Público LGBTI que vive nas ruas do Rio ganha hotel popular

Centro Provisório de Acolhimento vai receber 50 pessoas em situação de vulnerabilidade. Ação da Cidadania distribui 10 toneladas de alimentos a ONGs LGBTI

Redação
Hotel popular no Centro do Rio oferece 50 vagas exclusivas para população LGBTI (Fotos: Mariana Ramos / Prefeitura do Rio)

Orgulho LGBTI também é ter acesso a condições dignas de sobrevivência. Paulista de 45 anos, a trans Fernanda Gaspar morou na Itália por 11 anos e no final de 2019 foi deportada para o Brasil. Há cerca de nove meses está no Rio de Janeiro e acabou em situação de rua. A situação de Fernanda vai mudar a partir deste domingo (28), Dia Internacional do Orgulho LGBT.

Ela é uma das primeiras hóspedes do Centro Provisório de Acolhimento (CPA), um espaço criado pela Prefeitura do Rio exclusivamente para receber pessoas em situação de rua, na Rua Tenente Possolo 49, no Centro. O novo CPA conta com 50 vagas que serão dedicadas totalmente à população LGBT+ (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais) em situação de rua e vulnerabilidade social, principalmente aquelas vítimas da crise sanitária causada pela Covid-19.

Resolvi procurar um abrigo. Fiquei no Centro de Recepção da Ilha dois meses e depois fui para o Rio Acolhedor. Nesses espaços, quando ficamos juntos com outras pessoas, tem muito preconceito, muita homofobia, não há privacidade nem na hora de tomar banho. Então estou achando muito bom esse novo espaço”, conta.

Outra que também aprovou a nova moradia é a transexual Paola de Oliveira Gomes da Silva. “Gostei da iniciativa da prefeitura de abrir esse espaço só pra nós, que somos excluídos da sociedade. Aqui é um lugar que vamos ficar bem acolhidos e mais à vontade. Eu estava antes no Rio Acolhedor, na ala das mulheres, mas com essa inauguração, agora temos o nosso próprio espaço”, afirma.

Hotel popular oferece quartos com banheiros e refeições

Além da moradia em um hotel no Centro, com quartos duplos e triplos, banheiros individuais, área ao ar livre e refeições diárias, o CPA conta com serviços sócio-assistenciais. O espaço criado pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) e pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS- Rio) funciona em parceria com o núcleo de atendimento Luana Muniz, que ganhou esse nome em homenagem à travesti que desenvolveu um trabalho social na Lapa e abrigou durante décadas travestis e pessoas trans em um casarão.

A secretária Tia Ju destacou ainda que as equipes de abordagem da SMASDH já realizam diversos atendimentos à população LGBT+ que vive em situação de rua, oferecendo acolhimento e toda assistência necessária. Ela ressaltou a importância da nova unidade.

A diferença agora é que eles terão um espaço voltado somente para eles, com uma equipe capacitada especificamente para atendê-los. Tenho certeza que muitos aceitarão o acolhimento a partir de agora”, afirma a secretária Tia Ju, que recebeu os 12 primeiros moradores do abrigo CPA4.

A CEDS Rio organizou uma campanha arrecadou mais de mil peças de roupas de inverno, calçados, cobertores e itens de higiene pessoal, destinadas aos moradores do hotel popular. “O abrigo chega em um dos momentos mais críticos que passamos. Diante da crise da Covid-19, esse grupo também foi fortemente atingido”, disse o coordenador especial da Diversidade Sexual, Nélio Georgini.

280 vagas para pessoas em situação de rua

No local, Tia Ju lembrou das vítimas da Covid-19 e ressaltou que a Secretaria tem feito todos os esforços para que a população em situação de rua tenha o acolhimento que tanto necessita. “Este é o quarto CPA implementado pela Prefeitura desde o início da pandemia do novo coronavírus na cidade. Ao todo, são 280 vagas nos quatro centros, com mais de 230 atendidos até então.

No ato de inauguração, foi feita uma homenagem às vítimas da Covid-19 e profissionais de saúde que continuam atuando na linha de frente no combate à pandemia. “Quero pedir um minuto de silêncio em homenagem aos que faleceram, inclusive vários servidores nossos que não resistiram a essa doença”, disse Tia Ju.  Foram soltos balões coloridos – simbolizando a comunidade LGBT – e brancos – uma homenagem aos mortos. Um bandeirão com as cores do arco-iris, símbolo da comunidade LGBT, também foi estendido no local.

Ação da Cidadania distribuirá cestas básicas no RJ e SP

Na semana que se inicia, em que o mundo se une para celebrar o Dia do Orgulho LGBTI+, a Ação da Cidadania atenderá organizações com foco nesse segmento populacional nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo  a partir do dia 29 de junho. Serão quase 20 entidades atendidas, entre elas a Casa Nem, Grupo Pela Vidda e Maré Sem Preconceito (RJ).

As doações fazem parte da campanha Ação Contra o Corona, que desde março ajuda a famílias impactadas pela crise do novo coronavírus. No Rio, serão 10 toneladas de alimentos não perecíveis e cada entidade receberá uma tonelada. Já em São Paulo, são cerca de 100 cestas de alimentos não perecíveis para as organizações que atendem LGBTI+ em situação de vulnerabilidade.

Muitas dessas pessoas são expulsas de casa em decorrência da LGBTIfobia e recorrem às casas de acolhimento ou a entidades de defesa de direitos civis. Além disso, travestis e transexuais trabalhadoras do sexo, com a crise da Covid-19, perderam suas principais fontes de renda. Por isso, esperamos que estes alimentos ajudem a manter de pé a força e o orgulho de serem quem são!”, afirma o diretor-executivo da Ação da Cidadania, Rodrigo “Kiko” Afonso.

No Rio de Janeiro, as organizações vão recolher as cestas básicas na sede da Ação da Cidadania, localizada no galpão Docas Pedro II (Av. Barão de Tefé 75, Saúde) a partir das 10 horas. As entidades atendidas são Grupo Transrevolução, Conexão G, Maré sem Preconceito, Grupo Arco-Íris, Casa da Diversidade da Baixada, Grupo Pela Vidda, Associação Gonçalense LGBTI+, Grupo Transdiversidade Niterói e Frente Internacionalista dos Sem-Teto LGBTIA+.

Já em São Paulo, até o momento, sete organizações serão beneficiadas: Casa Florecer, Casa Chama, Coletivo Aurochianos, Mariana Munhoz, Família Stronger, Instituto Nice e Eternamente Sou. A ação acontecerá na Rua Flor da Noiva 700, Itaquaquecetuba.

Para doar – Existem várias formas de doação para a Ação da Cidadania, além da possibilidade de se tornar voluntário em campanhas e projetos diversos, como o Natal Sem Fome, que já se aproxima. Muitas delas, inclusive, via plataformas digitais como a Ame, iFood, Benfeitoria etc. Todas as maneiras de doação estão disponibilizadas no site www.acaodacidadania.com.br.

Com Assessorias