem mais pragmáticas como tempo de reflexão, conformismo, aceitação, contrariedade com a classe política e dificuldade de ir ao mercado.

A solidariedade é outro ponto marcante. Quase 70% deste grupo de “solitários” afirma ter percebido aumento de atitudes solidárias por parte de família e amigos, principalmente. Esta solidariedade é traduzida, principalmente, em maior número de chamadas/vídeo chamadas e maior tempo de conversas. Desta forma, se sentem mais amparados e até consolados, principalmente mulheres e idosos.

Campanha #Quarentenaempática

Com curso em Science of Coaching Psychology pela Universidade de HarvardMarie tem realizado consultas sobre brigas domésticas, famílias que enfrentam problemas financeiros e outras que temem o contágio da Covid-19 no próprio lar. A questão da privacidade, do respeito ao espaço alheio, também vem pautando os diálogos nas redes sociais.

Com o objetivo de ajudar a manter um clima de harmonia e equilíbrio dentro de casa, Marie Bendelac Ururahy vem fazendo a sua parte nas redes sociais. “Todos buscam formas de se adaptar aos novos tempos, que despertam sensações como angústia, medo, ansiedade e estresse”, explica ela.

Há cerca de um mês, Marie lançou a campanha #quarentenaempatica, através da qual oferece apoio diariamente, interagindo com o público através de lives e vídeos. No Instagram, ela dá dicas práticas de como usar a empatia e a CNV para manter uma convivência saudável em tempos de pandemia.
O diálogo construtivo, nesse contexto, é fundamental. É importante considerar que as necessidades de cada um podem mudar de um dia para o outro, que os estados emocionais e o humor das pessoas também variam. Nesse momento, o que salva as relações, é a prática da empatia, para se conectar com o outro com o coração, não com a cabeça”, conclui.
Marie fala com conhecimento de causa. As orientações têm como base estudos científicos e sua vasta experiência pessoal e profissional. As lives, a partir de agora, serão aos domingos, às 21h, em sua conta @mariebendelac. Nos outros dias de semana, ela interage com o público em intervalos variados.

Namorados e acompanhados

Namorados que optaram em estar juntos, vivenciam a união estável, algo que se mostra proveitoso, um amadurecimento forçado da relação, com muitas descobertas – “uma espécie de test drive para o casamento”.

Apesar de a metade dos sozinhos que namoram respeitar a quarentena e revelar que estar junto não é tão importante quanto a necessidade de se preservar, no Dia dos Namorados, alguns entrevistados se inclinam a romper a quarentena e revelam o intuito de “cair em tentação” (cerca de 62%), se verem ou estarem mais perto fisicamente.

Já o presentear neste dia, parece ser, no momento da pesquisa, um desafio, uma interrogação (“não sei, qualquer coisa on-line”).  Objetos podem perder o significado, já que não sabem quando irão usufruir dos presentes. A apresentação, a eficiência no delivery contam muito. Há um espaço para a criatividade dos comerciantes, prestadores de serviços, publicitários. Algo que possa ser efetivamente curtido a dois, mesmo à distância.

Com Assessorias