Para Bolsonaro, não precisa pressa para vacina da Covid-19

Enquanto pandemia acelera, presidente repete ministro da Saúde que disse que não precisa angústia nem ansiedade para a vacina

Redação
General Eduardo Pazuello, recuperando-se da Covid, recebe Jair Bolsonaro (Foto Reprodução/Youtube / Out20)

Apesar da constatação pelo próprio Ministério de Saúde de que o número de casos de coronavírus está aumentando em ritmo mais intenso que no primeiro semestre do ano, os negacionistas que ocupam os mais altos cargos no gerenciamento da maior crise sanitária do país continuam ignorando a urgência em termos a vacina da Covid-19 acessível à população.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a dizer que a pandemia está “chegando ao fim”, apesar dos números indicarem o contrário, e questionou a “pressa” pela aprovação de uma vacina contra a Covid-19. Repetiu neste sábado (19) o discurso do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que disse três dias antes que não precisava “ansiedade ou angústia” para a vacina. As duas declarações revoltaram boa parte da população que assiste outros países já vacinando, enquanto o Brasil não tem data para iniciar a vacinação.

“A pressa pela vacina não se justifica, porque você mexe com a vida das pessoas”, disse o presidente durante entrevista conduzida por seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). “Não há guerra, não há politização da minha parte. Nós esperamos uma vacina segura. Parece que a Inglaterra começou a vacinar agora. Por que a gente tem que ser o primeiro?”

O Brasil só apresentou seu plano nacional de imunização contra o coronavírus nesta semana, e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ainda não recebeu nenhum pedido de empresas ou laboratórios para uso emergencial da vacina. Países como Estados Unidos, Reino Unido e Israel já começaram a imunizar sua população.

Bolsonaro ainda disse haver interesse por parte de governadores nos R$ 20 bilhões liberados pelo governo federal para a compra da vacina. Ele não citou nomes, mas a declaração foi uma resposta à pergunta de Eduardo que mencionava o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com quem o presidente vem travando embates públicos.

Aguarda um pouco mais, você mexe com a vida das pessoas. Alguns estão afoitos para tomar, eu entendo que o cara está preocupado, quer se imunizar. Mas às vezes um pouquinho mais de paciência… Acho que a prudência é importante neste momento. Governador, não estamos com pressa em gastar dinheiro, nossa presa é salvar vidas”, afirmou.

STF permite vacinação por estados

Se o governo federal não tem pressa, os estados têm essa preocupação e podem ter direito a vacinar suas populações. O ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal), concedeu uma liminar permitindo que estados e municípios distribuam vacinas mesmo se a Anvisa não autorizá-las em até 72 horas, desde que os imunizantes tenham sido aprovados por autoridades estrangeiras.

A permissão também é válida caso o plano nacional de vacinação contra a Covid-19 seja descumprido ou “não proveja cobertura imunológica tempestiva e suficiente contra a doença”, definiu Lewandowski. Neste caso, estados e municípios podem distribuir e aplicar as vacinas das quais disponham, se aprovadas pela Anvisa.

O diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, prometeu cumprir a decisão do STF. Ele explicou que, em função do volume de informações envolvidas, pode ser “difícil” cumprir prazos, “mas nem por isso deixaremos o plano de tentar esse cumprimento”.

“Tão logo ela [a decisão] chegue para nós com as suas determinações, nós faremos todo o possível para o acatamento integral do que está ali preconizado”, disse Torres à CNN Brasil. “Aguardamos obter formalmente essa definição para que possamos fazer os ajudes necessários. Nossa conduta está sempre pautada na legalidade.”

Números em alta

De sexta para sábado, o Brasil registrou 678 novas mortes pela covid-19, chegando a um total de 186.365 óbitos desde o início da pandemia. As informações foram levantadas pelo consórcio de veículos de imprensa. Nos últimos sete dias, a média de mortes foi de 746 — o que representa variação de 27% em relação à taxa de 14 dias atrás.

São 16 dias seguidos em que o Brasil apresenta alta na média móvel de mortes, o que contradiz a tese de Bolsonaro de que a pandemia estaria “chegando ao fim”. Todas as regiões apresentam aceleração na taxa. Dezoito estados e o Distrito Federal registraram alta, seis permanecem estáveis e somente o Piauí e o Tocantins apresentaram queda. Ainda segundo o consórcio, foram confirmados 48.758 novos testes positivos de covid-19 entre ontem e hoje. Desde o início da pandemia, 7.212.670 pessoas foram infectadas

O último balanço da evolução da pandemia do novo coronavírus no país indicou um aumento de 6% nos casos e de 11% nas mortes por covid-19. Segundo o Boletim Epidemiológico número 41 do Ministério da Saúde, divulgado na quinta-feira (17), na semana epidemiológica 50, de 6 a 12 de dezembro, foi registrada média diária de 43.279, contra 40.986 na semana epidemiológica anterior. 

A curva de casos de covid-19 subiu a partir de março, atingiu seu pico em julho e começou a cair, ainda que de forma irregular, desde agosto. Em novembro, esta tendência se inverteu, com uma subida mais intensa do que no 1º semestre do ano, especialmente a partir da semana epidemiológica 46. O país saiu da média de menos de 20 mil infectados nesta semana para 43 mil no início de dezembro.

No dia 17 o Brasil voltou a bater a marca de mais de 1 mil mortes por dia. A curva de mortes por covid-19 subiu e ficou estável (em um platô, nos termos técnicos das autoridades de saúde) entre maio e agosto, quando iniciou um movimento de queda. Assim como nos casos, o ponto de inflexão ocorreu no início de novembro, com um elevação da curva, embora em menor intensidade do que na curva de casos. A taxa de incidência (casos por 100 mil habitantes) ficou em 3.274. Já a taxa de mortalidade (óbitos por 100 mil habitantes) foi de 86,2.

Com agências

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