Você se lembra do que comprou na Black Friday passada?

Adaptação Hedônica, característica natural que o ser humano tem em se acostumar facilmente com bens materiais e dinheiro, é a pior inimiga da felicidade, diz especialista

Redação

Luiz Gaziri, palestrante, consultor e professor que prepara para julho de 2019 o seu novo livro ‘Escolhas Felizes’, mostra que os bens materiais que adquirimos são facilmente esquecidos. Já as experiências, as viagens, os passeios… Ah, essas ficam guardadas quase sempre em nossas memórias.

E que tal presentear alguém ou fazer uma caridade? Isso também traz grande realização, apontam estudos. Confira no artigo abaixo por que as pessoas se tornam mais consumistas na Black Friday.

Black Friday, Blue Monday, Red Christmas

Luiz Gaziri*

Um fato que intriga cientistas do mundo todo é o de que o ser humano toma decisões contrárias aos seus próprios interesses, todos os dias. Nós temos objetivos de vida que comprometem nossa felicidade, gastamos o que não temos para andar com o carro da moda, prejudicamos nossos relacionamentos pessoais ao passar tempo demais mergulhados em nossos smartphones, assim como compramos bens desnecessários na Black Friday.

O que muitas pessoas não sabem é o impacto negativo que o materialismo tem em nossas vidas, tema estudado há anos pela ciência. Caso você tenha comprado algo na Black Friday do ano retrasado, você lembra o que adquiriu? Você não é a única pessoa que não recorda de aquisições materiais passadas, pois esta é uma característica natural do ser humano, nomeada pela ciência como ‘Adaptação Hedônica’.

A pesquisadora Sonja Lyubomirsky, da University of California, classifica esta característica como a “pior inimiga da felicidade.” A Adaptação Hedônica é a característica natural que o ser humano tem em se acostumar facilmente com bens materiais e dinheiro. É por causa dela que você compra uma camisa nova e um mês depois, aquela camisa não te traz mais felicidade alguma – você se acostuma com a sua camisa e ela se torna apenas mais uma no seu guarda-roupas.

Você recebe um aumento no seu salário e fica mais feliz, porém, no próximo mês, o seu aumento de salário se torna apenas o seu salário – você se acostuma com aquele dinheiro e ele não sustenta mais a sua felicidade. Você compra um carro novo e deriva um prazer incrível em o dirigir durante dois meses. Depois disso, o seu carro se torna apenas a forma como você se desloca até o escritório. Você compra um item na Black Friday, fica mais feliz, mas depois de dois anos você nem lembra o que comprou.

Obviamente, a mídia irá insistir em te bombardear com mensagens de que você não será feliz até que adquira a televisão, smartphone ou sapato da moda, justamente porque a mídia não está no mercado da felicidade, mas sim, no mercado de vender anúncios. Com isto, os veículos de comunicação nos presenteiam com o upgrade da Adaptação Hedônica, conhecido pela ciência como Esteira Hedônica.

A corrida constante pela satisfação

Quanto mais as pessoas acreditam que o sucesso é conquistado através de bens materiais e dinheiro, mais rápido elas passam a se adaptar a novas roupas, carros, aumentos salariais, bolsas, sapatos e smartphones. Assim, as pessoas passam a nunca estar satisfeitas com o que têm, entrando numa corrida que nunca irão vencer.

Não por acaso, os cientistas Tim Kasser e Richard Ryan descobriram que pessoas que valorizam excessivamente bens materiais e dinheiro são aquelas que reportam alto grau de insatisfação com a vida, maiores níveis de depressão e ansiedade, além de viverem vidas guiadas pelo que os outros esperam delas.

Os pesquisadores Grant Donnelly e Mike Norton, da Universidade de Harvard, descobriram numa pesquisa que analisou a felicidade de 4.000 milionários, que apenas 13% deles reportam ser perfeitamente felizes com o que têm. A grande maioria dos milionários dizem que serão perfeitamente felizes apenas quando suas riquezas aumentarem entre 500% e 1000%. Esta é a Adaptação Hedônica em ação!

Gastar o dinheiro com outra pessoa traz mais felicidade

Felizmente, nem todas as coisas que adquirimos causam Adaptação Hedônica. Cientistas da Harvard, British Columbia e Simon Fraser realizaram um experimento que ilustra este fato de forma brilhante. Participantes deste estudo recebiam um envelope com $ 5 ou $ 20 dentro, sendo que alguns eram instruídos a gastarem o dinheiro consigo mesmos enquanto outro grupo era instruído a gastar o dinheiro comprando um presente para alguém.

No final do dia, qual grupo de pessoas estava mais feliz? Aquele onde os participantes gastaram seu dinheiro com outra pessoa. Um fato interessante deste estudo foi a descoberta de que a felicidade que as pessoas reportavam após terem comprado um presente para alguém era a mesma independentemente de elas terem gastado $ 5 ou $ 20, o que mostra que a ação de presentear alguém é o que causa um aumento na felicidade, não o valor gasto.

Um grande corpo de comprovações científicas mostra que toda vez que gastamos o nosso dinheiro comprando presentes para outras pessoas alcançamos uma felicidade maior do que se gastássemos este mesmo montante em algo para nós mesmos. .Ações como doar dinheiro para a caridade apresentam o mesmo efeito positivo na nossa felicidade.

Investir em passeios, viagens e entretenimento é mais prazeroso

Pesquisadores da San Francisco State University mediram a felicidade de um grupo de pessoas algumas semanas após a aquisição de um bem material, bem como, a felicidade de outro grupo de pessoas que haviam retornado de uma viagem há duas semanas. Qual dos dois grupos reportou estar mais feliz? O dos viajantes.

Outros estudos apontam que quando investimos nosso dinheiro em experiências – viagens, passeios e outras formas de entretenimento – ficamos mais felizes do que se tivéssemos o investido em bens materiais. Você pode não lembrar do que comprou na penúltima Black Friday, mas eu duvido que você tenha esquecido da sua penúltima viagem.

Presenciar a felicidade de alguém que acabou de receber nosso presente como uma surpresa ou aproveitar uma viagem são acontecimentos que dificilmente caem na Adaptação Hedônica.

Portanto, se você tiver o objetivo de ficar mais feliz nesta Black Friday, gaste o seu dinheiro em experiências, compre uma pequena lembrança para alguém importante para você ou doe o seu dinheiro para a caridade.

Dinheiro ou cartão de débito reduz a ‘dor no bolso’

Caso você realmente precise de algo e queira aproveitar as promoções, compre usando dinheiro ou cartão de débito. Cientistas da área de Economia Comportamental demostraram em seus estudos que estas opções de pagamento reduzem o sentimento de “dor no bolso”, muito comum alguns dias após termos realizado alguma compra de valor alto.

Da mesma forma, evite ficar horas comparando modelos, marcas, preços e cores do produto que quer comprar. Muitos estudos mostram que quando escolhemos algo entre uma variedade enorme de opções, ficamos insatisfeitos e nos arrependemos daquilo que compramos, algo que não acontece quando nos expomos a poucas opções de compra. Lembre-se que “a melhor compra” ou a “compra perfeita” são coisas que não existem.

Ao seguir a ciência, certamente a sua felicidade com a Black Friday não se transformará num momento depressivo logo na segunda-feira e muito menos irá te causar um prejuízo que fará com que a sua conta bancária esteja no vermelho em pleno Natal.

Luiz Gaziri é autor, palestrante, consultor e professor da FAE Business School e da PUCPR. Seu novo livro, ‘Escolhas Felizes’, será lançado pela Faro Editorial em julho de 2019.

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