Tudo começou com uma pinta menor que a cabeça de um fósforo

Rosayne Macedo

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O farmacêutico aposentado Sérgio Pimentel, de 62 anos, travou sua batalha particular contra o melanoma e venceu. Em 2013, uma pequenina pinta, menor que uma cabeça de fósforo, surgiu em seu nariz e o médico pediu para observar e ela logo caiu. Em 2014, a pinta voltou a crescer e precisou ser retirada com cirurgia e encaminhada para uma biópsia, que diagnosticou o câncer de pele. Em 20 dias após a descoberta, um novo caroço surgiu em seu pescoço e rapidamente o paciente precisou ser operado quando foi descoberto o melanoma.

“Depois desse diagnóstico, em questão de dias, havia vários nódulos no meu pulmão e linfonodos no meu pescoço. No total, eram 26 e aquela simples pinta tornou-se um melanoma metastático. Fiz cirurgia, radioterapia, quimioterapia e o tratamento não evoluiu. O médico já havia me explicado sobre uma nova medicação, que estava apresentando resultados muito satisfatórios, mas o problema era o custo: R$ 85 mil cada dose”, conta Sérgio.

A medicação apontada foi o Ipilimumab. Otimista com a nova possibilidade, Sérgio pagou pela primeira dose e se surpreendeu com os resultados. “Após a aplicação do remédio, os nódulos começaram a diminuir. Com os resultados, entrei com um pedido judicial ao plano de saúde para que conseguisse continuar com o tratamento e a solicitação foi aceita. Fiquei feliz, mas é muito triste ter que passar por esse desgaste em um momento delicado desses. No total foram quatro doses e como um milagre eu não tinha mais nada”, afirma o aposentado, praticante de atletismo. Ele acredita que ter descoberto o câncer no começo, estar em boa forma física e ter condições de acesso à nova medicação foram as chaves para sua cura.

Infelizmente, poucas pessoas podem ter a mesma chance de recuperação que Sérgio teve. No Brasil, o Inca estima que serão diagnosticados cerca de 6 mil casos da doença até o final de 2017.  O oncologista Vinícius Correa da Conceição, do Grupo SOnHe – Sasse Oncologia e Hematologia afirma que o câncer é uma questão de saúde pública, com impacto social e econômico. “O arsenal terapêutico para o tratamento do melanoma evoluiu significativamente ao longo dos últimos anos. Há novos medicamentos – como o Ipilimumab – que apresentam alta possibilidade de cura, mas é restrito aos pacientes da rede privada de saúde. Isto tem que mudar”, exalta.

Melanoma é o menos comum, mas o mais agressivo

Embora o câncer de pele em geral seja o mais frequente no Brasil e corresponda a 30% de todos os tumores malignos registrados no país, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o melanoma representa apenas 3% das neoplasias malignas. Porém, é o mais agressivo devido à sua alta possibilidade de metástase (quando o câncer se espalha além do local onde começou para outras partes do corpo). O tumor, no início, pode parecer inofensivo, entretanto pode se alastrar rapidamente para os nódulos linfáticos e chegando a atingir órgãos como cérebro, pulmões e fígado.

Por isso, é bom ficar atento. “Observe as pintas que temos pelo corpo e qualquer alteração deve ser avaliada pelo especialista. Não se deve ignorar nenhum detalhe”. A orientação tem um motivo positivo e importante. “O melanoma tem mais de 95% de chance de cura quando diagnosticado precocemente se tratado da forma adequada”, aponta . “Dados como estes deveriam deixar a população de países tropicais, como o nosso, em alerta constante. Afinal, o maior vilão quando falamos em câncer de pele é o sol. E, por aqui, temos sol o ano inteiro”, alerta Vinicius, que é membro titular da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) e da Sociedade Europeia de Oncologia (ESMO)

O tema se consolidou em estudo realizado pelo Grupo SOnHe e foi  apresentado por Vinicius no 9º Congresso Mundial de Melanoma, realizado em Brisbane, Austrália, em outubro. O evento, considerado o mais importante do mundo sobre a doença, reuniu os principais pesquisadores e clínicos de melanoma de diversos países que mostraram os últimos desenvolvimentos no diagnóstico, tratamento e pesquisa demelanoma.  O título do trabalho apresentado pelo médico brasileiro é “Avaliação clínica e econômica do Ipilimumab para melanoma metastático no Brasil: uma perspectiva do sistema de saúde pública”.

“Enquanto sociedade médica, sabemos e compactuamos que o desafio da escolha da melhor abordagem terapêutica do melanoma deve considerar não apenas fatores como a conveniência do tratamento, qualidade de vida, toxicidade e desfechos em saúde, mas também, a custo-efetividade e os impactos econômicos da incorporação de novas tecnologias. Mas infelizmente, o paciente brasileiro portador da doença metastática, sendo usuário dos serviços públicos de saúde, dispõe oficialmente de uma única abordagem de tratamento”, explica o médico sobre esse fator limitante no Brasil e que foi exposto no congresso.

Novos tratamentos dobram chances de cura

O melanoma é o tipo de câncer que apresenta o maior número de mutações genéticas no DNA do tumor. Essas mutações podem confundir o sistema imunológico do paciente e dificultar a ação de terapias tradicionais. Por isso, a imunoterapia é uma das grandes aliadas no tratamento da doença. “A Imunoterapia é o tratamento que promove a estimulação do sistema imunológico por meio do uso de substâncias modificadoras da resposta biológica. Em resumo, trata-se de um grupo de drogas que, ao invés de mirar o câncer, ajuda as nossas defesas a detectá-lo e agredi-lo”, explica o oncogeneticista do CPO.

Especialistas destacam os avanços no tratamento, principalmente em estágios avançados, como é a proposta da imunoterapia. Andreia de Melo, oncologista clínico do Grupo Oncologia D’Or, afirma que novos medicamentos estimulam o sistema imunológico do paciente a identificar e extinguir as células do câncer. “Nosso sistema imunológico é capaz de reconhecer células normais do corpo, o que é essencial para que não sejam destruídas. Ele faz isso utilizando pontos de verificação, que são moléculas que precisam ser ligadas (ou desligadas) para iniciar a resposta imune. As células do melanoma podem ‘aprender’ a utilizar estes pontos de checagem para evitar a sua destruição pelas células de defesa. Estas novas drogas agem sobre estes mesmos pontos, com resultados promissores”, explica.

 Ainda sobre o tratamento da doença, a oncologista reforça que existem inúmeras terapias em desenvolvimento – envolvendo imunoterapia – e que poderão ser encontradas no país nos próximos anos. “Podemos citar a manipulação gênica de células de defesa retiradas do próprio indivíduo para serem, depois, reinfundidas com um maior potencial de defesa contra as células tumorais”, finaliza.

Da Redação, com assessorias

 

 

 

 

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