‘Se soubesse antes, nunca teria deixado meu pai tomar cloroquina’

Jovem que perdeu o pai para a Covid-19 alertou médicos sobre dores no peito. Para infectologista, quem prescreve medicamento é ‘irresponsável e antiético’

Redação
Sérgio, de 67 anos, na foto com a filha Jaqueline, tomou cloroquina por 5 dias e sentiu fortes dores no peito (Foto: Acervo pessoal)
Vítima da Covid-19, Sérgio morreu em Belém do Pará (Foto: Acervo pessoal)

“Se eu soubesse hoje o que sei sobre os efeitos da cloroquina, nunca teria deixado meu pai tomar esse medicamento”. O relato é da jovem Jaqueline Almeida Trindade, que acompanhou a luta do pai Sérgio Trindade, de 67 anos, contra a Covid-19, mas há uma semana ele perdeu a batalha. Moradora de Belém do Pará, Jaqueline conta que o pai, mesmo sendo portador de hipertensão, fez uso da substância sob prescrição médica, apesar de a família ter alertado a equipe que o acompanhava sobre a doença e as fortes dores no peito sentidas após fazer uso da substância.

Foram cinco dias de uso da cloroquina e nós avisamos aos médicos que meu pai estava sentindo fortes dores no peito, mas eles insistiam em dizer que era por causa da presença do vírus no pulmão dele. Só quando um médico analisou o eletrocardiograma percebeu o agravamento do caso e disse que nunca teria receitado cloroquina ao meu pai. Depois disso, não conseguimos mais acompanhar o caso porque meu pai foi direto para UTI, sem chance de fazer o segundo eletro para analisar se a doença havia estagnado. Já era tarde demais”, conta a jovem, emocionada.

No momento em que o país supera mais de 27 mil mortes por Covid-19 e a taxa de ocupação total dos leitos de UTIs por pacientes com a doença passa de 77%, a história de Jaqueline se confunde com as de outras milhares de pessoas que buscam alternativas para a tratamento e cura da doença. É nesta parcela da população que o consumo da cloroquina vem crescendo de forma significativa, mas a falta de uma comprovação científica sobre a eficácia da droga e seus efeitos colaterais estão no centro dos debates das autoridades de saúde de todo o mundo.

Pesquisa com 90 mil pacientes reprova substâncias

Publicado pelo The Lancet, um dos periódicos científicos mais respeitados do mundo,  o último estudo sobre o uso da substância usando dados fornecidos por mais de 671 hospitais dos cinco continentes em mais de 90 mil pacientes sugere que tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina não são eficazes contra o coronavírus e ainda podem ser prejudiciais na maioria dos casos. A publicação destaca os resultados obtidos pelos cientistas no primeiro estudo em larga escala já feito com as duas substâncias.
Os resultados do estudo mostraram que, além da aparente ineficácia, as substâncias ainda podem aumentam os riscos de mortes, o que reforça autoridades a desaconselharem a prescrição de ambos os medicamentos.  A pesquisa divulgada pela The Lancet levanta a questão de possível aumento de risco 34% a 45% maior de morte de Covid-19 em pacientes tratados com estas drogas. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) decidiu recomendar a suspensão dos estudos com hidroxicloroquina, devido ao alto risco de morte.

‘Vale a pena expor milhares de pessoas a este possível risco?’

Para o infectologista Alexandre Cunha, vice-presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, os dados obtidos a partir deste e de outros estudos tornam claro que as medicações não devem ser usadas de maneira empírica, fora de um estudo clinico. O especialista lembra que a cloroquina e a hidroxicloroquina são indicadas para pacientes com malária, artrite reumatoide e lúpus.
Vale a pena expor milhares de pessoas a este possível risco, sem nenhum estudo que mostre sua eficácia? É irresponsável e antiético aplicar estas substâncias com o conhecimento que temos agora”, alerta Cunha, que atua como consultor médico do Grupo Sabin.
Ele ainda ressalta que o uso de hidroxicloroquina, assim como outros remédios, pode aumentar o risco de arritmias cardíacas e agravar o quadro de pacientes.
Hoje sabemos que mais de 99% dos casos no Brasil têm boa evolução sem estas medicações. Ou seja, submeter pessoas ao uso de uma droga que pode proporcionar uma série de efeitos colaterais não é uma opção nem mesmo razoável. O fato é que com as informações que temos hoje, não deveríamos administrar hidroxicloroquina a ninguém com Covid-19″, finaliza.

Assinar termo de consentimento pode trazer risco duplo

Advogada Mérces da Silva Nunes faz alerta sobre autorização da família para uso de cloroquina (Foto: Divulgação)

O ímpeto de encontrar a cura para a doença causada por um vírus que mata muitas pessoas e quase parou o mundo movimenta a opinião pública em torno do uso da cloroquina e/ou hidroxicloroquina. Mesmo após esclarecimentos de vários estudiosos e da própria Organização Mundial da Saúde (OMS) de que não há eficácia comprovada, o incentivo ao uso da cloroquina continua ocorrendo nos hospitais.

No Brasil, o fármaco foi incluído no protocolo de tratamento da Covid-19 para casos leves, por determinação do Ministério da Saúde, atendendo ao desejo do presidente Jair Bolsonaro, sem parecer técnico-científico. Com essa medida, cabe ao médico a decisão de usar a substância e é necessária a manifestação por escrito da anuência do paciente com termo de responsabilidade.

O Termo de Consentimento Esclarecido (TCE) é um documento obrigatório para todo e qualquer procedimento médico, por meio do qual o paciente é devidamente informado dos riscos possíveis daquele procedimento”, explica Mérces da Silva Nunes, advogada especializada em Direito Médico e sócia da Silva Nunes Advogados Associados.

De acordo com a especialista, a princípio o TCE serve para afastar a responsabilidade do médico. “No caso da cloroquina, o médico tem o dever de informar ao paciente os efeitos adversos mais frequentes que aquele medicamento pode provocar”, reforça.

Arritmia cardíaca é um dos principais efeitos colaterais

Por ser ainda um remédio experimental para o coronavírus e com muitos efeitos colaterais (redução dos glóbulos brancos, disfunção do fígado, disfunção cardíaca e arritmias e alterações visuais por danos na retina, de acordo com o TCE), o paciente pode ficar em uma situação complicada caso queira contestar algum problema futuro em uma discussão judicial.

Há necessidade de prudência e cautela no uso da cloroquina e/ou hidroxicloroquina, que deve ser feito somente mediante prescrição médica e desde que confirmado o diagnóstico de Covid-19″, alerta Mérces.
Para a advogada, apesar de ter assinado o termo, teoricamente o paciente não ficará desamparado porque poderá alegar que não foi devidamente informado. “A discussão judicial, em tese, é possível mas é necessário lembrar que ainda não há tratamento disponível para Covid-19”, destaca ela.
Com Assessorias