Preparem-se: o lockdown vem aí, diz Átila Iamarino

Com taxa de letalidade 15 vezes maior que a da gripe comum, Covid-19 pode matar 1 milhão de brasileiros se medida extrema de isolamento social não for tomada

Redação

Aos 36 anos, ele ganhou fama ao fazer projeções muito assertivas desde que tudo isso começou, em março deste ano. E também um dos principais defensores do isolamento social como estratégia fundamental para mitigar os efeitos da pandemia no Brasil. Agora, em uma transmissão ao vivo em seu canal no Youtube, o biólogo e virologista Átila Iamarino faz uma análise catastrófica para o país no dia em que atingimos 100 mil casos confirmados da Covid-19 e 7 mil mortes. 

Para o pesquisador, o número de mortes deve ser muito maior do que o divulgado oficialmente, por conta da subnotificação.  “O Brasil está perdendo 90% dos seus casos. Se não é o pior país, é o segundo pior. A gente retomou um crescimento que parece o começo da pandemia, com entre dois e três infectados por pessoa infectada e estamos com um caso de subnotificação seríssimo de 90%”, disse, citando um estudo feito pelo Imperial College.

Para Iamarino, o lockdown decretado em São Luís nesse domingo (3) precisa ser uma medida tomada com urgência em diversas outras cidades. “É provável que, se você mora em um local desse (como São Paulo e Rio de Janeiro), você tenha que entrar em lockdown”, explicou. Segundo ele, o caos que já chegou a algumas regiões deve se generalizar nas próximas semanas. E cada dia perdido nessa medida significará um incremento muito acentuado de morte.

O pesquisador e divulgador científico atribuiu o salto nos números ao afrouxamento das medidas de isolamento social verificado nas últimas semanas. Segundo ele, o Brasil havia começado bem o enfrentamento da pandemia, com as medidas restritivas impostas em diversos municípios e estados. No entanto, agora, o país se aproxima daqueles mais atingidos, como os Estados Unidos, epicentro da doença no mundo,  com mais de um milhão de infectados. 

O Brasil estava crescendo de forma contida e, se a gente tivesse continuado a seguir bem a quarentena, mantendo todo mundo em casa e com o isolamento social, estaríamos seguindo a tendência de contenção. Se o Brasil estivesse caindo em número de óbitos por dia, a gente podia conversar sobre possíveis saídas da quarentena. Mas, a nossa tendência atual é de subida. A gente quase conseguiu segurar as coisas, retomou uma tendência de crescida e estamos seguindo a tendência de morte dos Estados Unidos. É simplesmente a consequência das nossas atitudes”, afirmou.

Iamarino explicou que a letalidade da Covid-19 é 15 vezes maior que a da gripe comum. A estratégia da “contaminação de rebanho”, defendida por alguns, de que boa parte da população deverá se contaminar para a maioria se autoimunizar, representaria pelo menos mais de um milhão de mortos, número apontado pelo biólogo há um mês, em sua primeira live.

Nosso problema não foi embora e não vai embora tão cedo. O Brasil quase conseguiu evitar isso. Voltamos a circular e o preço disso será muito caro. Voltamos a crescer em um ritmo em que a gente dobra de casos a cada cinco dias ou menos. O Brasil ruma a ser o novo líder de novos casos, se conseguirmos registrar esses casos, e em número de óbitos”, disse ele, ao prever um caos no sistema público de saúde em diversas regiões por conta da subida nos números da doença.

A ação dos governadores decretando rapidamente quarentena quando se contabilizava poucos casos no Brasil fez a curva de mortes no país iniciar um declínio que permitiria ao país, hoje, já estar discutindo formas e prazos de relaxar com segurança o isolamento social.

Porém, a mesma ação que impediu uma explosão de mortes e lotação das UTIs em um primeiro momento da pandemia fez com que a quarentena fosse relaxada pelo uso político, que ele não nomeou diretamente, mas que nós sabemos qual foi. O resultado foi o crescimento veloz da curvas de mortes e contaminados e os sistemas de saúde do país caminhando para um colapso generalizado.

O esforço em analisar a situação brasileira esbarra ainda na falta de dados confiáveis do Ministério da Saúde, que não informa o nível de ocupação das UTIs do país e que não tem feito testes suficientes para se acompanhar e minimizar os efeitos da pandemia. Há que se estimar a real situação com os dados informados pelas secretarias estaduais que, mesmo tomados nas melhores estimativas, mostram uma tragédia de grandes proporções a caminho.

Iamarino acredita que o Brasil começou bem, com as medidas de isolamento social e quarentena impostas no país inteiro. No entanto, agora, com  afrouxamento em diversos estados, a situação pode piorar. Com isso, está se aproximando dos países mais atingidos, como os Estados Unidos, que têm mais de um milhão de infectados e é, atualmente, o epicentro da doença.

Nesse ponto da pandemia, para Iamarino, o relaxamento é muito mais nocivo. “Você provavelmente vai continuar em quarentena por um bom tempo, se não entrar em lockdown. Isso está acontecendo porque as outras pessoas que não acreditam nisso, não estão seguindo a quarentena”, afirmou. “O inverno está vindo aí, a gente está a caminho de não ter leitos, vamos ter um colapso da saúde logo mais e a gente já está em uma situação de Itália e Espanha de, logo mais, ter que escolher quem vai ter atendimento ou não.”

A rede privada do Rio de Janeiro, segundo a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), já está perto de um colapso, com uma média de ocupação total na rede filiada de 80%.

 

De acordo com um relatório oficial do Ministério da Saúde, o Brasil tem quatro vezes mais internação por falta de ar do que o esperado para o período, sem contar os casos de coronavírus. “Isso pode aumentar de quatro a cinco vezes o número de casos confirmados que temos até agora”, disse o pesquisador. “Se estamos registrando 100 mil casos de covid, a gente tem, tranquilamente, meio milhão de casos — ou até mais.”

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