Surto de conjuntivite preocupa cariocas e fluminenses

Secretaria Municipal de Saúde não tem números, já que a doença não é de notificação obrigatória. Melhor prevenção é aumentar os cuidados com a higiene

Rosayne Macedo

maju-coutinho

Olhos vermelhos e lacrimejando, sensação de areia e ardor nos olhos, inchaço nas pálpebras e sensibilidade extrema à claridade. Se observar esses sintomas, procure rapidamente um oftalmologista: você pode estar com conjuntivite. Foi o que aconteceu com a repórter Maria Júlia Coutinho, a Maju (foto), que teve que se afastar da previsão do tempo no Jornal Nacional. “Previsão pros próximos dias: chuva de colírio e muito descanso. Peguei conjuntivite viral: não é grave, mas é muito chato”, disse ela, na legenda de uma caricatura sua com óculos escuros no Instagram, no último dia 2.

O jornalista e professor universitário Gutenberg Barbosa, de 55 anos, também está de molho em casa, com os dois olhos em brasa. Morador da Zona Sul carioca, Gutenberg é mais uma vítima de um surto que tem lotado os consultórios de Oftalmologia neste verão, especialmente no Rio de Janeiro e em algumas cidades do estado, como São Gonçalo e Macaé.  Gutenberg recorreu ao ‘Doutor Google’ para descobrir a doença chatinha, mas altamente contagiosa.

Gutenberg Barbosa - conjuntivite
Gutenberg Barbosa pegou conjuntivite nos dois olhos. Ciclo da doença chega a 7 dias (Foto: Acervo pessoal)

“Estava voltando do trabalho no sábado à tarde (dia 3) quando começaram os primeiros sintomas. Olho doendo, sensação de areia no olho, quando piscava lacrimejava. Cheguei em casa, fui à Internet e constatei que era mesmo conjuntivite”, conta. “Vi algumas soluções caseiras para aliviar os sintomas. Uma simples e outras totalmente sem noção. Comecei a colocar soro fisiológico gelado no olho para minimizar os sintomas”, disse ele, que foi ao médico na segunda-feira (5) e está se medicando em casa com colírio e compressas de água gelada.

A Secretaria Municipal de Saúde do Rio (SMS) confirma o surto, mas não tem números, já que a doença não é de notificação compulsória. “Há sim, um surto na cidade, mas é normal nessa época do ano e a melhor forma para evitar a doença está nos cuidados com a higiene”, informou a assessoria. “No momento, há um surto de conjuntivite constatado, pois estão acontecendo casos em diferentes pontos da cidade, assim como em diversos outros municípios.

Para atender a esse aumento de casos, comum a esta época do ano, a Secretaria Municipal de Saúde fez alerta de sensibilização a toda rede assistencial, atenção hospitalar e primária”, afirma a nota  (veja a íntegra ao final da matéria). Procurada, a Secretaria de Estado de Saúde  (SES) informou apenas que não tem informações sobre o número de casos registrados neste verão, já que “a conjuntivite não é de notificação obrigatória”.

Em São Gonçalo, na Região Metropolitana, a Secretaria Municipal de Saúde confirma a existência de um surto da doença. Somente na segunda-feira (5), mais de 200 pessoas procuraram atendimento médico com os sintomas. Para evitar a contaminação, foram criadas áreas especiais nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Nova Cidade e do Pacheco para receber os casos. Em Macaé, no Norte Fluminense, a Secretaria de Saúde também verificou aumento no atendimento de casos de conjuntivite, principalmente nas unidades de emergência. O pico de atendimento no Hospital Público Municipal (HPM) foi registrado no dia 20 de fevereiro, com 25 casos da doença.

Risco de contágio é maior nos primeiros 7 dias

Os primeiros sete dias do início dos sintomas são considerados de alto contágio. Por isso é necessário que o paciente evite contato com outras pessoas para não propagar a doença. “Constatamos que há uma epidemia de conjuntivite por adenovírus. Normalmente, o tempo de incubação do vírus no organismo leva de um a quatro dias, período em que a pessoa já está passível de transmissão, mas sem sintoma”, explicou o coordenador de oftalmologia do hospital de Macaé, o médico Flávio Cesário. Após esse período de incubação, os primeiros sintomas começam a aparecer e permanecem por até 15 dias.

Segundo ele, somente o médico é capaz de fazer o diagnóstico e indicar o trato correto para doença, já que os tratamentos das conjuntivites virais e bacterianas são diferentes. Por isso, em caso de suspeita de conjuntivite, a unidade de saúde mais próxima da residência deve ser procurada. “Os médicos das unidades de Estratégia Saúde da Família (ESF) estão capacitados para atender e diagnosticar os casos da doença”, frisou, acrescentando que é necessária a adoção de medidas de higiene para evitar o contágio.

Em entrevista exclusiva à seção Pergunte ao Doutor, no Canal ViDA & Ação no Youtube, a oftalmologista Beatriz Bandeira, diretora do Hospital de Olhos de São Gonçalo (RJ), explica tudo sobre a doença, como prevenir, como tratar e como evitar o contágio.

Por que a doença é comum durante o verão? 

conjuntivite viral é a inflamação da conjuntiva (membrana que recobre a esclera, a parte branca dos olhos e a face interna das pálpebras) e seu principal agente causador é o adenovírus. A doença é comum nesta época do ano pela soma de diversos fatores. Na estação mais quente do ano, a exposição a aglomerações, umidade, calor e piscina tornam mais propícia a contaminação infecciosa da conjuntivite. Estar exposto a ar condicionado e fazer uso de filtro solar também pode ser considerado fator de risco quando consideramos a conjuntivite alérgica.

“A doença acontece o ano todo, mas, no verão, fatores como aglomerações, água contaminada das piscinas e praias, excesso de filtro solar e compartilhamento de teclados em empresas facilitam o aumento de casos”, afirma o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier (SP). O problema é que 30% dos brasileiros costumam se automedicar, hábito que chega a 40% no verão conforme um levantamento feito pelo oftalmologista.

Como a doença é transmitida?

Queiroz Neto explica que o contato dos olhos com excesso ou falta de cloro nas piscinas e água contaminada do mar, além do excesso de protetor solar na região dos olhos, pode causar três tipos de  conjuntivite:  viral, bacteriana, alérgica ou tóxica. Para cada tipo de conjuntivite há um tratamento diferente e usar a medicação errada pode mascarar a doença e provocar danos mais graves.

A transmissão da doença pode se dar por contato direto e indireto. A conjuntivite viral, a mais comum, geralmente é transmitida por contato direto, ou seja, quando a mão contaminada entra em contato com os olhos. Em ambientes com aglomerações como praias, clubes e piscinas, as pessoas podem estar contaminadas e acabar transmitindo para outras.

O principal agente causador da conjuntivite viral, o adenovírus, sobrevive muito tempo em superfícies secas, fazendo com que as epidemias surjam com mais facilidade, como explica a oftalmologista Ana Carolina Garcia, do CBV Hospital de Olhos, de Brasília (DF). “A pessoa contaminada pode ter contato em casa ou no trabalho com objetos de uso comum como toalhas, maçaneta da porta, telefone e computador, por exemplo, e acabar transmitindo o vírus parar outras do convívio”, explica.

Além dos fatores do verão, outras condições podem ainda facilitar o surgimento da conjuntivite quando conciliados com a exposição da época. “Quando se está com a imunidade mais baixa, seja por exposição ao sol, mudanças de hábitos alimentares ou até mesmo privação de sono regular, a pessoa se torna mais suscetível à conjuntivite, ainda mais combinando tudo isso ao verão”, acrescenta Ana Carolina.

Conjuntivite viral: o perigo está no ar

Os principais sintomas da conjuntivite viral são o aumento da secreção dos olhos, que pode ser de cor branca ou amarelada; vermelhidão; coceira e dor na vista, além de coceira e fotofobia, inchaço nas pálpebras, sensação de corpo estranho, visão embaçada ou borrada e secreção nasal. A conjuntivite viral pode se espalhar pelo ar, através da tosse ou espirros, logo, é a mais fácil de ser adquirida.

“O desenvolvimento pode depender do vírus contraído, mas o mais comum é o adenovírus, e é comumente acompanhada de febre e sintomas de resfriado, durando de 8 a 15 dias. Essa doença se diferencia das outras porque as pessoas afetadas têm um incômodo muito grande com a sensação de corpo estranho na visão. Geralmente começa em um olho e após um ou dois dias o outro olho é infectado”, explica o oftalmologista Rogério Horta, do Instituto Horta, com unidades em Ipanema e Méier, no Rio.

“Na tosse ou espirro, os perdigotos podem contaminar com o adenovírus, o que seria uma das causas da conjuntivite. É através do ar nestes casos, mas também há a possibilidade de propagação por contato direto da secreção ocular, pelo rosto ou pelas mãos. Por exemplo, se uma pessoa que estiver com secreção ocular esfregar os olhos e em seguida abrir uma porta, a maçaneta poderá ser contaminada. Se outro indivíduo abrir a porta, as suas mãos entrarão em contato com a secreção, podendo contaminar a si mesmo e até outros”, conta.

Beijar o rosto também pode pegar

Do mesmo modo, ao beijar o rosto de alguém com conjuntivite, a pessoa também corre o risco de ser infectado. “Mesmo durante o tratamento, a transmissão da doença acontece enquanto permanecerem os sintomas. Para fugir do contágio, deve-se evitar partilhar objetos com os doentes, como maquiagem, toalha, travesseiro, óculos e lentes de contato, entre outros. Além disso, recomenda-se que se lave as mãos frequentemente e evite colocá-las onde alguém tenha tocado antes”, explica.

Já Flávio Cesário, de Macaé, diz que, ao contrário do que muitos pensam, a doença não é transmitida pelo ar, porém, é preciso ter cuidado, pois o vírus está presente em qualquer parte do corpo da pessoa infectada, como rosto ou mãos. Neste caso a recomendação é evitar a presença em locais que possuam alta aglomeração de pessoas”. Flávio lembra ainda que algumas atitudes são importantes para prevenir a doença como não utilizar toalhas e maquiagens de outras pessoas e lavar bem as mãos com água e sabão ou álcool e soluções desinfetantes (veja outras medidas abaixo).

Conjuntivite bacteriana e alérgica

Já a conjuntivite bacteriana é contraída por meio do contato com uma pessoa ou objeto contaminado, ou por outras infecções do nariz ou da orelha. Normalmente se manifesta algumas horas depois da transmissão. Ela é distinguida pela secreção amarelada, o pus, que dá aos olhos uma sensação pegajosa, além da diminuição da visão, mas é simples de ser tratada, quando detectada”, explica Dr Rogério.

“Para os pacientes com a forma alérgica da enfermidade, que proporciona coceira intensa, é importante orientar que não esfreguem os olhos, pois isso pode causar arranhões e piorar a sensação. Mudanças de estação, pólen ou poeira podem desencadear uma inflamação no órgão da visão, mas, assim como as outras formas de alergia, não é transmissível”, acrescenta o especialista.

Tratamento varia de acordo com o tipo

Colírio para conjuntivite
Aplicação de colírio e compressas de água gelada são recomendações na conjuntivite viral
(Foto: Prefeitura de Macaé)

Queiroz Neto explica que os principais tipos de conjuntivite (viral, bacteriana, alérgica ou tóxica) têm sintomas bastante semelhantes, mas tratamentos diferentes. Ele ressalta que o problema é que os sintomas da conjuntivite alérgica, frequentemente causada pela penetração do filtro solar nos olhos,  e da viral são idênticos – coceira, olhos irritados, fotofobia e visão borrada e secreção aquosa. A alérgica pode ser  tratada com colírio anti-histamínico e para conjuntivite viral é indicado o uso de colírio anti-inflamatório. Nos dois casos recomenda-se a aplicação de compressas frias para aliviar os sintomas.

Segundo Dr Rogério, a conjuntivite viral vai embora sozinha depois de 7 a 10 dias, mas se ocorrer alguma complicação pode ser sarada com colírios e corticoides. Já a conjuntivite alérgica é aliviada com compressas frias úmidas no local, e curada com remédios de alergia, como os anti-histamínicos. Já na conjuntivite bacteriana, que provoca uma secreção amarelada,  o tratamento é feito com colírio antibiótico também por uma semana. O tratamento pode durar por 1 a 2 semanas, dependendo da infecção.

Queiroz Neto ressalta que o uso prolongado de colírio anti-inflamatório é perigoso porque geralmente contém corticóide que aumenta o risco de surgir catarata e glaucoma. Por outro lado, adverte, o uso indiscriminado de antibióticos pode causar resistência da bactéria à medicação o que dificulta a cura.

“O melhor jeito de diagnosticar e tratar corretamente sua doença é através de uma consulta com um médico oftalmologista, para detectar qual tipo e ver qual é o melhor tipo de tratamento”, finaliza Dr Rogério.

Prevenção – conjuntivite viral e bacteriana

Queiroz Neto afirma que a conjuntivite viral e bacteriana são altamente contagiosas e podem ser contraídas até na alça dos carrinhos de supermercado, corrimãos de escadas de locais públicos e compartilhamento de teclados nas empresas. As principais dicas do médico para evitar o contágio são:

  • Lavar as  mãos com frequência
  • Não coçar os olhos
  • Evitar aglomerações. sempre que possível
  • Não compartilhar colírio, toalhas, fronhas ou maquiagem
  • Usar óculos de natação nas praias e piscinas
  • Usar álcool gel nas mãos

Prevenção – conjuntivite tóxica ou alérgica

Para prevenir a conjuntivite tóxica ou alérgica causada pela penetração de filtro solar, maquiagem e outros cosméticos nos olhos as dicas  do oftalmologista são:

  • Evite excesso de filtro solar, bronzeador ou maquiagem
  • Proteja a região dos olhos com óculos solar que tenha filtro UVA e UVB
  • Lave os olhos em casos de penetração de substâncias químicas
  • Na exposição ao sol enxugue a transpiração ao redor dos olhos com toalhas descartáveis
  • Lave com frequência o rosto e as mãos
  • Não compartilhe produtos de beleza, toalhas de rosto ou colírios
  • Evite coçar ou levar as mãos aos olhos
  • Use óculos de mergulho para nadar e óculos de proteção para trabalhar com produtos químicos
  • Não use colírios sem prescrição médica
  • Interrompa o uso de produtos que causam desconforto nos olhos
  • Substitua as lentes de contato por óculos na piscina ou praia
  • Evite usar receitas caseiras sem conhecimento de seu médico

Alerta na rede assistencial, atenção hospitalar e primária

Veja a nota completa da Secretaria Municipal de Saúde do Rio:

“A conjuntivite é uma doença com comportamento sazonal e costuma causar surtos, principalmente no verão e na primavera. No momento, há um surto de conjuntivite constatado, pois estão acontecendo casos em diferentes pontos da cidade, assim como em diversos outros municípios. Para atender a esse aumento de casos, comum a esta época do ano, a Secretaria Municipal de Saúde fez alerta de sensibilização a toda rede assistencial, atenção hospitalar e primária.

Por ser altamente contagiosa, é comum a disseminação em núcleos familiares e ambientes de trabalho, entre outros. As medidas de controle incluem higiene das mãos, evitar tocar os olhos, desinfecção de objetos contaminados e individualização de objetos de uso pessoal (maquiagem, toalhas, travesseiros, óculos, etc). Mais informações sobre a doença estão disponíveis em http://www.prefeitura.rio/web/sms/exibeconteudo?id=7635924

A conjuntivite não faz parte da Lista Nacional de Notificação Compulsória – o que dificulta a mensuração do número de casos -, como ocorrência individual, mas considerando alguns desses critérios e o conhecimento sobre a epidemiologia da doença, a SVS/SUBPAV/SMSRJ realiza o monitoramento do número de casos, para avaliação do comportamento”.

Da Redação, com Assessorias

1 Comment
  1. […] Estamos em pleno outono desde o dia 20 de março, mas parece que é verão, tamanho o calor que tem feito nas útimas semanas no Rio de Janeiro. Um motivo e tanto para o carioca se esbaldar na praia. Mas a chamada meia estação, com redução de chuvas, temperatura e umidade relativa do ar, deixa os olhos  mais expostos ao ar seco e poluído do outono. A estação favorece o aparecimento da Síndrome do Olho Seco – causada pela redução ou má qualidade da lágrima – além de alergias e conjuntivite. […]

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