Rio contraria estudos da Fiocruz e UFRJ e inicia volta às atividades

Prefeito Marcello Crivella permite acesso às praias a partir desta terça (2). Já governador Wilson Witzel mantém fechadas e reedita medidas restritivas até sexta-feira

Redação
Praias: território liberado ou proibido no Rio? (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)

O Brasil ainda não chegou ao ponto alto da curva de crescimento da pandemia do novo coronavírus e por isso não pode afrouxar as medidas de isolamento social, necessárias para tentar frear o ritmo da doença, que já matou mais de 30 mil pessoas e infecctou mais de meio milhão. Mas a pressão das empresas para abrir o comércio, a indústria e o setor de serviços está falando mais alto, inclusive no Rio de Janeiro, que detém a segunda posição nas estatísticas oficiais da Covid-19, com taxa de letalidade que passa de 10%, uma das maiores do mundo.

Contrariando recomendações técnicas, a cidade do Rio de Janeiro iniciou nesta terça-feira (2) a reabertura das atividades econômicas, anunciada na véspera pelo prefeito Marcelo Crivella. Já o governador Wilson Witzel prorrogou até sexta-feira (5) as medidas de prevenção e enfrentamento à propagação do novo coronavírus no Estado do Rio de Janeiro. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)  recomendou que as medidas restritivas sejam ampliadas na cidade e não relaxadas neste momento, já que o nível de transmissão da Covid-19 ainda está muito alta, com cada paciente com coronavírus contaminando mais de duas pessoas

Enquanto Witzel manteve a recomendação para que a população fluminense não frequente praias, lagoas, rios e piscinas públicas e clubes, Crivella resolveu permitir que praias e parques sejam frequentados. Um decreto publicado pelo município permite a prática de atividades físicas no calçadão e de esportes aquáticos individuais, como o surfe. Também foram liberados voos livres individuais.

reabertura das atividades econômicas no Rio teve início hoje (2), conforme anunciado ontem pelo prefeito Marcelo Crivella. O plano completo, com seis fases de 15 dias cada, prevê a normalização de todas as atividades em agosto. Mas as fases podem ser estendidas ou encurtadas, de acordo com a avaliação do Comitê Científico que assessora a prefeitura na crise da pandemia de covid-19.

Fiocruz critica retorno às atividades

.A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) avalia que ainda há problemas relacionados aos registros de casos e óbitos e que não há clareza em relação às informações sobre filas, leitos hospitalares e unidades de terapia intensiva (UTIs). Segundo a Fiocruz, não há indicações de que a pandemia esteja “sob controle”, e o sistema de saúde “não tem condições de responder tanto aos níveis atuais, quanto ao aumento do número de casos”.

Além de estabelecer que as determinações de isolamento continuam valendo durante esta semana, o decreto publicado no Diário Oficial do Estado do Rio, esclarece que as forças de segurança pública seguem auxiliando as ações das prefeituras.  O Governo do Estado informou que vai acompanhar o mapa de incidência de evolução da doença nos próximos dias para definir um cronograma de flexibilização gradual das restrições.

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, vê com preocupação as medidas de relaxamento nas restrições adotadas na cidade do Rio de Janeiro no combate à pandemia do novo coronavírus (Sars- CoV2). Para ela, não se pode reduzir as medidas sem a garantia de um forte sistema de vigilância ativa que vai precisar ser instituído. Segundo a presidente, as medidas são duras e representam um remédio amargo e, por isso, é necessário envolvimento da sociedade.

“Vejo com muita preocupação a redução das medidas de isolamento. Vejo com muita preocupação a situação de áreas vulneráveis, favelas. Tem tido uma atuação muito grande a partir de redes em que a academia e articuladores de movimentos sociais em favelas e outros grupos vulneráveis para pensar políticas. Vejo uma preocupação muito também com a Região Norte do país onde o efeito tem sido devastador da pandemia atingindo áreas indígenas”, disse a presidente. Durante um debate transmitido pelo Facebook, promovido pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro

Parâmetros internacionais

A presidente lembrou de parâmetros que têm sido acordados por fóruns da Organização Mundial de Saúde (OMS) e aplicados com algumas diferenças entre os países. Além disso, existe uma comunidade de especialistas  dedicada ao tema no Brasil. “Na Fiocruz esse é um tema constante no nosso Observatório dedicado à covid-19. Então, o risco vai continuar a existir na medida em que a população não tem uma imunidade para este vírus, por um período que nós nem podemos determinar com exatidão”, afirmou.

“No caso do Rio de Janeiro, estamos ainda na subida da curva, então, são parâmetros também do sistema de saúde dar resposta, principalmente, nos leitos de UTI.”

Ela destacou os países que estão adotando medidas de relaxamento, e muitos vem fazendo isso de acordo com a evolução da pandemia, adotam níveis de cautela para entrar nessa fase. “Acho que a Alemanha é um exemplo clássico disso”, destacou, lembrando que há imensas diferenças entre o país europeu e o Brasil e que, portanto, não se poderia repetir as experiências da mesma forma. A presidente afirmou, entretanto, que há exemplos na Índia, onde as políticas são bem conduzidas e podem ser levadas em consideração.

“Acho que isso tem que ser olhado de acordo com o momento epidêmico sem dúvida nenhuma e ainda estamos, no caso do Rio de Janeiro, em subida da curva. Os parâmetros que tem que ser adotados são os de redução sustentada de casos, de possibilidade do sistema de saúde dar resposta, principalmente, através de estrutura de leitos de UTI para os casos que agravam”, disse, acrescentando que a testagem, a atuação da estratégia da saúde da família e dos agentes comunitários fazendo vigilância, são fundamentais nesse momento.

Vacina

Para a presidente, a produção da vacina contra a Covid-19 é fundamental e um grande desafio para a proteção da sociedade. Um grupo de pesquisa da Fiocruz de Minas Gerais está dedicado à produção de uma vacina, levando em conta a urgência, a eficácia e a segurança. “Nessa perspectiva, estamos discutindo com o departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério de Saúde e a Secretaria de Vigilância em Saúde um painel de vacinas promissoras candidatas, vendo aquelas que estão em estágio mais avançado construindo uma matriz sobre isso, para que se possa tomar uma decisão sobre quais caminhos o Brasil deve seguir nessa área, levando em conta a necessidade de ter uma vacina no prazo mais curto possível, sua eficácia e segurança”, informou.

Além da descoberta da vacina também está em discussão sua produção no Brasil. “Sem dúvida nenhuma Bio Manguinhos [Instituto de Tecnologia em Imunológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz)] e a Fiocruz teriam um papel fundamental na produção dessa vacina. Estamos, nesse momento, na construção desses caminhos, avaliando com o Ministério da Saúde todas as propostas de quais vacinas podem ser produzidas no país”, indicou.

Segundo a presidente, não se pode esquecer que a construção do Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde (Cibs), previsto para ser inaugurado em 2023, em Santa Cruz, na zona oeste do Rio, vai permitir um avanço do Brasil na produção de vacinas e biofármacos. “É muito importante colocar essa questão do futuro do país e que tem a ver com a capacidade de reversão industrial na produção. Temos um projeto de futuro e é fundamental de fazer nesse momento”, concluiu.

Testes

A presidente disse que a linha de trabalho de pesquisa e desenvolvimento tecnológico em Bio Manguinhos tem permitido que a Fiocruz dê respostas à pandemia e prometeu, para setembro, a entrega de 11 milhões de testes. “É uma resposta necessária nesse momento de pandemia e era, desde o inicio, pelo tempo todo que nós lidamos com essa questão de restrição e ausência de testes. A Fiocruz está caminhando para a entrega, em setembro, de 11 milhões de testes. Isso é possível porque nós temos desenvolvimento tecnológico, nós temos unidades produção, no caso Bio Manguinhos, que produz vacinas e também testes”, disse.

Nísia destacou que para ampliar a produção, Bio Manguinhos tem uma parceria com o Instituto Tecnológico do Paraná (Tecpar) por meio do Instituto de Biologia Molecular do Paraná. “Essa área é fundamental no combate à pandemia, mas temos procurado sobretudo ter uma visão integrada como o SUS [Sistema Único de Saúde] exige de nós. Não olharmos a produção desvinculada das políticas de vigilância, do conhecimento necessário sobre a pandemia”, disse.

Hospital

Nísia Trindade afirmou que a Fiocruz criou, em dois meses, o Centro Hospitalar dedicado à Covid-19, que vai fazer trabalho permanente relacionado a doenças infectocontagiosas. Ela lembrou que, desde a sua origem, a fundação tem um hospital dedicado a doenças infecciosas, o Evandro Chagas, que atende com capacidade reduzida, mas é referência para o Ministério da Saúde.

Dali definem-se orientações protocolos, desenvolvem-se pesquisas clínicas de alta qualidade. Então, decidimos, com o apoio do Ministério da Saúde, um esforço muito grande que também isso fique para atender as necessidades importantes de abordagem de tratamentos nesse campo de doenças infecciosas”, completou.

Como fica na cidade do Rio

Na cidade do Rio, além da abertura parcial das praias, também retornaram nesta terça-feira (2) o setor de serviços, as agências de automóveis, lojas de móveis e de decoração. Lanchonetes, bares e restaurantes continuam apenas com o esquema de entrega em domicílio ou retirada no local. Os estabelecimentos precisam cumprir regras de higienização e distanciamento entre os clientes. Hotéis e hostels podem funcionar e  pontos turísticos permanecem fechados.

O plano municipal é dividido em seis fases, de 15 dias cada, e prevê a normalização de todas as atividades em agosto. Mas as fases podem ser estendidas ou encurtadas, de acordo com a avaliação do Comitê Científico que assessora a prefeitura nessa crise da pandemia de Covid-19. Em caso de descumprimento das medidas previstas, as autoridades competentes deverão apurar as eventuais práticas de infrações administrativas e crimes previstos.

Como fica no Estado do Rio

O que continua fechado

Eventos esportivos, culturais, shows, comício, passeata e eventos científicos, entre outros, em local aberto ou fechado.

Cinemas, teatros, academias, centros de lazer e esportivos e shoppings também devem ficar fechados.

Pão de Açúcar, Corcovado, Museus, Aquário do Rio de Janeiro (AquaRio), a Rio Star, roda gigante na Região Portuária, e outros pontos turísticos.

Tanto no estado quanto  no município continuam fechadas escolas públicas e privadas, creches e instituições de ensino superior.  

O que pode abrir

O decreto estadual determina ainda que somente serviços essenciais devem permanecer funcionando, mas precisam seguir todas as medidas de segurança para evitar aglomerações, além do cumprimento do distanciamento entre as pessoas.

Supermercados, farmácias e serviços de saúde, como hospitais, clínicas e laboratórios estão incluídos nestes serviços.

Também ficam autorizadas as feiras livres que realizam comercialização de produtos alimentícios e que tenham papel fundamental para o abastecimento local, mas para isso, precisam cumprir as determinações de distanciamento mínimo de dois metros e disponibilizem álcool 70% aos feirantes e ao público.

O que abre ‘com moderação’

Restaurantes, bares, lanchonetes e estabelecimentos desse tipo podem funcionar com o atendimento ao público limitado a 30% da capacidade de lotação e com os serviços de entrega ou de retirada dos pedidos no local. Os localizados dentro de hotéis e pousadas devem atender apenas aos hóspedes.

Com Agências