Polêmica na Medicina: cientistas declaram guerra à Homeopatia e defendem sua exclusão do SUS

‘Contradossiê’ rebate Cremesp, CFM e até OMS e aponta suposta ineficácia dos tratamentos homeopáticos. Conheça ainda o Guia da Medicina Homeopática

Rosayne Macedo

Um grupo de cientistas brasileiros, liderados pelo Instituto Questão de Ciência (IQC), resolveu lançar uma ofensiva aos tratamentos homeopáticos justamente no Dia Nacional da Homeopatia, celebrado dia 21 de novembro. A ideia é que o Brasil siga o exemplo de outros países e exclua essa terapia usada há mais de 200 anos do rol de Práticas Integrativas e Complementares adotadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Será que vai conseguir?

De acordo com o IQC, a Inglaterra retirou a Homeopatia de seu sistema público de saúde, o NHS, após 70 anos oferecendo a prática a seus pacientes. Ainda segundo o instituto, a França – terra da Boiron, maior fabricante de preparados homeopáticos do mundo -, após extensa revisão da literatura científica, decidiu encerrar a política de reembolso pelo erário de gastos com tais medicamentos.

Vários outros países, como Alemanha, Espanha e Estados Unidos, também vêm colocando a Homeopatia em cheque. Neste último, a Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês), órgão governamental de defesa do consumidor, publicou alerta sobre a ineficácia da prática e exige que os preparados homeopáticos mencionem, no rótulo, não ter base científica.

Parte da campanha do ICQ é o lançamento do “Contradossiê das Evidências sobre Homeopatia” , concebido em resposta ao “Dossiê Especial: Evidências Científicas em Homeopatia”, divulgado por médicos homeopatas brasileiros em 2017. O Dossiê foi elaborado pela Câmara Técnica de Homeopatia do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e publicado naquele ano como edição especial da revista da Associação Paulista de Homeopatia (APH).

De acordo com o IQC, a divulgação do documento, realizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), teve ampla circulação nas diversas entidades da categoria, em todo o país. Foi ainda usada por defensores da Homeopatia para fazer frente às notícias de que os sistemas de saúde de países como Inglaterra e Austrália haviam decidido abandonar a Homeopatia, por considerá-la ineficaz.

Para cada artigo de maior relevância contido naquela publicação, os autores convidados pelo Instituto Questão de Ciência – dentre médicos, biólogos e físicos – explicam quais as falhas, metodológicas e de raciocínio, encontradas e porque invalidam o trabalho. O objetivo é “chamar a atenção da opinião pública e alertar as autoridades quanto ao uso de dinheiro público com práticas médicas que não possuem sua eficácia comprovada”.

Esperamos que os formadores de opinião e autoridades da Saúde brasileiras entendam que o dinheiro público desperdiçado com práticas não comprovadas cientificamente poderia ser muito mais bem utilizado se empregado em terapias, medicamentos e equipamentos de proteção individual cujo funcionamento seja evidenciado pela melhor ciência. Algo, aliás, que se tornou ainda mais fundamental em meio à calamidade provocada pela pandemia da Covid-19″, dispara a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do ICQ.

Ao lado do diretor científico Marcelo Yamashita e do diretor executivo do instituto, Paulo Almeida, Natália falou sobre os aspectos técnicos e as implicações legais do “Contradossiê das Evidências Científicas sobre Homeopatia” no lançamento, ocorrido sábado (21), Dia Nacional da Homeopatia, em live promovida no YouTube. A data ocorre na véspera do segundo ano de fundação do IQC, que tem como bandeira principal a defesa de políticas públicas lastreadas em evidências científicas.

Movimento vai contra prática secular reconhecida até pela OMS

O movimento lançado pelo ICQ deverá encontrar resistência não só de médicos homeopatas conceituados e outros profissionais de saúde que usam esta terapia – como odontólogos, farmacêuticos e até veterinários -, como também de uma importante parcela da população que é adepta deste método terapêutico e relata bons resultados para diversas enfermidades e transtornos, especialmente a longo prazo, em relação aos medicamentos chamados alopáticos.

Indicada para promover a cura natural pelo corpo, a Homeopatia é uma terapia que consiste em tratar uma enfermidade com a mesma substância que causa os seus sintomas, mas diluída em doses mínimas. Foi criada pelo médico alemão Samuel Hahnemann e desde então vem sendo adotada em diferentes áreas da Medicina no mundo inteiro.

Não seria diferente no Brasil, onde a especialidade médica é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina desde 1980. A Organização Mundial de Saúde reconhece a Homeopatia como medicina alternativa e complementar na prevenção, promoção e recuperação da saúde.

Ao todo, homeopatas têm à disposição um verdadeiro “arsenal” em forma de glóbulos, papelotes e gotas para tratar os pacientes: a literatura homeopática aponta 765 medicamentos e mais de 700 enfermidades descritas, acompanhadas de suas respectivas indicações terapêuticas. Alergias e transtornos como depressão e ansiedade estão entre as doenças listadas.

Estudos também relacionam o uso de homeopáticos a melhores no enfrentamento do novo coronavírus. Conforme ViDA & Ação publicou em junho, a Homeopatia como forma de diminuir os sintomas e melhorar o quadro geral de infecção da Covid-19 vem sendo alvo de vários estudos no Brasil e no mundo. A mídia mundial atribuiu a um tratamento homeopático a recuperação do Príncipe Charles, do Reino Unido, que foi acometido em março pelo coronavírus. O argumento é que a Covid-19, … Continue lendo

Instituto pede apoio financeiro para divulgar evidências científicas

Natália Pasternak, presidente do ICQ (Foto: Divulgação)

Com discurso assertivo e coerente, a microbiologista Natália Paternack se tornou famosa por conta de suas declarações em defesa da ciência no período mais obscuro da pandemia do novo coronavírus, quando o presidente Jair Bolsonaro insistia em contrariar as recomendações sanitárias mundiais sobre o isolamento social. Hoje, ela tem sua agenda lotada, com muitas participações midiáticas, sendo muito requisitada por grandes veículos de comunicação.

Com apenas dois anos de vida – contra o tradicionalíssimo Instituto Hahnemanniano do Brasil – fundado em 1859 e considerado até hoje a principal instituição homeopática brasileira -, o Instituto Questão de Ciência (IQC), criado e presidido por Natália, se apresenta como “uma associação brasileira sem fins econômicos dedicada à promoção do pensamento científico e do uso de evidências científicas nas políticas públicas”.

Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Brasil é um dos principais alvos do IQC desde que foi criado, sob o calor do fiasco da fosoetanolamina (a chamada “pílula do câncer”), bem como controvérsias envolvendo patrimônio genético e rotulagem de alimentos, conforme descrito na página sobre o IQC na Wikipedia. Ainda de acordo com o site, o IQC lista como suas frentes de atuação “a educação científica, o jornalístico científico e a militância cética”.

No Facebook do IQC, uma postagem em tom agressivo critica o Congresso Nacional por ter colocado iluminação verde para promover homeopatia. “A constatação de que, em Brasília, lobbies falam mais alto do que fatos científicos não deve ser novidade para ninguém”, diz o post com uma imagem do Congresso e a inscrição “Verde de homeopatia e também de vergonha”.

O instituto mantém no ar em seu site uma campanha que pede apoio financeiro para suas ações “na promoção da ciência e na busca por políticas públicas baseadas em evidências” que “estimulem o pensamento crítico e coloquem a ciência no lugar de destaque nos grandes diálogos nacionais e globais”. A indústria farmacêutica bilionária, que produz medicamentos alopáticos e faz pesados lobbies junto à Anvisa, ANS e outros órgãos reguladores, também pode colaborar para a manutenção do instituto.

Guia traz mais de 700 remédios homeopáticos e suas indicações

Na contramão dos fármacos, homeopatia, cura e prevenção. Considerado a mais completa referência para o estudo e aplicação da medicina alternativa no Brasil, o Guia de Medicina Homeopática teve sua 25ª edição lançada em fevereiro deste ano pelo Grupo Editorial Edipro. O livro é escrito por Nilo Cairo da Silva, conceituado médico homeopata brasileiro, e reúne o conteúdo clássico preservado em outras edições, porém, atualizado com a nova ortografia e disposto em um projeto gráfico otimizado para leitura dinâmica.

O Guia de Medicina Homeopática é um verdadeiro manual tanto para profissionais da área de saúde, quanto para pacientes que buscam um tratamento eficaz além dos fármacos para combater o desequilíbrio corporal”, explica a editora.

Para entender de forma minuciosa esse fenômeno da medicina mundial, o Guia é composto por um conteúdo introdutório e dividido em três importantes tópicos sobre o assunto: A Teoria Geral da Homeopatia; Guia Homeopático de Matéria Clínica Média – que inclui os medicamentos e indicações; Guia de Terapêutica Clínica – que traz os problemas e seus devidos tratamentos.

A obra traz contribuições importantes de outras personalidades da área, como Abrahão Brickmann, responsável por uma considerável ampliação de seu conteúdo original e prefácio, presentes nesta 25ª edição. Leigos e profissionais de Medicina, Veterinária, Odontologia e Farmácia encontrarão nesta obra todas as informações necessárias sobre a terapia.

Sobre o autor – Nilo Cairo da Silva (1874-1928) foi médico, engenheiro militar e bacharel em Ciências Físicas e Matemática. Filiado ao Instituto Hahnemanniano do Brasil, dedicou-se intensamente a estudar, experienciar e divulgar a Medicina Homeopática. Redigiu os Anais do Instituto e teve diversos artigos publicados na Revista Homeopática Brasileira, nos Annaes de Medicina Homoeopathica, na imprensa médica homeopática, na imprensa oficial, em periódicos médicos e em periódicos direcionados ao público leigo. Foi também o principal responsável pela introdução da medicina hahnemanniana no âmbito da Ciência.

Com Assessorias

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