Preconceito expõe crianças e adolescentes ao risco de HPV

É o que apontam especialistas no Janeiro Verde, mês dedicado à prevenção do câncer de colo de útero, doença causada pelo vírus contraído em relações sexuais

Redação
Meta é imunizar 1.5 milhão de meninos e meninas de 9 a 14 anos no Rio. Foto: iStock

Preconceito, falta de incentivo e educação sexual precária são os principais motivos para que a contaminação pelo Papilomavírus Humano (HPV) cresça entre crianças e adolescentes no país, levando ao aumento de doenças como o câncer de colo de útero entre mulheres jovens e adultas. O alerta é de especialistas durante o ‘Janeiro Verde’, campanha mundial dedicada a conscientizar e alertar a população feminina sobre a prevenção à doença.

Também conhecido como câncer cervical, este é o terceiro tumor maligno mais incidente entre a população feminina (atrás do câncer de mama e do colorretal), excetuando-se o câncer de pele não-melanoma. É, ainda, a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil.

O principal fator de risco para o desenvolvimento de 90% dos casos de câncer do colo do útero é a infecção persistente pelo HPV, uma infecção sexualmente transmissível (IST) que afeta indivíduos do sexo masculino e feminino, da infância à fase adulta.

O Brasil é um dos líderes mundiais em incidência de HPV. O ministério da saúde registra 137 mil novos caso no país a cada ano. As vítimas preferenciais são mulheres entre 15 e 25 anos, embora a doença também acometa os homens. O número menor de registros no sexo masculino pode ser explicado pela baixa procura dos homens por serviços de urologia, preconceitos ou falta de informação, o que tornaria a doença subnotificada.

Apesar de nem sempre ter cura, existe prevenção e tratamento. A vacina contra o HPV é uma das ferramentas para a prevenção ao câncer do colo do útero. Mas, infelizmente, a cobertura da vacinação contra o HPV ainda é muito baixa no Brasil.

No Brasil, o Ministério da Saúde implementou, em 2014, no Sistema Único de Saúde a vacinação gratuita para meninas de 9 a 13 anos. A partir de 2017, a vacinação foi ampliada para meninas de 14 anos e meninos de 11 a 14 anos. Essa vacina protege contra os subtipos 6, 11, 16 e 18 do HPV. Uma preocupação do Ministério da Saúde é que a imunização entre as meninas é muito maior do que entre os meninos: apenas 22% dos meninos na faixa etária indicada tomaram a segunda dose. Entre as meninas, 51%.

O preconceito é o fator responsável para que não haja interesse na vacinação e, na maioria dos casos, oriundo dos pais. Muitos pensam que ao falar do assunto, podem despertar nas crianças um interesse sexual que não é bem-vindo na idade prevista para a vacinação”, afirma Juliane Gomes, infectologista do HSANP, centro hospitalar da Zona Norte de São Paulo.

Sintomas e diagnóstico

Oito entre dez mulheres sexualmente ativas contraem pelo menos um tipo de papilomavírus ao longo da vida.  A maioria das pessoas não apresentam nenhum sintoma ao contrair a doença e, por isso, não procura tratamento. Esse comportamento é o grande responsável pela disseminação do vírus, que possui 150 tipos (cepas) de vírus. Os subtipos HPV16 e o HPV18 são os mais vinculados ao desenvolvimento deste câncer e estão presentes em cerca de 70% dos casos.

O principal sintoma do HPV é o surgimento de várias pequenas verrugas na região íntima, que geralmente se acumulam muito perto uma das outras, formando uma espécie de “crosta”. Por isso, toda atenção é válida, as verrugas ou bolinhas como são chamadas muitas vezes, podem surgir nas mãos, coxas, boca, podendo ser confundidas com um sinal ou doença de pele.

A infecção pelo HPV pode provocar doenças graves, como lesões na vagina, pênis, ânus e o câncer de colo do útero. Por se tratar de um vírus, não há um tratamento específico. O que é feito, na maioria dos casos, é o tratamento das verrugas de forma individualizada. Para o procedimento são utilizados o laser, a eletro cauterização, o ácido tricloroacético e medicamentos para reforçar o sistema imunológico do paciente.

Outros fatores de risco são: imunossupressão (infecção pelo HIV, por exemplo), início precoce da atividade sexual e com múltiplos parceiros, uso prolongado de anticoncepcionais orais e o tabagismo. Dentre os fatores de proteção tem-se que mencionar os métodos de barreira, como as camisinhas, durante a relação sexual.

Para os portadores do vírus HIV, a faixa etária é maior, vai de 9 a 26 anos, e o programa vacinal é de três doses, contendo intervalos de 0, 2 e 6 meses. Vale lembrar que a vacina é gratuita nos postos de saúde, podendo ser facilmente encontrada.

O mais importante é que o HPV pode ser prevenido, porém, o preconceito em relação à doença não pode ser maior que o tratamento. Portanto, informe-se, vacine-se e converse com seus filhos, o papel dos pais na educação e prevenção de doenças sexuais é fundamental”, comenta a Dra Juliane.

Exame preventivo é fundamental

O exame preventivo do câncer do colo uterino (Papanicolau) é a principal estratégia para a detecção de lesões precursoras e o diagnóstico da doença em fase inicial e deve ser realizado periodicamente. É fundamental destacar que mesmo as mulheres vacinadas devem realizar o exame preventivo. 

“Em relação aos sinais e sintomas mais comuns, devemos ressaltar que eles são inespecíficos ou já podem indicar doença em estágios mais avançados”, afirma a Dra. Cristiane Rocha, oncologista do CON – Oncologia, Hematologia e Centro de Infusão. “Entre os sintomas, destacam-se: sangramento vaginal, corrimento ou secreção atípica vaginal, dor e/ou sangramento após relação sexual e dor na região pélvica”.

O câncer de colo do útero tem altíssimas chances de ser prevenido ou de ser tratado precocemente de maneira curativa. Entre os tipos de tratamento estão a cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia. “O tratamento varia de acordo com o estadiamento (estágio de evolução da doença) que é definido por exame ginecológico a ser realizado por ginecologista especializado em oncologia e exames de imagem.  A curabilidade em estádio I gira em torno de 95% e por isso a importância do exame preventivo regularmente para o diagnóstico precoce”, afirma a especialista.

  • Com Assessorias

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