Transfobia: preconceito covarde que mata e não pode ficar impune

Minha prima Michelly, travesti de 16 anos, foi executada em Itaperuna (RJ). Crime bárbaro reacende alerta sobre violência contra LGBTI+ no Brasil: só no ano passado, 88 pessoas trans foram mortas

Rosayne Macedo
Miguel-Michelly Michelly, de 16 anos, morreu com cinco tiros num ponto de prostituição em Itaperuna (Foto: Álbum de Família)
Miguel Macedo - Michelly Silveira
Michelly Silveira (Foto: Reprodução de Facebook)

Despedaçados. É assim que estão os pais e todos nós, familiares de Michelly Silveira, a travesti de apenas 16 anos que foi covarde e brutalmente assassinada na noite de sábado (7) em Itaperuna, Noroeste do Estado do Rio de Janeiro. Michelly – ou Miguel, como chamavam a família e os amigos de infância – era minha prima e morreu sem qualquer chance de defesa, encurralada por dois homens que ocupavam uma moto.

Foi executada com cinco tiros numa rua escura, conhecida como ponto de prostituição de travestis. Um crime repleto de requintes de crueldade que escancaram o preconceito e a intolerância contra travestis, transexuais e pessoas trans no Brasil.

Michelly foi mais uma vítima da bárbara escalada de violência contra esta população em todo o mundo e mais precisamente por aqui. Os números são assustadores. De acordo com a ONG Transcender Europe, já somos o país que mais mata pessoas trans: de 2008 a 2016, foram 868 assassinatos, o triplo dos casos registrados no México e seis vezes os crimes semelhantes nos Estados Unidos no mesmo período.

Relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) mostra que somente em 2017 foram 179 homicídios contra pessoas trans, 15% a mais que os 144 casos de 2016, um recorde desde 2008. Com 14 assassinatos de pessoas trans no ano passado, o Estado do Rio é o quinto no ranking desse tipo de crime no país, posição dividida com Pernambuco.

Mãe: ‘Queremos uma solução, precisamos de uma resposta’

“Estamos despedaçados, foi muita covardia. Estou muito revoltada… até ontem era só dor. Mas agora estou também muito indignada. A gente quer uma solução, quer saber das coisas. Tá doendo muito e a gente precisa de uma resposta. Ao mesmo tempo, a gente está se sentindo impotente, não sabe para onde caminhar, como começar nossa vida de novo”, conta a professora Patrícia Macedo Rodrigues, de 35 anos, mãe de Michelly.

Ela lembra com muita saudade do filho que passou a morar com o pai nos últimos três anos. “Miguel era muito carinhoso e dizia sempre que me amava e que se orgulhava de mim”,  afirma a mãe, emocionada.

O pai também está inconsolável. “Na rua, Miguel era líder, não tinha medo de nada e defendia as colegas. Mas em casa era um menino tranquilo, deitava no meu colo, conversávamos muito. Eu sempre ia atrás dele, trazia de volta para casa, queria saber onde estava. Temia pela segurança do meu filho. A gente aconselhava, mas tinha medo de afastá-lo da gente, com muitas cobranças”, afirma o pai, Elcy Vicente de Souza, de 37 anos. Com ajuda de familiares, amigos e de colegas de trabalho de Michelly, Elcy tem dedicado os últimos dias a ajudar a polícia a encontrar pistas que possam levar ao assassino.

VEJA: O depoimento completo dos pais

Discussão por programa de R$ 50 pode ter motivado crime

Michelly Silveira
Michelly Silveira morreu aos 16 anos com cinco tiros (Foto: Reprodução de Facebook)

Policiais civis da 143ª Delegacia de Polícia de Itaperuna investigam o crime e ainda não chegaram ao assassino e o comparsa que pilotava a moto com a qual o crime foi praticado e conseguiram fugir após perseguição policial. Entre as hipóteses, pode estar a de vingança contra Michelly por uma discussão para cobrar dívida de R$ 50 pelo programa a um suposto cliente que usava uma moto.

Um vídeo que circula nas redes sociais, gravado no mesmo local na noite de quinta-feira, 48 horas antes do assassinato, pode ser a chave para explicar o crime. O vídeo mostra a travesti discutindo com um homem que usava uma moto e se recusava a pagar o valor combinado.  Imagens de câmeras da região estão sendo requisitadas e testemunhas dos dois episódios estão sendo ouvidas.

Agora a família está buscando ajuda das comissões de defesa dos direitos humanos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e também da Defensoria Pública, por meio do Núcleo de Defesa dos Direitos Homoafetivos e Diversidade Sexual (Nudiversis), para acompanhar o caso Michelly. A esperança é de que este crime não fique impune e os culpados possam ser, efetivamente, presos e condenados.

Tendência é culpar a vítima, diz ativista

Mas o que leva um ser humano que tem ojeriza a uma pessoa trans a matá-la – se é que existe razão para se tirar a vida de alguém, ainda mais de uma adolescente? E por que vidas humanas como a de Michelly valem tão pouco ou são banalizadas? Certamente a discriminação e a impunidade em torno dos casos de transfobia podem justificar. Dos homicídios de pessoas trans registrados ano passado no Brasil, apenas 18 ocorrências tiveram seus suspeitos presos. Andréa Brazil, presidente da Associação de Travestis e Pessoas Transexuais do Estado (Astra RJ), lamenta: “A situação é grave, difícil resolver. Certamente vão culpabilizar a vítima”.

A família confirma que a Promotoria da Infância e Juventude acompanhava Michelly há dois anos. Dias antes de ser assassinada, na terça-feira anterior, ela foi chamada a prestar esclarecimentos sobre ocorrências envolvendo uso de drogas, porte de arma branca e pequenos furtos e agressões a supostos clientes do ponto de prostituição. “Miguel não escondia a verdade. Assumia seus erros e dizia que queria mudar. Mas meu filho também era vítima de pedofilia, adultos que exploravam sua condição sexual. E quanto a isso, o que pode ser feito?”, questiona a mãe.

Cobertura irresponsável e desumana da mídia local

Patricia e Michelly
A professora Patrícia enfrenta a dor de perder o filho e o preconceito da sociedade (Foto: Acervo de Família)

Não bastasse a dor, a família ainda é obrigada a conviver com o preconceito da sociedade, que julga e condena Michelly – ou Miguel – pela própria morte e ainda critica a família por “permitir” que se prostituísse nas ruas. Também enfrenta a cobertura irresponsável de alguns profissionais de comunicação da região, estampada em blogs que usam fotos chocantes do corpo ensanguentado caído ao chão, além de reproduzir trechos do vídeo em que Michely aparece discutindo com um cliente que não queria pagar os R$ 50 combinados pelo programa. “Estamos sendo vítimas da covardia, da dor da perda, da sociedade que coloca meu filho como culpado e de uma mídia sensacionalista que usa nossa dor para ganhar ibope”, reclama Patrícia.

Em nenhum momento estes veículos procuraram ouvir o outro lado – premissa básica do bom jornalismo. A família não foi procurada para esclarecimentos ou para dar sua versão sobre os fatos, em completo desrespeito à sua dor. Em um áudio para a avó e a mãe da vítima, um conhecido blogueiro da cidade, que se apresenta como jornalista, chega a fazer insinuações de que a vítima teria sido culpada pela própria morte, por suposto envolvimento em pequenos delitos. Como se tivesse o poder de julgar e condenar quem quer que seja. Tempos atrás, o mesmo ‘profissional’ se recusou a fazer uma reportagem sobre o ponto de prostituição que estaria recebendo menores como Michelly.

 

Roda de escuta para tratar o problema

Michelly e irmã Myllena
Michelly gostava de usar a maquiagem da irmã Myllena (Foto: Álbum de Família)

Com o objetivo de que esta não seja mais uma morte a entrar para as estatísticas e contribuir para uma comunicação mais inclusiva, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ) promove, na terça, dia 24 de julho, às 19h, uma Roda de Escuta sobre tratamento de pessoas LGBTIs na mídia. A abordagem responsável da mídia também está em cheque quanto à forma como o conteúdo é apresentado.

“Matéria veiculada na imprensa sobre este caso teve o título ‘Travesti é assassinado a tiros em Itaperuna’. Os grandes veículos já se adaptaram e escreveriam esta chamada no feminino. O objetivo com o nosso encontro é escutar aqueles que sofrem com o tratamento dado pela imprensa e conversar com os jornalistas e ativistas sobre qual a melhor forma de construir uma comunicação respeitosa e adequada”, afirma a jornalista Malu Fernandes, diretora do Sindicato, que idealizou o encontro, com apoio do Grupo JornalistasRJ e de ViDA & Ação.

Para a roda de conversa, foram convidados especialistas sobre o Manual de Comunicação LGBT, produzido pela Rede GayLatino e pela Aliança Nacional LGBT e lançado no mês passado, por ocasião do Dia Mundial do Orgulho LGBTI+. Ativistas e representantes dos movimentos em defesa dos direitos humanos e LGBTI+ estão sendo convidados, além de profissionais de Jornalismo e Comunicação, familiares de Michelly e de outras pessoas trans vítimas.

‘Meu sonho é mudar essa expectativa de vida’

Apesar da insistência e dos esforços da família, Michelly abandonou os estudos aos 14 anos, quando cursava o sétimo ano do Ensino Fundamental. Casos como o dela não são exceção. É muito comum que travestis e transexuais tenham baixa escolarização e, com isso, se torne mais difícil inseri-las no mercado formal de trabalho. “Elas se iludem com a prostituição, desacreditam no estudo. E se deixam ser absorvidas por esse (sub)mundo. O meu sonho é mudar essa expectativa de vida”, comenta Andrea Brazil, da Astra RJ.

A líder da associação de travestis destaca que  90% da população trans só têm como opção as ruas e o mercado da prostituição. “Por isso, a ideia é iniciar ações práticas de inclusão e qualificação profissional. para que as ruas não sejam suas ùnicas opções”, afirma. O objetivo é incluir essa população hoje marginalizada no mercado de trabalho formal e informal, em parceria com espaços de acolhimento de pessoas trans em extrema vulnerabilidade social, como Antra e Rede Trans.

“As políticas públicas e a sociedade como um todo insistem nessa invisibilização. Estamos aqui tentando reverter esse quadro. Temos espaço, público-alvo e equipe de coluntários…Só precisamos de recursos pra manter o projeto”, afirma Andrea. A Astra RJ está com uma campanha na plataforma de crowdfunding Vakinha desde o dia 14 de junho (veja aqui), mas até o momento só obteve 0,67% dos R$ 30 mil necessários para o projeto CapaciTrans se torne realidade.

A iniciativa prevê a compra de materiais para aula e produções práticas, ajuda de custo para alunas trans em extrema vulnerbilidade (sem dinheiro pra passagens ou um lanche por cada dia de aula), apostilas e toda a infraestrutura necessária. A meta é atender 50 alunas trans entre Centro e Zona Oeste do Rio, com um total de cinco cursos. Ninguém precisa ser trans pra lutar contra a transfobia. Basta ser humano! Contrate uma pessoa trans, ajude a qualificar uma pessoa trans. Faça sua parte!”, convoca a campanha.

Dor e revolta também na internet

Se na cidade de 100 mil habitantes predominam insinuações de que Michelly cometeu pequenos delitos e merecia pagar por isso, mesmo sendo ainda uma adolescente a ser protegida pelo estado, como prevê o Estatuto dos Direitos da Criança e do Adolescente – que completa 28 anos nesta sexta-feira (13) -, pela internet, amigos da travesti – e também do Miguel – se despediram, em seus diferentes perfis nas redes sociais, protestando contra a crueldade da execução.

“Vai com Deus, minha amiga, sentirei muita saudade de vc. Hoje o céu está em festa, hoje vai brilhar mais uma estrela, não tenho nem palavras para expressar a dor que estou sentindo por saber que vc se foi, por saber que foi uma crueldade que fizeram com vc, mais a justiça de Deus não falha, vai em paz minha amiga”, escreveu Claudyanne Motta em sua página no Facebook. “Como pode no mundo existir tantas pessoas corvades, que não sabem resolver as coisas direito. Pessoas podres, hipócritas, que têm coragem de tirar a vida de um ser humano. Vai com Deus, linda, que Deus te ponha em um bom lugar, todos nós sentiremos saudades. E que a justiça seja feita”, completava Jeh Santos.

Há muito tempo não via meu primo Miguel – sim, era ainda no gênero masculino que o conhecia -, mas não vou esquecer jamais daquele menininho de olhar doce e alegre que um dia eu vi crescer, que um dia virou Michelly, que agora virou lembrança em nossa memória, da forma mais difícil e triste. E compartilhando da dor profunda dos seus pais, esperamos também, sinceramente, que este não seja mais um crime por transfobia que permaneça impune no Brasil. Vamos acompanhar os desdobramentos das investigações, na certeza da Justiça. Michelly vive! Viva, Michelly!

 

 

 

 

 

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