Uma criança morre a cada dois dias de Covid-19 no Brasil

Entidades médicas e especialistas em imunizações cobram vacinação imediata de crianças de 5 a 11 anos com imunizante da Pfizer aprovado pela Anvisa

Vacina de HPV entre meninos no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação SES)

No começo da pandemia, elas não eram vistas como pacientes, apenas como transmissoras, o que já era muito. Isso motivou inclusive . Mas ao longo da pandemia e do avanço da vacinação entre o público adulto uma nova realidade foi escancarada. Além de transmitir o Sars-Cov-2, as crianças podem sim adoecer e até morrer da doença causada pelo novo coronavírus. Números apontam que uma criança morre de Covid-19 a cada dois dias no Brasil, o que reforça a necessidade urgente da vacinação desse público.

A notificação de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no sistema nacional SIVEP-Gripe, atualizados até o dia 6 de dezembro de 2021, revela que em 2020, 10.356 crianças entre 0 e 11 anos foram notificadas com diagnóstico de SRAG por Covid-19, das quais 722 evoluíram para óbito. Em 2021, as notificações se elevaram para 12.921 ocorrências na mesma população, com 727 mortes, totalizando 23.277 casos de SRAG por Covid-19 e 1.449 mortes desde o início da epidemia.

Dentre esses casos, 2.978 ocorreram em crianças de 5-11 anos, com 156 mortes, em 2020. E em 2021, já foram registrados 3.185 casos nessa faixa etária, com 145 mortes, totalizando 6.163 casos e 301 mortes desde o início da epidemia. Esses números representam uma incidência de 29,96 casos e 1,46 óbitos a cada 100 mil habitantes nessa faixa etária.

Os dados fazem parte de uma nota pública emitida nesta sexta-feira (24) pela maioria dos membros da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid-19 (CTAI), que reúne entidades diretamente ligadas ao tema Imunizações. Eles defendem a vacinação em crianças com o imunizante da Pfizer, já aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas postergada pelo governo federal, que decidiu abrir uma consulta pública para ouvir pais, apoiadores e leigos em geral.

“A chegada de uma nova variante como a Omicron, com maior transmissibilidade, faz das crianças (ainda não vacinadas) um grupo com maior risco de infecção, conforme vem sendo observado em outros países onde houve transmissão comunitária desta variante. Neste contexto epidemiológico, torna-se oportuno e urgente ampliarmos o benefício da vacinação a este grupo etário”, diz a nota (veja na íntegra abaixo).

Criada em agosto de 2021, a CTAI-Covid19 esclareceu ainda que já se manifestou unanimemente favorável à sua incorporação na campanha nacional de vacinação, em reunião ordinária realizada no dia 17 de dezembro. O texto é assinado por entidades como Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai), Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e tem apoio da Associação Médica Brasileira (AMB) e da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Também integram a Câmara e assinam a nota pesquisadores do Programa de Computação Científica da Fiocruz que atuam como parceiros científicos da rede nacional de vigilância de vírus respiratórios; cientistas de Bio-Manguinhos/Fiocruz com experiência no desenvolvimento e avaliação clínica de vacinas no país, além de representantes do Instituto Butantan e da Organização Panamericana da Saúde (OPAS).

O documento é assinado ainda por especialistas ad-hoc com larga experiência em campanhas de imunização, epidemiologia, infectologia, e/ou atenção em saúde, como Eduardo Jorge da Fonseca Lima;  Eitan Berezin; Helena Keico Sato; Jorge Elias Kalil Filho; Marco Aurélio Sáfadi;  Nancy Bellei e Sergio Cimerman.

Das entidades médicas que participam da Ctai-Covid, apenas o Conselho Federal de Medicina (CFM), que é favorável ao governo federal, não assina a nota. Também integram a Câmara membros do Ministério da Saúde representando a Coordenação Geral de Fomento à Pesquisa em Saúde; o Programa Nacional de Imunizações (PNI); o Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis, e a Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19.

Nota pública de membros da CTAI-Covid sobre a vacinação em crianças

Introdução:

A Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid-19 (CTAI Covid-19) foi instituída pela Portaria GM/MS Nº 1.841, de 5 de agosto de 2021. Dentre as suas atribuições, cabe à CTAI realizar análise técnica e científica para propor a definição do público alvo e estimativa de doses necessárias para a imunização; auxiliar técnica e cientificamente as decisões no tocante à segurança do cumprimento do esquema vacinal; elaborar manifestação técnica e científica sobre temas relacionados ao Programa Nacional de Imunizações.

Posicionamento da CTAI:

Tendo em vista o recente parecer favorável por parte da Anvisa em relação ao pedido de autorização para aplicação da vacina desenvolvida pela fabricante Pfizer na população pediátrica entre 5 e 11 anos de idade no Brasil, a CTAI COVID-19 manifestou-se unanimemente favorável à sua incorporação na campanha nacional de vacinação, em reunião ordinária realizada no dia 17 de dezembro de 2021, alicerçada, ainda, nos fundamentos técnicos destacados abaixo.

Fundamentação técnica:

A decisão baseia-se nos dados epidemiológicos nacionais e internacionais sobre o impacto da Covid-19 nas diferentes faixas etárias, considerando o risco de infecção, transmissão, e agravamento (hospitalização e morte); dados de ensaios clínicos, sobre imunogenicidade, reatogenicidade, segurança e eficácia das vacinas de diferentes fabricantes na população pediátrica em distintos países do mundo, além de informações sobre a segurança desses imunizantes em larga escala, entre outros.

Sobre os dados epidemiológicos nacionais relevantes, destacamos a notificação de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no sistema nacional SIVEP-Gripe, atualizados até o dia 6 de dezembro de 2021, de onde se extrai que:

– Em 2020, 10.356 crianças entre 0-11 anos foram notificadas com diagnóstico de SRAG por Covid-19, das quais 722 evoluíram para óbito. Em 2021, as notificações se elevaram para 12.921 ocorrências na mesma população, com 727 mortes, totalizando 23.277 casos de SRAG por Covid-19 e 1.449 mortes desde o início da epidemia;

– Dentre esses casos, 2.978 ocorreram em crianças de 5-11 anos, com 156 mortes, em 2020. E em 2021, já foram registrados 3.185 casos nessa faixa etária, com 145 mortes, totalizando 6.163 casos e 301 mortes desde o início da epidemia. Esses números representam uma incidência de 29,96 casos e 1,46 óbitos a cada 100 mil habitantes nessa faixa etária.

Além dos casos de SRAG por Covid-19, foram notificados até o dia 27 de novembro de 2021 (SE 47), 2.435 casos suspeitos da SIM-P associada à covid-19 em crianças e adolescentes de zero a 19 anos no território nacional, desses, 1.412 (58%) casos foram confirmados, com 85 óbitos (SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2021) .

Destacamos aqui o fato de que no Brasil, a experiência com os casos de SIM-P mostrou que 64% das crianças/adolescentes acometidos tinham entre 1 e 9 anos de idade (mediana: 5 anos). Entre as crianças hospitalizadas, a necessidade de internação em UTI ocorreu em 44,5% dos casos e a letalidade foi de 6% (cerca de 5 vezes superior à relatada nos Estados Unidos) (RELVAS-BRANDT et al., 2021).

Ainda em relação aos casos confirmados para SIM-P, em crianças de 5 a 11 anos (n=606; considerando 2020 e 2021 até a semana epidemiológica 47), 65% (n=394) apresentaram disfunções cardíacas na evolução do quadro clínico, evidenciadas por ecocardiograma e/ou aumento de marcadores laboratoriais, o que incide em 1,91 casos de SIM-P com acometimento cardíaco a cada 100 mil crianças nesta faixa de idade.

Destacamos, também, que as agências regulatórias e de saúde pública do Canadá, Estados Unidos da América, Israel, União Européia, dentre outras, já aprovaram o uso da vacina pediátrica da Pfizer/BioNTech em sua população, baseadas na eficácia, segurança e cenário epidemiológico local.

Diversos outros países da Ásia, África, e América do Sul têm utilizado vacinas de vírus inativado (Sinopharm ou Sinovac/Coronavac) em milhões de crianças menores de 12 anos, a partir de 3 ou 5 anos.

Até o momento, os dados disponibilizados apontam para a manutenção da avaliação favorável à vacinação dessas crianças. Nos EUA, até a data de 9 de dezembro, 7.141.428 doses da vacina pediátrica da Pfizer já foram administradas em crianças de 5 a 11 anos (5.126.642 destas como primeira dose e 2.014.786 como segunda dose).

A vacina demonstrou um perfil de reatogenicidade adequado, sendo a quase totalidade dos eventos adversos classificados como não sérios (97%), caracterizados basicamente por febre, dor de cabeça, vômitos, fadiga e inapetência.

Houve apenas 8 casos de miocardite em mais de 7 milhões de doses administradas (2 casos após a primeira dose e 6 casos após a segunda dose), todos eles classificados como de evolução clínica favorável.

Estes dados preliminares mostram, portanto, um risco substancialmente menor deste evento adverso comparado com o risco previamente observado em adolescentes e adultos jovens após a vacinação (VACCINE SAFETY TEAM; CDC COVID-19 VACCINE TASK FORCE, 2021).

Ou seja, os benefícios são muito maiores do que os riscos, pilar central de avaliação de qualquer vacina incorporada pelos diversos programas de vacinação, seja no Brasil ou no mundo.

Conclusão:

Diante do exposto, a CTAI Covid-19 espera que o Ministério da Saúde acate o posicionamento obtido por unanimidade e defina as estratégias para a operacionalização mais adequada da vacinação desse grupo etário, a fim de alcançar a maior cobertura, no menor tempo possível.

Destacamos ainda, que a chegada de uma nova variante como a Omicron, com maior transmissibilidade, faz das crianças (ainda não vacinadas) um grupo com maior risco de infecção, conforme vem sendo observado em outros países onde houve transmissão comunitária desta variante. Neste contexto epidemiológico, torna-se oportuno e urgente ampliarmos o benefício da vacinação a este grupo etário”.

Aprovam a presente nota:

Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai)

Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)

Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib)

Conselho Federal de Enfermagem (Cofen)

Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass)

Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems)

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)

Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)

Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)

Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR)

Manifestam apoio à presente nota:

Associação Médica Brasileira (AMB)

Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI)

Com Assessoria AMB

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