Romper isolamento pode levar Brasil ao cenário dos EUA

Estudos mostram que país pode chegar a 267 mil casos no dia 17 de abril. Mais sete capitais podem seguir trajetórias do Rio e SP

Se as medidas de isolamento não forem continuadas ou se a adesão da população diminuir, o Brasil pode seguir para o mesmo cenário dos Estados Unidos, epicentro da pandemia do novo coronavírus no mundo. É o que alertou o NOIS – Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, ao acompanhar a evolução do número de casos no país, após reavaliar as projeções feitas até agora para auxiliar no planejamento de ações para o combate à Covid-19. Por esta nova projeção, entre 3 e 17 de abril, o Brasil pode chegar a 267 mil casos.

De acordo com o grupo de pesquisadores, o comportamento dos cenários é de crescimento, no entanto, a eficácia das medidas de contenção implementadas nas últimas semanas pode influenciar na desaceleração das taxas de crescimentos ao longo dos próximos dias. Por outro lado, o NOIS chama atenção para o fato de que o total de casos confirmados até 3 de abril no Brasil apresentou uma taxa de crescimento menor que as de outros países analisados, provavelmente, por conta de três fatores: subnotificação, baixo volume de testagem e demora nos resultados dos testes confirmatórios.

Outro estudo de um grupo de pesquisadores da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que, depois de São Paulo e do Rio de Janeiro, sete capitais brasileiras correm risco de desenvolver surtos de infecção pelo novo coronavírus no país, caso medidas de restrição de mobilidade de pessoas, como o isolamento e o distanciamento social, não sejam de fato implementadas ou, se tomadas, não venham a funcionar.  Estão na lista Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Recife.

As capitais e regiões com maior probabilidade de desenvolver surtos do coronavírus mais cedo também concentram maior proporção de pessoas mais vulneráveis, com mais de 60 anos, constataram Gomes e seus colaboradores. “Existe uma coincidência entre a maior probabilidade de exposição e a concentração de população de risco”, relata o físico Marcelo Ferreira da Costa Gomes, especialista em modelos de propagação de doenças da Fiocruz.

O ranking das capitais e das microrregiões brasileiras com maior probabilidade de enfrentar surtos do coronavírus Sars-CoV-2 nas próximas semanas foi realizado a partir do fluxo aéreo de pessoas que partem do Rio de Janeiro e de São Paulo, as duas primeiras cidades a apresentarem transmissão comunitária sustentada do vírus, para as outras capitais e municípios de grande porte do país.

Situação mais crítica em São Paulo e no Rio

A Nota Técnica 6 (NT6) “Projeção de casos de infecção por Covid-19 no Brasil até 20 de abril de 2020”, emitida na tarde de sexta-feira (3) pelo NOIS, traz dados de Brasil e, especificamente, Rio de Janeiro e São Paulo (que somam 57% dos casos), entre os dias 3 e 20/04/2020 (18 dias à frente). Neste período, os números no país podem variar de 8.650 (melhor caso) para dia 3 a 60.413 (pior caso) no dia 20, sendo 40.984 o mais provável.

No cenário otimista, seguindo o desempenho dos melhores países, isso cai para 35.298. No pessimista, a evolução seria ainda pior do que a observada na Itália, Espanha, França, Alemanha, Suíça e Reino Unido: 47.740 casos. Para o Estado de São Paulo, que, no dia 2, era responsável por 44% dos casos no Brasil, as projeções para o dia 20 de abril variam de 11.154 a 26.777. Já no Rio de Janeiro, no cenário mediano, o crescimento pode ser de 351%, chegando à variação entre 3.156 e 7.576 casos no estado.

Figura 1. Predição do número de casos notificados de Covid-19 no Brasil entre 03/04/2020 a 20/04/2020

Capitais brasileiras à sombra do coronavírus

Os pesquisadores da Fiocruz e da FGV que integram a equipe coordenada por Gomes também levaram em consideração um fenômeno importante nas regiões metropolitanas e cidades maiores do interior: a chamada mobilidade pendular, trânsito diário de pessoas entre o município em que estudam ou trabalham e aquele em que residem.
Tomando como base as características do tráfego aéreo nacional e os deslocamentos no interior dos estados, Gomes e seus colaboradores buscaram identificar como, a partir de dois focos iniciais (São Paulo e Rio de Janeiro), o Sars-CoV-2 poderia se disseminar pelo país.
Em um primeiro momento, que pode durar umas poucas semanas, a epidemia não se espalharia por todas as regiões nem com a mesma intensidade. Além das sete capitais, ela deve se concentrar nas cidades altamente conectadas por via terrestre no Vale do Paraíba, entre São Paulo e Rio, como se pode ver no mapa abaixo.
Embora esse seja o pior cenário, ele pode auxiliar as autoridades a identificar áreas prioritárias para a alocação de recursos”, conta o pesquisador, que já apresentou os resultados ao Ministério da Saúde e a outros gestores públicos. “Ainda que as medidas que vêm sendo tomadas reduzam o fluxo de pessoas, a ordem das cidades e regiões a serem afetadas não deve mudar”, afirma Gomes.

São Paulo pode espalhar o vírus pelo país

Esse mapeamento, em preparação para ser publicado em uma revista científica, confirmou ainda algo já esperado: a capital paulista tem potencial de contribuir mais para o espalhamento do vírus pelo país do que o Rio. Principal hub de conexões aéreas do Brasil, São Paulo gera um fluxo elevado de pessoas mesmo para as regiões geograficamente mais distantes. Caso o principal ponto de disseminação fosse a capital fluminense, os surtos demorariam mais tempo para atingir outros pontos do país, uma vez que o número de conexões aéreas entre essa cidade e outras é menor.

Esse trabalho faz uma integração de dados difíceis de obter e usa uma metodologia que é o estado da arte para investigar doenças com potencial espalhamento global”, comenta o físico Roberto Kraenkel, do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que trabalha com modelos matemáticos ligados à ecologia e à epidemiologia. “O resultado é informativo de quais pontos no Brasil podem precisar de ações mais efetivas dos governos e das autoridades de saúde”, diz o pesquisador da Unesp.

Atualmente, Gomes e seus colaboradores começam a analisar os cenários para uma segunda onda de disseminação do vírus, que começaria mais adiante. “Pretendemos avaliar o impacto das medidas de redução de mobilidade sobre a progressão da epidemia”, afirma o pesquisador. “Queremos ter uma ideia de quanto tempo conseguiríamos ganhar com essas ações para que autoridades de saúde possam organizar a estrutura necessária para atender a população da melhor forma possível.”

Oferta de leitos é menor que nos 36 países mais ricos

A maior vulnerabilidade das sete capitais brasileiras que podem apresentar um surto do novo coronavírus não corresponde à maior capacidade de oferecer atendimento de saúde. De acordo com o estudo, os leitos hospitalares comuns e complementares (de cuidados intermediários e de terapia intensiva) estão distribuídos de modo muito heterogêneo. A maior parte das capitais sob risco de surto tem uma capacidade intermediária de atendimento.
Dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS) indicam que a oferta média de leitos hospitalares no país é de 22 para cada 10 mil habitantes, bem inferior à dos 36 países mais ricos do mundo, que é de 47 por 10 mil, segundo relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A proporção no Brasil de leitos complementares disponíveis, geralmente necessários para tratar a Covid-19, é ainda mais baixa: 4 por 10 mil. Segundo Gomes, apenas o Distrito Federal se encontra numa situação mais confortável. “A disponibilidade heterogênea de leitos de UTI preocupa porque as capitais com maior probabilidade de contágio a partir de São Paulo eventualmente podem não estar aparelhadas para lidar com a epidemia”, diz Kraenkel.

Veja outras pesquisas do NOIS:

Mais de 11.500 casos serão notificados até fim de março
Rio precisará de 1.800 leitos para coronavírus até 4 de abril

GRUPO COMPARADA BRASIL A OUTROS PAÍSES

Os estudos do NOIS comparam o Brasil com outros países atingidos pela Covid-19, tendo como parâmetro inicial (Dia ZERO – D0) quando foram alcançados no mínimo 50 casos da doença pela primeira vez. Para a NT6, o NOIS aplicou uma nova metodologia, utilizando um novo conjunto de países, com comportamento similar ao do Brasil, além de acrescentar dois cenários (melhor caso e pior caso) e amortecer a taxa de crescimento para minimizar os efeitos de subnotificação (ou de não notificação) em determinados dias.

Foram mantidos apenas os países que apresentaram uma evolução de taxas de crescimento similar à do Brasil. Além disso, foram retirados da “cesta” os países asiáticos (Irã, Coreia do Sul e China), pois apresentaram um crescimento da doença mais controlado em relação ao Brasil, e também os EUA, cujo crescimento é alto se comparado ao do Brasil. Em contrapartida, adicionaram Suíça e Reino Unido, dois países que possuem um comportamento similar ao nosso. Portanto, a nova cesta é composta por Itália, Espanha, França, Alemanha, Suíça e Reino Unido.

Para minimizar os efeitos de subnotificação (ou de não notificação) em determinados dias, o NOIS amorteceu os dados de taxas de crescimento diárias. Para isso, considerou a média da taxa de crescimento do dia atual e do dia anterior. Tal método permite que a projeção tenha um comportamento suavizado, com um pico mais atenuado entre o número de casos do dia em relação ao anterior.

Com esta nova metodologia, as novas projeções Brasil, RJ e SP consideraram cinco cenários: pior caso, pessimista, mediano, otimista, e melhor caso. Os cenários de pior e o melhor caso são baseados, respectivamente, no pior e no melhor comportamento de todos os países da cesta em um determinado dia. Os cenários otimista, mediano e pessimista são baseados nas estatísticas de 25%, 50% e 75%, respectivamente, obtidas a partir da avaliação do comportamento dos países da cesta, para o respectivo dia.

O NOIS é um grupo de pesquisa formado por profissionais de diversas instituições: Departamento de Engenharia Industrial, PUC-Rio, Instituto Tecgraf, PUC-Rio, Barcelona Institute for Global Health (ISGlobal), Espanha, Divisão de Pneumologia, InCor, Hospital das Clínicas FMUSP, Universidade de São Paulo, Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino – Rio de Janeiro e Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

 

Figura 2. Predição do número de casos confirmados de COVID-19 no estado de São Paulo entre 03/04/2020 e 20/04/2020

Figura 3. Predição do número de casos de Covid-19 no Estado do Rio de Janeiro entre 03/04/2020 e 20/04/2020

Mais informações sobre o NOIS aqui.

Com Assessorias
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