O suicídio do coach dos famosos e o vazio das redes sociais

Psicólogo analisa: “Chega um momento em que a pessoa com depressão não suporta mais o local em que está, e o personagem que criou’

Redação
Aos 46 anos, o coach Roberto Bueno foi encontrado morto na Flórida (EUA) - Foto: Reprodução de internet

Um dos mais famosos coaches de bem-estar do país, o personal trainer Roberto Bueno morreu nesta segunda-feira (28), aos 46 anos, em Miami, Flórida (EUA). Fundador da BuenoConcept e querido por famosas e celebridades, o paulista cometeu suicídio – a forma nem as causas foram reveladas. Um dia antes, ele deixou mensagens enigmáticas no Instagram. “(…) A vida é como uma linda poesia que se escreve um dia após o outro – por mais que seja bela, ela sempre há de terminar num esperado, derradeiro e inevitável ponto final”, escreveu.

Além de prestar consultoria a celebridades como o apresentador André Marques, a influencer Gabriela Pugliesi e a modelo Babi Beluco, o coach fundou a Xtrategy Nutrition, empresa especializada em suplementos alimentares, com sede nos Estados Unidos, que atendia 60 países com diferentes objetivos: “emagrecer, se alimentar melhor ou ter um corpo superdefinido”.

Mas fama, dinheiro e corpo escultural são mesmo suficientes? A morte do ‘guru dos famosos’ surpreendeu o público, e mais uma vez, levantou uma questão importante: a prevenção ao suicídio. Estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram com a depressão no Brasil, de acordo com a OMS – Organização Mundial de Saúde, e 800 mil cometem suicídio. Esta já é a segunda principal causa de morte de pessoas entre 15 e 29 anos de idade. A depressão é apontada como principal gatilho para o suicídio.

Para o psicólogo João Alexandre Borba, um dos maiores causadores da depressão é a comparação desenfreada a partir das redes sociais. Confira artigo em que o especialista analisa o caso da morte de Roberto Bueno e chama atenção para a importância de compreender os sinais em torno do suicida.

O primeiro passo é olhar para si mesmo’

Por João Alexandre Borba*

Chega um momento em que a pessoa com depressão não suporta mais o local em que está e o personagem que criou. Aquele com a doença não odeia sua essência, mas o que acabou fazendo com ela através dos anos. Por isso, acaba desejando acabar consigo mesmo.

Ao longo da vida, entramos cada vez mais em contato com essa essência, a descobrindo conforme crescemos. Não conseguir mais ter contato com essa essência ou sentir que a está desonrando pode se tornar uma grande angústia e gatilho.

Se você conhece alguém que teve mudanças de comportamento, começou a se isolar ou parou de fazer as coisas que gostava sem motivo aparente ou então apresenta marcas de automutilação, é um sinal: o momento é de você aconselhá-la a buscar ajuda.

Na maioria das vezes, quando nos deparamos com alguém que amamos passando por essa situação, tentamos ajudar, aconselhar, buscar formas de ajudá-la, mas isso provavelmente não vai funcionar, apenas te deixar frustrado, pois aquele com depressão não consegue mudar tão facilmente. A melhor atitude, então, é levá-lo para buscar ajuda especializada, e aí sim ter resultados.

Quando o depressivo chega a um ponto onde nada mais o agrada, sua imagem já está tão avessa à imagem que ele sente que deveria ter que apenas uma alternativa parece possível, o reiniciar. Porém, não há como fazer isso, e então surge a ideia do suicídio.

Hoje em dia, um dos maiores causadores da depressão é a comparação desenfreada que surge, principalmente, através das redes sociais. É muito fácil encontrar alguém que parece perfeito ou ter a vida dos sonhos e, então, se afundar no sentimento de fracasso.

Em vez de olharmos para nós mesmos e tentarmos melhorar aquilo que julgamos necessário, acabamos olhando para o outro e nos comparando. Isso vai nos afastando de nossa essência, fazendo com que percamos nossa força interior.

O personagem que criamos, muitas vezes no trabalho ou para se sentir melhor em algum outro aspecto, acaba tomando conta, fazendo com que se perca essa verdadeira identidade, por isso a vontade de acabar com isso.

O primeiro passo é olhar para si mesmo e analisar se está sendo coerente com a sua essência, se o seu personagem não vai contra conceitos que são seus pilares, e tentar reencontrar quem você realmente é, para saber se não está prejudicando sua saúde mental.

Quando a resposta a isso é negativa, é preciso procurar ajuda. O Centro de Valorização da Vida – CVV está disponível 24h por diversos meios de comunicação, e, se estiver ao seu alcance, sempre há um psicólogo com as portas abertas.

A mensagem final de roberto bueno

“Quero ser forte o bastante para enfrentar as dificuldades do meu caminho, sem me tornar tão injusto a ponto de ignorar a dor das outras pessoas. Quero viver com plenitude cada momento que me ofereça conforto, sem deixar de dar a devida atenção às pequenas coisas da vida ou de ser grato por tudo que já me aconteceu de bom.

Quero urgência na realização dos meus sonhos, sem que para isso eu venha a me transformar num ser egoísta e capaz de destruir os sonhos alheios só para atingir os meus objetivos. Quero que o amor seja o centro do meu universo, mas também quero que o meu universo seja o centro do amor de alguém.

A paz interior se resume na arte de ser feliz e permitir que a nossa felicidade se espalhe por onde quer que a gente passe. Quero fazer do tempo o meu principal aliado, pois a vida é como uma linda poesia que se escreve um dia após o outro – por mais que seja bela, ela sempre há de terminar num esperado, derradeiro e inevitável ponto final”. (Roberto Bueno, via Instagram)

Com Assessoria e agências

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