A ‘escolha de Sofia’: quem deve viver ou morrer de coronavírus?

‘É extremamente desumano, triste, difícil, quando você não tem como atender’, diz o epidemiologista Pedro Reginaldo Prata à jornalista Ana Helena Tavares

Ana Helena Tavares

O número de mortes pela Covid-19 não para de subir na Itália. Nesta quinta-feira (26/3), foram confirmados 80.539 casos, com 8.165 óbitos. Com essa dura realidade, o sistema de saúde italiano entrou em colapso. Sem capacidade de atender tantos casos, os médicos são obrigados a escolher quem podem salvar – ou, em outras palavras, quem deve morrer.

Diante da difícil decisão, critérios como ser jovem ou mãe podem representar alguma “vantagem competitiva” para as vítimas. Mas até que ponto isso não fere a ética médica? Em entrevista à jornalista Ana Helena Tavares, do blog Quem tem Medo da Democracia‘, gentilmente cedida ao Portal ViDA & Ação, o médico sanitarista Pedro Reginaldo Prata, PhD em Epidemiologia, analisa a chamada ‘escolha de Sofia’ à luz da Medicina, pela lógica humanista. ‘É extremamente desumano, triste, difícil, quando você não tem como atender’, ressalta.

Confira alguns dos principais trechos da entrevista:

Na profissão médica, uma das coisas que a gente é treinado, aprende e é muito duro, mas faz parte, é a definir prioridades. Se você tem 10 leitos e 15 pacientes, o que é mais grave, o que não é? E o que é grave, mas você já sabe que não há possibilidade de cura? Nesse caso, você tem que fazer um tratamento humano, que alivie a pessoa, mas deixar seguir seu curso. Agora, se existe uma gravidade, que você sabe que tem possibilidade de cura, aquilo deve ter prioridade, para um tratamento intensivo, etc…”, afirma.

Ele destaca que o médico é preparado para a atenção individual; para tratar doentes e identificar a doença. “Eu acho até que a qualidade da formação vem caindo. Ele deve estar preparado para identificar sinais e sintomas, principalmente – e esse é o desafio numa pandemia – identificar o que é grave. Na grande maioria dos casos, inclusive no caso desta (Covid-19), as pessoas vão ter o que seria um ‘quadro gripal’ entre aspas e vão ficar boas. A questão é como identificar o que é grave ou está se agravando”, ressalta o médico, que tem décadas de experiência em saúde pública, no ensino/pesquisa e cargos de gestão governamental,

Segundo Prata, isso exige não apenas conhecimento e experiência, mas uma capacidade de empatia humana muito grande. “Ter que lidar com sentimentos, com famílias, com pessoas… A pior de todas as situações é as pessoas se sentirem desamparadas, abandonadas… Então, existe um caráter individual de atenção médica e um caráter coletivo, que é o que lida com os números. Todas as ações da Epidemiologia, na verdade, são ações de saúde pública. Aí estamos tratando de como minimizar o impacto”, conclui.

O SUS e a necessidade da colaboração de todos

Para o epidemiologista, a incapacidade do sistema de saúde de dar conta da demanda está diretamente relacionada à responsabilidade que a sociedade tem de colaborar nestes momentos. Diante da realidade brasileira frente à ameaça de um colapso na saúde pública por aqui, o médico epidemiologista analisa a determinação quase unânime hoje em todo o país para que toda a população – em diferentes cidades e classes sociais, idosos ou não, doentes ou não, – opte pelo isolamento social: o movimento #fique em casa”, que ganhou força nos últimos dias.

A gente não tem estrutura para dar conta de uma explosão expansiva de casos. Então, uma das alternativas que estamos tendo de testar para uma certa contenção – isso de evitar aglomerações, escolas, etc. – tem a possibilidade de reduzir a velocidade de expansão. Em todas as questões, nós temos que pensar em como se minimiza a possibilidade (de transmissão). Com o isolamento, você libera as unidades de saúde, não sobrecarrega o sistema, e consegue tratar os casos graves quando surgirem, mesmo porque assim teremos menos casos graves. E as pessoas poderão ser atendidas”, avalia.

Prata ressalta que o sistema público brasileiro é deficiente na questão do acesso, na quantidade de profissionais e na precarização dessa mão de obra, com a terceirização. “Não existe uma uniformidade na padronização da atenção por causa dessa pulverização da municipalização com níveis diferentes de complexidade, de formação das pessoas. A gente tem um sistema muito menos integrado, tanto que o Ministério (da Saúde) acaba tendo uma função muito mais de orientação do que de determinação de ação. Isso pode fragilizar situações como essa (de pandemia)”, destaca.

Responsabilidade social em tempos de pandemia

Uma sociedade mais solidária pode surgir a partir da experiência com pandemias, como a do novo coronavírus (COVID-19). Essa é a avaliação do especialista. Mas, para que essa esperança se concretize, é preciso que todos enxerguem sua responsabilidade social.

“Se as pessoas conseguirem se dar conta de que todo mundo é responsável pelo bem estar do outro, aí as pessoas vão querer se vacinar… Não é uma opção individual. Vacina é uma obrigação, que está te protegendo e protegendo os demais… Então, se eu estou doente, de uma doença que não tem vacina, e ela é transmissível, eu vou ficar quieto no meu canto para evitar que outras pessoas adoeçam, além da minha família”

Ele lembra que, numa sociedade desigual, é bom que ninguém esqueça dos que vivem em situação de pobreza, pois minimizar o sofrimento destes acaba minimizando o sofrimento de todos, até mesmo para que o sistema de saúde não entre em colapso.

“Aí a pessoa não quer pagar imposto. Mas esse imposto é para beneficiar a sociedade como um todo, inclusive aqueles que não têm condições”, pondera o médico.

Embora não concorde com a proposta de internação compulsória em hospitais já aventada por alguns governos para casos graves de COVID-19, Prata acentua que deve haver uma quarentena compulsória, autoimposta pelo bom senso da população.

“Não deixa de ser uma atitude irresponsável, se o cara está com caso confirmado (de Covid-19), e, que se dane, acha que pode sair por aí. Não pode sair por aí.”, conclui.

‘O humano, o social, o epidemiológico. É preciso conciliar’

As ações, a intervenção e a orientação no que diz respeito a uma pandemia podem mudar de acordo com os acontecimentos. Como consequência humana e social, essa característica instável gera o ambiente ideal para a proliferação do pânico. Mas esse cenário pode ser amenizado com a circulação de informações corretas.

“A única maneira de controlar uma epidemia propriamente dita é quando existe uma vacina. Não existindo vacina – acho que em breve vamos ter uma – a solução é tentar de fato bloquear os casos, ou seja, os contatos. E como fazer isso sem que as pessoas se assustem? Eu não tenho a fórmula. Depende muito da repercussão, da velocidade da expansão. E nós estamos num mundo hoje de muita comunicação, de muita divulgação”, ressalta.

Segundo ele,  imagens de pessoas com uniformes de proteção para casos mais graves, sem dúvida nenhuma, aumentam o medo das pessoas e a insegurança. “É muito difícil a gente julgar sob o ponto de vista da reação das pessoas. A tendência das pessoas é ficarem alertas em situações de medo e insegurança. O papel da gente, da área de saúde pública, é observar o que está se passando e ver como agir, como controlar. O esclarecimento ajuda muito, sem dúvida”, pontua Prata.

O médico sanitarista chama atenção para a importância de se levar em conta as consequências sociais e humanas, além dos aspectos epidemiológicos, quando se trata da imposição de quarentena para o enfrentamento de uma pandemia como essa. O idoso ficar isolado é muito deprimente para o idoso também. É preciso um balanço entre o humanamente possível, o socialmente possível, e o epidemiologicamente recomendável, que é dinâmico, porque depende do grau de evolução da doença.”

Por Ana Helena Tavares, com edição de Rosayne Macedo (atualizado em 26/03/2020)

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