Obesidade atinge mais as mulheres e pandemia agravou esse quadro

Mais que um quarto da população adulta sofre de obesidade no país, mas as mulheres são as mais atingidas. Especialistas explicam e dão dicas

Obesidade afeta mais as mulheres do que os homens no Brasil, aponta estudo do IBGE e Ministério da Saúde (Imagem: iStock)

É comum ver as mulheres “brigando com a balança”, tanto que algumas recorrem às dietas “milagrosas”, na esperança de perder os quilinhos indesejáveis, principalmente com o ganho de peso causado pela pandemia e isolamento social. No Brasil, o sobrepeso atinge mais as mulheres: 62,6% estão obesas ou com excesso de peso, enquanto entre os homens o problema alcança 57,5%.

Entre 2003 e 2019, a obesidade nas mulheres passou de 14,5% para 30,2%, enquanto a masculina subiu de 9,6% para 22,8%, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em outubro de 2020.

A obesidade é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal. Define-se um indivíduo como obeso quando este apresenta índice de massa corporal (IMC) maior que 30, sendo que as principais causas para esse problema incluem uma alimentação desbalanceada, principalmente rica em açúcar e gorduras, e o sedentarismo, ou seja, a falta de prática regular de atividades físicas”, explica Marcella Garcez, médica nutróloga e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

A obesidade pode ser considerada um problema de saúde pública, visto que oferece uma série de riscos à saúde, cabendo ao governo investir em campanhas de conscientização sobre os perigos que o acúmulo excessivo de gordura corporal pode causar.

É um fator de risco para o aumento do colesterol e doenças cardiovasculares, pois o excesso de gordura favorece o acúmulo de placas de colesterol nas artérias coronárias responsáveis por irrigarem o coração, aumentando a predisposição para condições como hipertensão, infarto, insuficiência cardíaca e tromboembolismo”, alerta a médica.

Estar acima do peso também pode sobrecarregar os rins, o que, somado ao aumento da pressão arterial, faz com que o órgão perca progressivamente suas funções, deixando de filtrar o sangue e produzir hormônios, o que causa, consequentemente, a doença renal crônica.”

A Diabetes tipo 2 é outra doença frequentemente associada à obesidade, visto que o abuso de açúcar e carboidratos, além de favorecer o ganho de peso, faz com que o organismo se torne resistente à insulina, o que causa a condição.

A doença hepática gordurosa não alcóolica é outra doença comumente observada em pessoas obesas, sendo caracterizada pelo acúmulo de gordura nas células do fígado. Se não tratado, isso pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, esteatoepatite, além de levar à fibrose e ao desenvolvimento de cirrose hepática”, diz a nutróloga.

Além disso, pessoas obesas  possuem maiores chances de desenvolver câncer. “O acúmulo de gordura estimula a produção de hormônios envolvidos no desenvolvimento de células cancerígenas”, explica a especialista.

Pandemia agrava o problema, diz nutricionista

A doença crônica é caracterizada principalmente pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, que crescem números alarmantes, sobretudo no período de pandemia. O problema se agrava com a pandemia do novo coronavírus e a especialista em adequação nutricional e comportamental Luanna Caramalac Munaro explica o porquê.

Conciliar a quarentena em família com o home office desencadeou doenças emocionais que afetam o modo comportamental de como as pessoas se alimentam. O importante é ficar mais atento nessa condição de isolamento social, já que o menor índice de atividades físicas e maior estresse faz com que as pessoas tenham mais propensão à compulsão alimentar, caracterizada por comer de forma descontrolada, em curto espaço de tempo, mesmo sem fome”, explica.

Destaca também a nutricionista que o consumo de alimentos ultraprocessados que possuem muitos ingredientes adicionados como açúcar, sal, gordura, e cores ou conservantes artificiais cresceu consideravelmente devido o maior prazo de validade, além de serem mais fáceis de estocar. “O ideal nesta época é ter uma alimentação saudável,  cuidar do corpo e da mente para manter o peso mesmo estando dentro de casa.

Segundo a especialista, é necessário tratar a saúde como um todo. A comida está relacionada com as relações afetivas e todas as pessoas devem cuidar da saúde nutricional e mental. O  reflexo das tensões, ansiedade, e estresse com o confinamento são características  dos tempos atuais. Buscar apoio de profissionais para avaliação nutricional que irão ajudar encontrar o equilíbrio é essencial. Assim como aumentar o hábito de atividades físicas para reduzir o comportamento sedentário”.

Dietas da moda não resolvem

Segundo o médico gastroenterologista e nutrólogo Bruno Sander, diretor do hospital Dia Sander Medical Center, na região hospitalar de Belo Horizonte, essas dietas da moda podem fazer com que a pessoa perca peso nos primeiros dias, mas o processo de emagrecimento não têm eficácia e não é duradouro. “O ideal é manter uma alimentação equilibrada e com acompanhamento adequado”.

Ainda de acordo com o especialista, emagrecer não depende só da alimentação, claro que ela é grande responsável, mas precisa estar alinhada com alguns outros hábitos. “Praticar atividade física, evitar o estresse e a ansiedade, pois eles aumentam a produção de adrenalina e cortisol, hormônios que desaceleram a queima de calor. Além de beber bastante água para auxiliar no fluxo intestinal e ter um sono tranquilo, entre 6 e 8 horas são fundamentais”, enumera.

Tratamentos não invasivos

Quando as dietas e os tratamentos já citados não surtem o efeito esperado, podem ser indicados alguns métodos não invasivos para a perda de peso, garantindo a saúde e qualidade de vida do paciente. “O balão intragástrico é um método não invasivo e indicado para pacientes com IMC igual ou maior que 27 kg/m². Ele é inserido no estômago por meio de endoscopia e sem a necessidade de internação. O tratamento pode durar até 12 meses”, citou o médico endoscopista.

Além do Balão, outras técnicas como a redução do estômago por endoscopia ou overstitch, a cirurgia bariátrica ou o plasma de argônio, procedimento a laser para quem já fez a bariátrica e voltou a ganhar peso também podem ser avaliadas de acordo com cada caso.

Não existe uma regra. É preciso avaliar caso a caso de cada paciente. Antes de decidir emagrecer é preciso procurar um médico. A ajuda de um profissional é indispensável, pois ele irá definir qual o melhor plano para que a paciente conquiste seu objetivo. E também investigar qual a causa do não emagrecimento”, conclui Sander.

Problema pode ser genético: como lidar?

Estima-se que de 40 a 70% da variação na suscetibilidade à obesidade e perda de peso seja determinada pelos genes. O tipo genético de cada organismo ajuda a explicar o motivo de diferentes pessoas ganharem ou perderem peso de forma distinta mesmo seguindo uma dieta igual e praticando a mesma quantidade de exercícios físicos.

Conhecer as alterações genéticas de cada indivíduo e basear-se nos genes para elaborar uma abordagem nutricional personalizada é extremamente interessante para ajudar a controlar o peso corporal, diminuir o risco de obesidade e otimizar a perda de peso”, explica o geneticista Marcelo Sady, pós-doutor em Genética e diretor geral da Multigene, laboratório especializado em análise genética e exames de genotipagem.

Segundo ele, o laudo do exame de nutrigenética fornece justamente informações detalhadas sobre o seu DNA e genes de cada pessoa, que podem ser interpretadas pelo médico nutrólogo para que as recomendações de dieta, nutrição e prática de atividade física sejam específicas para as necessidades e características de seu organismo, auxiliando assim na otimização do controle do peso e na prevenção de doenças.

A partir do momento em que entendemos as alterações genéticas que possuímos, podemos realizar mudanças pontuais em nossos hábitos para balancear a ação dos genes e garantirmos a manutenção de nossa saúde”, finaliza o especialista.

Como combater o problema e manter uma boa saúde

É possível investir em cuidados que ajudem a prevenir e combater o problema para a manutenção de uma boa saúde, sendo a adoção de uma alimentação saudável e balanceada o melhor método para evitar o ganho de peso excessivo.

1 – Evite consumir ‘junk foods’ e alimentos industrializados e ricos em sal, açúcar e gorduras. No lugar, aposte na ingestão de frutas, verduras, legumes, grãos, alimentos integrais e carnes magras”, aconselha a Dra. Marcella.

2 – Incluir atividades físicas na rotina é outra boa maneira de afastar os diversos problemas de saúde relacionados ao sobrepeso. “O ideal é que você pratique exercícios físicos pelo menos três vezes por semana, de preferência caminhadas, corridas, natação e ciclismo, que estão entre as práticas mais simples e eficientes para o controle do peso”, completa a médica.

3 – Caso você já sofra com obesidade, o ideal é consultar um médico nutrólogo. “Evite a todo custo receitas milagrosas para emagrecer e dietas extremamente restritivas encontradas na internet, já que, além de não serem realmente eficazes no emagrecimento, essas mudanças drásticas nos hábitos alimentares, como restrição de grupos alimentares e diminuição de calorias e refeições, podem oferecer riscos à saúde quando realizadas sem acompanhamento médico”, alerta a especialista.

O médico especializado é capacitado para prescrever um plano de emagrecimento e combate à obesidade realmente eficaz e saudável, levando em conta as necessidades e características de cada indivíduo”, diz a Dra. Marcella Garcez. O médico poderá recomendar ainda um tratamento multidisciplinar, incluindo, por exemplo, a realização de um exame genético para potencializar a eficácia do acompanhamento nutrólogico.

Obesidade em números

A obesidade é uma doença que já pode ser considerada uma epidemia no Brasil. De acordo com dados do IBGE, 26,8% da população brasileira com mais de 20 anos sofrem com o problema. A proporção de pessoas com excesso de peso na população com 20 anos ou mais de idade é de 61,7%.

A Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, realizada em conjunto com o Ministério da Saúde em 2019, mostrou que 96 milhões de pessoas, ou, mais especificamente, 60,3% da população adulta do Brasil, apresentam IMC (Índice de Massa Corporal)  maior que 25 kg/m², sendo classificadas com excesso de peso. 

As maiores prevalências encontram-se entre o sexo feminino: 62,6% das mulheres estão com sobrepeso, e 57,5% para os homens. Já em âmbito global, segundo a Organização Mundial de Saúde, estima-se que o excesso de peso e a obesidade afetam um terço da população mundial.  

Com Assessorias

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