Violência contra a mulher: nova terapia promete ajudar vítimas

Pouco conhecida, a EMDR é aliada para que vivenciou situações de abusos, violência psicológica e física, com a estimulação das lembranças

Redação
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A escalada de crimes de feminicídio nas últimas semanas escancaram uma realidade cruel nos lares brasileiros. Os temas feminicídio e relacionamento abusivo tomaram conta dos noticiários de todo o país, diante do aumento do número de casos de assassinato de mulheres. Em apenas 11 dias, foram 33 casos de feminicídio: 17 vótimas conseguiram sobreviver.
O crime de feminicídio ocorre quando a vítima é morta pela condição de ser mulher. Esse tipo de violência faz parte do dia a dia das mulheres. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que o Brasil é o país com a quinta maior taxa de feminicídio do mundo.
Mas não é fácil sair (muitas vezes, viva!) de um relacionamento abusivo, tampouco superá-lo. “Alguma vez você se viu dentro de um abuso físico ou psicológico? Você já se sentiu a pior das pessoas ou aquela que não tem capacidade de fazer nada porque o outro te convence disto?”, questiona a psicóloga Ana Lúcia Castello. Ela mesmo responde: “Se a resposta for positiva, significa que você está dentro de um relacionamento abusivo”.

Ana Lúcia é presidente da Associação Brasileira de EMDR, técnica que promete mudar o rumo de uma pessoa abusada dentro de uma relação. “A técnica possibilita a dessensibilização dos sentimentos, das sensações corporais que temos em relação a todos os abusos que por vezes nos damos conta de estar passando”, explica.

Como superar um relacionamento abusivo

A terapia de EMDR (EyeMovementDesensitizationandReprocessing – Dessensibilização Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares) vem mostrando resultados eficazes para pacientes que vivenciaram situações de abusos, violência psicológica e física, através da estimulação das lembranças.

O método do tratamento atua na origem dos sintomas ansiosos e depressivos de um ou mais acontecimentos na vida da paciente que são registrados por meio de imagens, crenças, emoções e sensações corporais.

“A paciente é incentivada a se lembrar da situação ou sensação traumática, e lhe ajudamos a mexer os olhos de determinada maneira, que o cérebro recebe a ajuda necessária para processar o fato e arquivá-lo de uma forma funcional”, diz Ana Lúcia.

Desta forma, perde-se a carga negativa associada ao evento. “Muitas mulheres relatam que a sensação da lembrança foi de fato colocada no passado, e que já não se incomodam mais em lembrar dela.” explica Ana Castello.

Estimulação do cérebro

No tratamento com EMDR, utiliza-se um protocolo de oito fases que deve ser seguido à risca para que o paciente tenha acesso a todos os pilares da memória que são necessários para reprocessar os traumas (imagens, crenças negativas, emoções e sensações corporais). Ao se aplicar o estímulo visual, auditivo e/ou tátil no tratamento de EMDR, que promove a dessensibilização e reprocessamento das experiências negativas, se instiga à rede onde ficou presa a lembrança.

Dessa forma, se dá um “arranque” necessário ao mecanismo que restaura a capacidade de processamento do sistema, permitindo a busca de informações em outras redes neurológicas onde a vítima pode encontrar o que precisa para compreender o que aconteceu naquele momento traumático.

Cada série de movimentos continua soltando a informação perturbadora e acelera essa informação através de um caminho adaptativo até que os pensamentos, sentimentos, imagens e emoções tenham se dissipado e são espontaneamente substituídos por uma atitude positiva”, afirma Ana Castello.

Segundo ela, quando a pessoa passa pelo processo terapêutico, adquire uma consciência emocional que permite o acesso consciente de todo o abuso que viveu neste relacionamento, conseguindo direcionar sua vida para resgates significativos de suas características potenciais de vida.

“A terapia pode ajudar na avaliação do que promoveu este encontro com alguém com características abusadoras e os porquês de ter continuado nesta situação; e consequentemente empoderar a paciente a enxergar estas características potenciais em outros abusadores que estão por vir e livrar-se deles para não sofrer os resquícios de outro relacionamento abusivo”, conclui.

Série na Netflix aborda relacionamento abusivo

A repercussão da série You, exibida pela Netflix, também vem levantando debates sobre o relacionamento abusivo. Nos episódios, o personagem Joe é obcecado pela escritora Beck e usa artifícios para rastrear gostos, amigos, casa e lugares frequentados pela vítima. A perseguição é doentia e cercada de assassinatos, masturbação e violação.

Ainda são usadas técnicas para infernizar a vida da personagem, como o monitoramento de onde está em tempo real, informações sobre trabalho, descoberta de senhas, manipulação psicólogica e invasão de celular.

Segundo Ana Bernal, advogada especialista em Direito Penal e Processual Penal, isso não acontece somente na ficção. O 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que o Brasil em 2017 teve 221.238 registros de violência doméstica, ou seja, 606 casos diários, de lesão corporal enquadrados na Lei Maria da Penha.

O número de feminicídios no Estado de São Paulo cresceu 26,6% em 2018, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. Foram registrados 119 casos de janeiro a novembro de 2018, contra 94 no mesmo período do ano anterior.

As denúncias de casos de violência sexual também aumentaram. Entre 2011 e 2017, segundo o Ministério da Saúde, o Brasil teve um aumento de 83% nas notificações gerais de violências sexuais. No último domingo (9), o mundo se deparou com inúmeros casos de abusos envolvendo o nome João de Deus, médium que trabalha em Abadiânia, região central de Goiás.

Da Redação, com Assessorias 

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