‘Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo’: será mesmo?

Livro polêmico questiona benefícios da alimentação orgânica. Para jornalista Nicholas Vital, eles não são mais saudáveis e saborosos nem mais sustentáveis, como pregam seus defensores

 

Por Cristina Nunes de Sant´Anna, do Blog Literatura é Bom pra Vista

Neste domingo, vamos falar de comida e alimento. Minha escolha foi o livro Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo, do jornalista Nicholas Vital. Engenheiro agrônomo e professor aposentado de Toxicologia e Toxicologia de Alimentos, Vital trata do que ele classifica como os cinco principais mitos sobre alimentos orgânicos. De quebra, vamos citar outros autores aqui.  Acho que esta conversa vai dar fome…

Alimentar-se é bom. Comer é melhor ainda. A comida e o ato de comer são a origem da socialização. Foi a comida que deu origem às cidades. À medida que a espécie humana se reunia para criar seus utensílios, buscar comida, plantar alimentos, e depois, comer junta, falar junta, aglomerando-se em pequenos grupos, povoados, foi-se originando outro tipo de socialização, a cidade.

Come-se por ter fome, mas come-se, sobretudo, porque compartilhamos e comunicamos nossas experiências histórico-culturais do alimento com os outros. Costumes alimentares revelam critérios morais, laços de parentesco, tabus religiosos, classes sociais, além da memória coletiva de toda uma civilização e mudam com o tempo, por serem culturais.

Entre os séculos XV e XVIII, cidadãos europeus pobres, por exemplo, consumiam o pão preto, preparado com cereais considerados inferiores, como centeio, cevada e, por isso, mais baratos. O pão branco feito com trigo (mais caro) era consumido pelos nobres e pelos ricos. Havia o pão da pobreza e o pão da riqueza. Mas isto mudou. Nos dias atuais, os pães feitos de grãos integrais são mais caros e indicados como mais saudáveis.

Outro exemplo de como o alimento nos imprime sua marca e seu valor é o arroz branco no Brasil. Trazido e consumido pelos portugueses do Brasil-Colônia, era considerado um alimento de pessoas de posse e distinção. Hoje, perdeu sua pompa e virou acompanhamento. Lembremos que o sal já foi moeda e que fé e crença mudam o que se leva (ou não) à mesa: judeus e muçulmanos não comem carne de porco, hinduístas nem carne comem. O Cristianismo prega o milagre da transubstanciação: a conversão do pão e do vinho no corpo e no sangue do Cristo.

A vida social organiza os estilos e a estética da alimentação. O gosto está imbricado neste processo. Também é cultural.  Massimo Montanari, em seu livro Comida como cultura, nos diz que “o órgão do gosto não é a língua, mas o cérebro, um órgão culturalmente (e, por isso, historicamente) determinado, por meio do qual se aprendem e transmitem critérios de valoração”.

O gosto seria um produto cultural, pois se escolhe a comida de acordo com um cálculo. O que se pode comer, o que se deve comer, segundo princípios sociais. Comer muito, aliás, era o desejo da população da Idade Média, vítima de sucessivos períodos de fome, por exemplo. A literatura consagrou o herói Pantagruel, gigante faminto, capaz de proezas e feitos extraordinários e também apavorantes. Sempre de grandes proporções.

O romance satírico Gargantua e Pantagruel, do francês François Rabelais, narra as peripécias hiperbólicas do gigante Pantagruel, relativas a quantidades expressivas de comida, bebida, festas e batalhas. O exagero e a fartura permeiam a narrativa. Há prazer, alegria e comemoração nas refeições, ao contrário do que de fato ocorreu na maior parte do período medievo, quando a fome e o mau passadio eram comuns no cotidiano das pessoas, em razão de colheitas perdidas pela chuva, pela neve, pelo frio, o que ocasionava fraqueza, fadiga, além de doenças como a peste. Por isso, um corpo robusto, gordo, significava acesso à comida (farta nas casas dos ricos) e, por conseguinte, saúde.

Hoje, quantidade dá lugar à qualidade

Atualmente, as práticas e os hábitos alimentares clamam pelo corpo magro. Quantidade deu lugar à suposta qualidade da comida. O exagero é mal visto. O corpo gordo é rejeitado. A fome medieval deu lugar à anorexia e à bulimia. Claro que há fome em regiões como a África, por exemplo, dizimada por guerras civis.

E comer é diferente de se alimentar. O alimento estaria no âmbito fisiológico de saciar a fome, que dá fraqueza, infelicidade. A comida associa-se a um corpo e a um paladar socialmente formados e à alegria pelo comer. A refeição é um ritual social e particular. Será mesmo??  Ora, usar a faca para passar manteiga no pão, comer o jantar salgado e depois a sobremesa doce representam a adoção de regras, costumes e hábitos de dada sociedade, que seguimos automaticamente, civilizados que fomos por ações culturais. Atividades que estão gravadas como marcas em nossa memória coletiva.

De certa forma, a comida, nos dias atuais, virou uma espécie de marca à escolha de usar: slow food, fast food, comida crua, veganismo, comida orgânica. No fundo, fetiches de como se deve e o que se deve ou não comer. Diet, light. Padrões e movimentos alimentares que se confundem com necessidades básicas alimentares. Alimentos ditos saudáveis, alimentação funcional, o corpo saudável pela nutrição do alimento saudável.  É por esta senda que vai Nicholas Vital.

Orgânicos na berlinda

Ele se pergunta se orgânicos seriam, de fato, mais saudáveis, mais saborosos e mais sustentáveis como pregam seus defensores ou se não seria bem assim. Vejamos um trecho do livro: “Você já deve ter ouvido falar que os alimentos orgânicos são mais saudáveis, certo? Se isso fosse mesmo verdade, os produtores orgânicos certamente destacariam esses diferenciais nutricionais nos rótulos. Não o fazem simplesmente porque não conseguem comprovar cientificamente esta suposta superioridade”.

Ele cita ainda uma pesquisa da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, com uma revisão detalhada de 237 estudos científicos comparativos entre alimentos orgânicos e convencionais publicados em todo o mundo nas últimas quatro décadas. “A conclusão foi que, apesar de mais caros, os orgânicos não eram mais nutritivos nem mais seguros do que seus similares produzidos de forma convencional”, destaca Vital.

Comida para quem precisa e alimento para quem tem fome. O bom mesmo é o equilíbrio para manter a saúde e ter a leitura sempre em dia. Até domingo que vem.

MONTANARI, Massimo. Comida como cultura. SP: Senac, 2013.

RABELAIS, François. Gargantua e Pantagruel. Domínio Público. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=41067

Serviço:

Agradeça aos Agrotóxicos por Estar Vivo

Nicholas Vital

252 páginas

R$ 39,90

Editora Record

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