Por que o suicídio ainda é um tema tabu na sociedade

Para romper barreira do silêncio, campanha conscientiza para a prevenção. Centro de Valorização da Vida ensina como ouvir quem sofre de problemas emocionais

Redação

A cada 40 segundos alguém se suicida. E, a cada três segundos, uma pessoa tenta se matar. O Brasil é o oitavo país do mundo em número de casos com 12 mil por ano, o que representa uma morte a cada 45 minutos. É o que mostram os dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Embora seja uma das principais causas de morte em todo o mundo – segundo dados da OMS aproximadamente 800 mil pessoas tiram a própria vida a cada ano – o suicídio não recebe o investimento necessário para campanhas de conscientização ou pesquisas, sendo tratado em sociedade como um “tabu”.

Falar sobre o suicídio e sobre os sinais de adoecimento psíquico que podem levar a esse ato extremo é a melhor forma de esclarecer os riscos e auxiliar pacientes e famílias que convivem com o problema, além de contribuir para que novos casos possam ser prevenidos, afirmam os especialistas. Mas, infelizmente, o tema ainda é um tabu na sociedade. O silêncio, o preconceito e o tabu podem se transformar em gatilhos para pessoas que estão sofrendo. Por isso, a campanha “Falar de Suicídio Não é Tabu”, uma iniciativa de caráter educativo e conscientizador realizada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), com o apoio da Libbs, traz o assunto à tona, com o objetivo de incentivar o diálogo em torno do tema.

Segundo a experiência de quase seis décadas do CVV, quando as pessoas conversam sobre suas tristezas e pensamentos suicidas sem se sentirem julgadas, têm mais facilidade para encontrar novas alternativas e seguir em frente. “Tentar reduzir o estigma relacionado ao assunto e incentivar o diálogo por meio de empatia e acolhimento é, de alguma forma, capacitar e estimular a própria população a fazer dentro de seu meio, o que os voluntários do CVV fazem nacionalmente”, explica Carlos Correia, voluntário e porta-voz do CVV. “A principal diferença é que no nosso caso há ainda o anonimato por parte de quem nos procura, o que deixa algumas pessoas mais à vontade para uma conversa aberta”, complementa.

A iniciativa consiste em ações online e offline para desmistificar pré-conceitos, reforçando a importância do diálogo para a prevenção do suicídio. Psiquiatras e representantes do CVV farão palestras educativas em faculdades de São Paulo para abordarem o tema. Nas redes sociais – Instagram, Twitter e Youtube –, foram criados canais informativos com o nome da campanha (@falardesuicidio), para abastecimento de conteúdo educativo, além da participação de influenciadores digitais engajados na causa.

Maioria sofre de doença mental

São diferentes os motivos que levam um indivíduo a tomar a decisão de acabar com a própria vida. Entretanto, 97% das pessoas possuem algum tipo de doença mental que poderia ser tratada.

Os maiores riscos para suicídio são indivíduos que tentaram anteriormente e que têm algum tipo de transtorno mental (depressão, transtorno bipolar do humor, uso e dependência de álcool e drogas, esquizofrenia). Na mesma linha, pessoas que passam por experiências de bullying, assédios de toda espécie e burnout (estresse no trabalho), têm mais chance de tentar o suicídio. Independente da causa, falar pode mudar tudo”, explica o psiquiatra Dr. José Paulo Fiks.

Doenças clínicas com tendência à cronicidade também têm se mostrado como campo de risco, como os portadores de HIV/AIDS, câncer e doenças degenerativas. Condições sociais também podem predispor ao suicídio, como, por exemplo, isolamento social, desemprego, empobrecimento e dívidas.

Nem todos são pessoas deprimidas

Mas nem sempre a depressão é a causa do suicídio,. Para o psiquiatra Ricardo Patitucci, vice-diretor clínico da Clínica Saint Roman, no Rio de Janeiro, a primeira informação importante que cabe ressaltar é a de que nem todas as pessoas que se matam ou pensam em tirar a própria vida estão deprimidas. Ou seja, existem diversos contextos e motivações para essa atitude, o que na psiquiatria chamamos de “crise suicida”.

Por exemplo , há pessoas que apresentam tal crise quando se deparam com algum tipo de frustração, e, de modo impulsivo, tentam tirar a própria vida. Nestes casos, a pessoa não apresentava um planejamento prévio, nem ruminava em sua mente pensamentos de morte. Exemplos disso são indivíduos que são surpreendidos com a falência de sua empresa; com a notícia de uma doença grave ou incapacitante; com a informação de que um ente querido faleceu; com a notícia de alguma traição conjugal, entre outras decepções”.

O especialista também relata alguns mitos acerca da ideação suicida. “Há quem diga que se o indivíduo afirmou que vai se matar é porque não o fará, alegando que quem se mata não avisa. Isso é mentira, pois a maioria das pessoas que se suicida avisa que irá se suicidar”. De acordo com ele, outro mito é que o médico ou psicólogo não deve tocar neste assunto durante a consulta, justifica ndo que isso pode despertar uma ideia de morte.

“Não é verdade. O profissional da saúde mental sempre deve questionar se o paciente cogita se suicidar, e as repercussões dessa pergunta são sempre positivas. Caso haja alguma identificação com o que foi dito, ou caso conheça alguém que possa se identificar com o que foi exposto, é de suma importância que se busque um atendimento psiquiátrico assim que possível. Quanto mais cedo ocorrer a intervenção terapêutica maiores são as chances de evitar o suicídio“.

Falar é importante. Ouvir também

Confira abaixo algumas dicas que podem servir de apoio para quem quer ajudar pessoas que estão passando por uma situação difícil.

Como ser um bom ouvinte?

  • Crie um ambiente confortável e seguro para iniciar a conversa;
  • Mantenha o olhar na pessoa (esqueça o celular por alguns minutos);
  • Tenha empatia – tente compreender a dor dessa pessoa;
  • Não interfira nas pausas e nem complete frases;
  • Não dê opiniões pessoais com exemplos da própria experiência;
  • Não faça comparações do problema dessa pessoa com a de outras;
  • Não simplifique a situação com frases como “isso passa” ou “você supera”;
  • Não responda a possíveis agressões;

O que dizer para quem precisa de ajuda?

  • Pergunte se a pessoa está pensando em suicídio;
  • Em caso de resposta positiva, pergunte o conteúdo deste pensamento;
  • Diga que tem tempo para escutá-la (“sou todos ouvidos para você neste momento”);
  • Ofereça auxílio para buscar ajuda médica profissional (muitas vezes é necessário ajudar a pessoa a chegar ao médico).

COMO SER UM VOLUNTÁRIO DO CVV

O voluntário do CVV doa seu tempo e sua atenção para quem deseja conversar com outra pessoa de forma anônima, sigilosa e sem julgamentos ou críticas.

Se você tem mais de 18 anos de idade, pelo menos quatro horas disponíveis por semana e vontade de ajudar pessoas, você pode ser um plantonista do CVV. Para isto, você precisa participar de um curso gratuito de preparação de voluntários, em um dos 110 postos de atendimento em todo o país ou no ambiente virtual. As principais frentes de atuação do plantonista são o atendimento por telefone, e-mail e chat.

Para se cadastrar e participar gratuitamente do curso presencial ou virtualmente, acesse o site do CVV em cvv.org.br/voluntario/

Também é possível ser um voluntário-especialista, nos auxiliando com seus conhecimentos e habilidades próprias, como, por exemplo, na divulgação, captação de recursos ou tecnologias. Nesse caso, pedimos que entre em contato pelo e-mail: comunicacao@cvv.org.br

Sobre o CVV

O CVV presta serviço voluntário e gratuito de prevenção do suicídio e apoio emocional para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo. Os cerca de 3 milhões de atendimentos anuais são realizados por 3.000 voluntários em mais de 100 postos de atendimento pelo telefone 188 (sem custo de ligação), ou pelo www.cvv.org.br via chat, e-mail ou carta. A entidade realiza também ações presenciais, como palestras, Curso de Escutatória e grupos de apoio a sobreviventes do suicídio – GASS (www.cvv.org.br/cvv-comunidade/).

Da Redação, com Assessorias

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