Relatório Unaids aponta que milhões de vidas estão em risco no mundo

Pandemia de Aids ainda tira uma vida a cada 60 segundos, resultando em 650 mil mortes pela doença, apesar do tratamento eficaz do HIV

Mundialmente, o número de novas infecções por HIV, o vírus que transmite a Aids, diminuiu apenas 3,6% entre 2020 e 2021, o menor declínio anual de novas infecções desde 2016. Europa Oriental e Ásia Central, Oriente Médio e Norte da África e América Latina viram aumentos nas infecções anuais de HIV. Os dados alarmantes são do último relatório do Unaids, lançado nesta quarta-feira (27).

O relatório “Em Perigo” sobre a resposta global ao HIV aponta que na Ásia e no Pacífico – a região mais populosa do mundo -, pela primeira vez, as novas infecções estão aumentando onde anteriormente tinham diminuído. O documento mostra que durante os últimos dois anos, permeados pela pandemia de Covid-19 e outras crises globais, o progresso contra a pandemia do HIV enfraqueceu, os recursos diminuíram e, como resultado, milhões de vidas estão em risco.

Há algumas notícias positivas, incluindo um notável declínio em novas infecções por HIV na África Ocidental e Central e no Caribe. Porém, mesmo nessas regiões a resposta ao HIV é ameaçada pela crise financeira e consequente diminuição de recursos disponíveis.

“Esses dados mostram que a resposta global à AIDS está em grave perigo. Se não estamos progredindo rapidamente, isto significa que estamos perdendo terreno, pois a pandemia de AIDS acaba avançando em meio ao COVID-19, ao deslocamento de populações em massa e outras crises. Não podemos perder de vista as milhões de mortes evitáveis que estamos trabalhando para impedir que aconteçam”, diz Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids.

Como resultado do enfraquecimento no progresso da resposta ao HIV, em 2021 houve aproximadamente 1,5 milhão de novas infecções em todo o mundo. Isto é mais de um milhão de infecções além das metas globais estabelecidas para o mesmo período.

Uma vida perdida a cada 60 segundos

A pandemia de Aids tirou uma vida a cada 60 segundos, em média, resultando em 650 mil mortes pela doença, apesar do tratamento eficaz do HIV e das ferramentas para prevenir, detectar e tratar infecções oportunistas. As grandes desigualdades dentro dos países e entre eles estão paralisando o progresso na resposta ao HIV, o que acaba alimentando um círculo vicioso, gerador de mais desigualdade.

O relatório do Unaids também mostra que os esforços para garantir que todas as pessoas vivendo com HIV tenham acesso ao tratamento antirretroviral que salva vidas estão falhando. O número de pessoas em tratamento de HIV evoluiu menos em 2021 do que nos 10 anos anteriores.

Enquanto 3/4 de todas as pessoas que vivem com HIV têm acesso ao tratamento antirretroviral, ainda há aproximadamente 10 milhões de pessoas sem acesso aos medicamentos. Apenas metade (52%) das crianças que vivem com HIV em todo o mundo têm acesso a medicamentos que salvam vidas. Entre crianças e adultos não houve diminuição na lacuna de cobertura do tratamento do HIV.

Desigualdade social

O relatório expõe as consequências devastadoras que podem resultar da falta de ação imediata para combater as desigualdades que impulsionam a pandemia. Se a trajetória atual persistir, em 2025 o número de novas infecções de HIV pode chegar a 1,2 milhão. Ocorre que, para aquele ano, os Estados-membros da ONU estabeleceram uma meta de menos de 370 mil novas infecções por HIV. Isto significa não apenas perder a meta, mas ultrapassá-la em 69%.

“Estas milhões de novas infecções evitáveis por HIV todos os anos tornam cada vez mais difícil e caro garantir que as pessoas vivendo com HIV tenham acesso ao tratamento que salva vidas. E isto amplia os efeitos das desigualdades, atingindo especialmente as pessoas em situação de maior vulnerabilidade”, ressalta Claudia Velasquez, diretora e representante do UNAIDS no Brasil. “Sem contar, também, que dificulta a meta de acabar com a pandemia de AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 seja alcançada”, completa.

Financiamento

Os choques globais, incluindo a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia, exacerbaram ainda mais os riscos para a resposta ao HIV. O pagamento da dívida dos países mais pobres do mundo atingiu 171% de todos os gastos com saúde, educação e proteção social combinados, sufocando suas capacidades de responder à Aids. O financiamento doméstico para a resposta ao HIV em países de baixa e média renda caiu por dois anos consecutivos.

A guerra na Ucrânia aumentou drasticamente os preços globais dos alimentos, amplificando os efeitos negativos da falta de segurança alimentar das pessoas que vivem com HIV em todo o mundo, tornando-as muito mais propensas a sofrer interrupções no tratamento do HIV.

Em um momento em que a solidariedade internacional e um novo fluxo de financiamento são mais necessárias, muitos países de alta renda estão cortando a ajuda. Com isso, os recursos para a saúde global estão sob séria ameaça. Em 2021, os recursos internacionais disponíveis para o HIV foram 6% menores do que em 2010.

A assistência ao desenvolvimento no exterior para o HIV proveniente de doadores bilaterais, que não os Estados Unidos, despencou 57% na última década. A resposta ao HIV em países de baixa e média renda está US$ 8 bilhões abaixo do montante necessário até 2025. “Podemos acabar com a AIDS até 2030, como prometido, mas é preciso coragem para agir”, finaliza Winnie Byanyima.

Como acabar com a Aids até 2030

Em 2021, na Assembleia Geral da ONU, as lideranças mundiais aprovaram um roteiro pelo qual é possível acabar com a AIDS até 2030 – mas somente se as lideranças o cumprirem. O plano é realizável e acessível – e, de fato, acabar com a AIDS custará muito menos dinheiro do que não acabar com ela. É importante ressaltar que as ações necessárias para acabar com a AIDS também prepararão melhor o mundo para se proteger contra as ameaças de futuras pandemias.

Os passos comprovados para acabar com a AIDS até 2030 incluem: serviços liderados e centrados nas comunidades; a defesa dos direitos humanos, a eliminação de leis punitivas e discriminatórias e o combate ao estigma e à discriminação; o empoderamento de meninas e mulheres; igualdade de acesso aos serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento, incluindo às novas tecnologias de saúde; e serviços de saúde, educação e proteção social para todas as pessoas, especialmente as afetadas ou vivendo com HIV e AIDS em situação de maior vulnerabilidade.

Agenda Positiva

INI/Fiocruz participa da 24ª Conferência Internacional de Aids

O Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) marca presença na 24ª Conferência Internacional de Aids, de 29 de julho a 2 de agosto, em Montreal (Canadá). Além de organizar um simpósio satélite, pesquisadores do INI/Fiocruz estarão participando de sete conferências e apresentarão um total de 12 pôsteres. O evento é considerado o mais importante sobre o HIV/Aids no mundo e acontece a cada dois anos. Segundo os organizadores nesta edição, na modalidade híbrida, deve reunir aproximadamente 15 mil participantes.

Dando início à participação do INI/Fiocruz, a pesquisadora Beatriz Grinsztejn, presidente eleita da International Aids Society (IAS) para a gestão 2024-2026, estará em dois eventos pré conferência. Na quarta-feira (27/7), Beatriz participou da pré conferência que teve como tema Getting to the Heart of Stigma – Addressing stigma is not enough, falando sobre Promoting clinical excellence for U=U. Nesta quinta-feira (28/8), a pesquisadora participou de uma coletiva de imprensa sobre a segurança do uso e a eficácia do cabotegravir associado a terapia hormonal das mulheres trans no âmbito do estudo HPTN 083. Para acompanhar a coletiva virtualmente é necessário fazer inscrição prévia.

Sabia mais sobre a participação do INI/Fiocruz na Conferência.

Com Unaids e Fiocruz

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