Por trás das máscaras: ‘Vivi momentos angustiantes e de muito medo’, diz médica

Fotolivro mostra expressões e histórias de profissionais da linha de frente da Covid-19 no Rio, São Paulo e Recife

Em hospital de Duque de Caxias, a fisioterapeuta Elaine Corrêa Juvenal faz atendimento a médica Roma Nápoli, internada com a doença (Foto: Márcia Foletto)

A médica Roma Nápoli teve Covid-19 e chegou a ser internada no local onde trabalhava, o Hospital Municipal Dr. Moacyr Rodrigues do Carmo, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. No CTI exclusivo para casos de Covid-19 do hospital, foi atendida pela fisioterapeuta Elaine Corrêa Juvenal, uma cena registrada em junho de 2020 pela fotógrafa Márcia Folleto.

Como paciente, posso afirmar que vivi momentos muito angustiantes e de muito medo também. O profissional de saúde que já foi contaminado pelo coronavírus entende muito mais a situação do paciente. A minha conduta com os pacientes com coronavírus é muito diferente hoje em dia”, relata a médica, que atuava no CTI exclusivo para casos de Covid-19 do hospital.

Um dia após o Brasil bater a triste marca de 300 mil mortos por Covid-19, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) reuniu profissionais de saúde que estão na linha de frente – como Roma Nápoli – para contarem suas experiências. A roda de conversa foi transmitida ao vivo como parte das atividades de lançamento do fotolivro “Por trás das máscaras”. A publicação busca mostrar a humanidade, o cotidiano e a coragem dos profissionais que atuam na resposta à pandemia no Brasil.

Das coberturas fotográficas que eu fiz durante a pandemia, este é um trabalho de grande importância para a gente, porque mostra para as outras pessoas aquele trabalho que não é tão visível. Daí a importância desse livro, mostrando o rosto das pessoas que estão salvando vidas”, disse Folleto na roda de conversa de lançamento do fotolivro.

A iniciativa do fotolivro faz parte da campanha Valorize o Essencial , que incentiva o reconhecimento e o respeito aos profissionais de serviços de saúde, educação e assistência social. “Eles foram para hospitais, unidades de saúde, foram para a ala vermelha, correndo riscos também, para trazer essas histórias, a informação ao público. Isso tem que ser reconhecido, respeitado e valorizado, e foi essa nossa intenção na primeira roda de conversa”, destacou a coordenadora de Comunicação do CICV, Sandra Lefcovich, organizadora do fotolivro.

‘Ninguém queria pegar o elevador com a gente’, diz psicóloga

A psicóloga Sâmia Ribeiro, que atua em Fortaleza, fala sobre preconceito aos profissionais de saúde (Foto: Camila de Almeida)

O fotolivro retrata histórias como a de Sâmia Ribeiro, que trabalha em Fortaleza, no Ceará. “A gente percebia que no início da pandemia ninguém queria pegar o elevador com a gente”, lembra a psicóloga. Ela diz que também entendia a dificuldade das pessoas: “Como você ovaciona e depois agride?”.

Sempre muito próxima da sua comunidade, a enfermeira Érica Souza Guimarães, de Duque de Caxias (RJ), sentiu que todo equipamento de proteção individual, essencial para sua segurança no trabalho, tirou sua individualidade. “Poucas pessoas realmente perguntam como estamos nos sentindo. Agora as pessoas podem ver que não sou somente uma enfermeira, eu sou a Érica”, conta, sobre a experiência de ter sido fotografada para o projeto.

“Quisemos retratar e homenagear os profissionais da linha de frente que têm vivido tantos desafios, dificuldades e falta de compreensão do seu trabalho, tão essencial, salvando vidas”, explica Sandra. A agente comunitária Elisabeth Dutra é só gratidão: “Tem muito a agradecer por fazer parte desse livro”. “É muito bom ouvir deles nessa roda de conversa o quanto esse reconhecimento é importante para eles, o quanto faz bem, pois eles têm sido aplaudidos, mas também atacados”, diz Sandra.

Fotógrafos falam da experiência inédita

No último dia 16, o CICV havia reunido os fotógrafos que produziram as imagens de “Por trás das máscaras”, retratando a realidade em Duque de Caxias (RJ), Fortaleza (CE) e São Paulo (SP). Na ocasião, os fotógrafos Márcia Folleto, Camila de Almeida e Tiago Queiroz contaram como foi transformar aquela realidade que estavam testemunhando em imagens que sensibilizassem o público.

Em sua experiência fotografando no Instituto Emílio Ribas e no Hospital de Campanha do Anhembi, Tiago falou sobre a fotografia que mais lhe marcou: o da fisioterapeuta Uilsa Gonçalves de Oliveira, de 45 anos. O clique foi no setor vermelho de pacientes mais graves do Hospital de Campanha administrado pela SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina).

Fiz um retrato bem focado na expressão dela, no rosto dela, com máscara e tudo embaçado. Eu acho que mostrava muito a situação limite que ela estava vivendo naquele momento. É uma foto que quando eu olho de novo, me vem à mente tudo o que eu vi naquele dia.”

Fisioterapeuta Uilsa Gonçalves no setor de pacientes graves do Hospital de Campanha do Anhembi (Foto: Tiago Queiroz)

Ao ser questionada sobre como equilibrar técnica e emoção em uma cobertura de pandemia, Camila de Almeida sintetizou: “Eu posso até fazer uma foto sem técnica, mas não farei sem emoção.” Na avaliação de Lefcovich, “em um momento em que o jornalismo é colocado em questão, pensamos que é importante trazer a público a fala desses fotógrafos que vivenciam o cotidiano da cobertura da pandemia e que estão fazendo um trabalho de extrema relevância, ao mostrar o trabalho dos profissionais de saúde, a dor das famílias, o que acontece com os que adoecem.”

“Além de lançar o livro, poder trazer os profissionais para trocarem experiência e dialogar diretamente com o público, que mandava perguntas ao vivo, foi muito enriquecedor”, comenta Lívia Schunk, responsável pelo programa Acesso Mais Seguro do CICV. “Estamos em uma fase da pandemia onde os números são alarmantes, mas é importante sempre trazer o aspecto humano que está atrás das estatísticas. E foi isso que buscamos fazer com as rodas de conversa”, conclui.

Fonte: CICV, com Redação

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