Potencial suicida não é apenas o depressivo

Doenças, crise financeira ou problema de autoestima podem desencadear desejo de atentar contra a própria vida

depressão

“Quem quer se matar, não manda recado. Ela pega e faz”, afirmam muitos. Segundo a psicanalista Rita Martins, e mestre em Psicologia, isso não é verdade. E chama a atenção para os casos em que a pessoa não tem nenhum traço de depressão e ainda assim atenta contra a própria vida. Ainda na série sobre o Setembro Amarelo, mês de alerta para a prevenção do suicídio, trazemos especialistas que nos ajudam a entender como pensa um suicida.

Segundo ela, o problema associado à depressão pode sim culminar num suicídio, mas definitivamente não é apenas essa a causa. “É importante desmistificar que a pessoa com depressão é também um potencial suicida, mas não somente pessoas com esse problema”, ressalta.

“É muito diferente a pessoa não ter interesse por nada, querer morrer, daquela que tem a intenção de tirar a própria vida. Suicidar requer uma força, uma energia que o depressivo muitas vezes pode não ter. Pessoas com condições graves de saúde, crises financeiras ou problemas de autoestima são muito preocupantes também”, afirma.

A ideação suicida é um dos nove sintomas elencados no Diagnóstico de Saúde Mental (DSM-V). Alguém com fibromialgia ou hérnia de disco, com forte dor, é tão propenso a atentar contra sua própria vida quanto o depressivo. Pode-se associar o suicídio a outras questões como bullying, uso de drogas, violência sexual, baixa autoestima e solidão. Para ele morrer, é a única saída para mudar sua condição atual.

“O papel do médico e do terapeuta é acolher essa pessoa, estender a mão, sem julgamentos e ajudá-la a estancar sua dor. Falar sobre o que lhe afeta pode até não curar, mas reduz os sintomas. Isto ocorre porque os pensamentos e sentimentos começam a se organizar internamente. Quando morre alguém desta forma, o impacto psicológico do ato se estende aos familiares e amigos”, ressalta a psicanalista.

O que leva a pessoa a pensar em suicídio

Mas, afinal, o que leva uma pessoa a pensar em suicídio ou a chegar a cometê-lo? Segundo a ABP, “o suicídio pode ser definido como um ato deliberado, de forma consciente e intencional, usando um meio que ele acredita ser letal”. O comportamento suicida vai num crescente que envolve desde pensamentos até planos e a tentativa de suicídio – veja mais aqui.

“Trata-se de uma complexa interação de fatores psicológicos e biológicos, inclusive genéticos, culturais e socioambientais. Sendo assim, o pensamento suicida deve ser considerado como o desfecho de uma série de variáveis que se acumulam na história do indivíduo, não podendo ser levado em conta apenas determinados acontecimentos pontuais de sua vida”, explica Mario Louzã, médico psiquiatra e psicanalista, doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, Alemanha.

Segundo ele, muitas pessoas com intenção suicida expressam, de modo sutil, o desejo de morrer; falam de sua falta de esperança, do sentimento de culpa e de a vida não valer mais a pena. “Amigos, familiares, pessoas que tenham contato com alguém demonstrando tristeza profunda e com um discurso pessimista precisam levar em consideração o risco de suicídio. Poderão, assim, conversar e levar o indivíduo para receber ajuda especializada”, destaca.

O especialista lembra ainda que as Unidades de Urgência e Emergência (geral e/ou psiquiátrica), os Serviços Especializados e outros são de fundamental importância para os indivíduos que estão em situação de crise. Portanto, ao menor sinal de alterações no comportamento compatíveis às características citadas acima, é imprescindível buscar ajuda médica o mais rápido possível.

Como identificar os sinais

Todos os sexos, faixas etárias, raças e classes sociais podem ser alvos da depressão, reconhecidamente a principal causa do grande número de suicídios no Brasil. Porém, ela é mais comum entre mulheres, pessoas divorciadas/ separadas ou vivendo sozinhas, com baixo nível socioeconômico e escolar, desempregados e morando em zonas urbanas. Jovens, mulheres no pós-parto e adultos com mais de 60 anos são os que mais correm risco de desenvolver o transtorno. Eventos vitais relevantes podem estar presentes, mas não é necessário existir um fator causal identificável ou “ter motivo” para que o diagnóstico seja feito.

O suicídio é uma consequência extrema de questões não problematizadas. É desta maneira que o psicólogo Alexandre Braga, que atende pelo Zenklub – plataforma de video-consultas com psicólogos, começa a tratar o assunto, que para ele ainda é visto como um tabu. “É preciso deixar claro que não há como dividir as pessoas em dois blocos, um com potenciais suicidas e outros que não correm o risco. O sujeito que se suicida quer exterminar o sofrimento e não a vida. Todos nós sofremos e, por isso, podemos optar por tirar a nossa própria vida em um momento em que nos vemos sem esperança”, explica o especialista.

De acordo com ele, nos tempos atuais as pessoas buscam o prazer imediato o tempo inteiro como uma saída para evitar sofrer ao invés de tentar compreender as suas dores. “Buscar um psicólogo é pagar para ouvir o que não queremos, entretanto, o que é necessário. O vazio que sentimos não é uma doença, é uma condição humana”, conta Braga. “Desmistificar a terapia é urgente porque cuidar da saúde mental é tão importante quanto a saúde física. Não sabemos quando e porquê, mas é certo que sempre teremos algum sofrimento psíquico que nos obriga a olhar pra si mesmos e evoluir a partir disso”.

Não tomar contato com o que nos faz sofrer é como uma represa que pode transbordar a qualquer momento. Quando isso acontece, o especialista conta que o fato de não termos intimidade com as nossas dores, faz com que não nos reconheçamos e a dor se torne insuportável, maior que o próprio eu.

Para esclarecer, Alexandre usa da expressão “empurrou a sujeira para debaixo do tapete”. Para ele, essa é a melhor forma de entender o que acontece com a nossa saúde mental. “Vamos evitando o desprazer de conviver com as nossas angústias e um dia parece que alguém bateu o tapete e todos os nossos problemas vieram à tona. Por isso, muitas vezes as pessoas não conseguem dizer o que sentem. Tudo fica muito mais confuso. A faxina interna deve ser uma prática constante para evitar essas avalanches”.

Da Redação, com assessorias