Como a alimentação saudável pode prevenir o câncer de mama

Nutrólogos esclarecem dúvidas sobre dieta adequada para evitar a doença. Nutricionista recomenda alimentos que podem ajudar na prevenção

Rosayne Macedo
Consumo regular de fibras na alimentação é importante para reduzir riscos de câncer (Foto: Banco de Imagens)

Os dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) demonstram que o câncer de mama é o tipo da doença mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, correspondendo a 25% e 29% dos casos novos a cada ano respectivamente. O câncer de mama não tem uma causa única. Diversos fatores estão relacionados ao aumento do risco de desenvolver a doença.

Pensando nisso e na importância da prevenção, a Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) esclarece as dúvidas mais frequentes que chegam aos consultórios dos médicos nutrólogos associados. Quem responde as indagações é o presidente da Abran, Durval Ribas Filho, esclarecendo as questões com as evidências científicas. O especialista também reitera que, em ciência, é necessário avaliar com acurácia os estudos, as metodologias empregadas para não incorrer em análises superficiais.

“Os fatores comportamentais e ambientais relacionados ao aumento do risco de desenvolver a doença incluem: ingestão de bebida alcoólica em excesso, sobrepeso e obesidade na pós-menopausa, e exposição à radiação ionizante. O tabagismo, fator estudado ao longo dos anos com resultados contraditórios, é atualmente reconhecido pela International Agency for Research on Cancer (IARC) como agente carcinogênico com limitada evidência de aumento do risco de câncer de mama em humanos”, explica.

1. Há relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e aumento do risco de câncer de mama?

Sim, há uma relação. Segundo a pesquisa francesa Consumption of ultra-processed foods and cancer risk: results from NutriNet-Santé prospective cohort que classificou os alimentos em quatro grandes grupos: desde minimamente processados (como frutas e vegetais) até muito processados (que possuem alto grau de conservantes). O experimento acompanhou mais de 100 mil participantes, cuja idade média era de 42 anos, de 2009 a 2017, e teve como resultado que a ingestão desse tipo de alimento se associou com o aumento global, em 12%, do risco do câncer de mama. Enfatizando a necessidade de mais pesquisas sobre uma possível associação entre alimentos altamente processados e o risco de câncer de mama, os cientistas observaram que, nesta fase, não há conclusões exatas sobre causa e efeito e sim, relações que podem significar um aumento do risco.

2 – A maior parte das mulheres que têm câncer de mama e já têm histórico familiar aumentam os riscos de desenvolver a doença com a má alimentação?

Não necessariamente. Segundo Ribas, 95% das mulheres com a doença não têm fator genético, mas as células passam por mutação no decorrer da vida. Entretanto, ele destaca que aquelas com histórico familiar devem realizar o acompanhamento porque o câncer pode aparecer mais cedo antes dos 40 anos. O câncer de mama de caráter hereditário corresponde, por sua vez, a apenas 5% a 10% do total de casos, de acordo com os dados da publicação científica Cancer Epidemiology, da Universidade de Oxford. Sim, a má alimentação influencia o desenvolvimento do câncer. Além disso, ingerir alimentos de boa qualidade tem papel fundamental na prevenção do tumor. Tente, aos poucos, incluí-lo em sua dieta. Pode fazer diferença no futuro.

3- Consumo de batata frita aumenta o risco de câncer de mama?

Os estudos que sugerem essa relação ainda são inconsistentes. A hipótese levantada é que aquelas batatinhas crocantes que parecem perfeitas podem não ser tão perfeitas. De acordo com um estudo da Food Standards Agency (FSA) do Reino Unido, a culpada é a acrilamida, uma substância química resultante do cozimento dos alimentos ricos em amido em altas temperaturas.

Embora um nítido escurecimento da batata possa parecer “natural” ao cozinhar amidos, esse estudo ressalta que isso pode aumentar o risco de câncer e possivelmente afetar os sistemas nervoso, reprodutivo e as mamas. Os amidos queimados teriam maiores quantidades de toxina. Entretanto, a literatura não aponta conclusões definitivas sobre o assunto. Como prevenção ao consumo excessivo de acrilamida, a FSA recomenda cozinhar amidos até o ponto de ficarem dourados e não marrons.

4- Consumo de vinho aumenta risco de câncer de mama?

Há uma pesquisa que sugere essa relação, mas com metodologia contestável. Nesse estudo a conclusão é que tomar apenas uma bebida alcoólica por dia poderia aumentar o risco de câncer de mama em 5% e o risco de câncer de orofaringe em 17%. De acordo com a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), esses números aumentam significativamente quanto mais você bebe. Estima-se que 6% das mortes por câncer em todo o mundo podem estar diretamente ligadas ao consumo de álcool. Então, você pode pular a próxima rodada se já consumiu bebida alcóolica em quantidade significativa. Vale a máxima ‘beba com moderação”.

5– Acompanhamento nutricional contribui com a eficácia do tratamento?

Sim. A atuação do médico nutrólogo em parceria com a nutricionista na oncologia é extremamente importante, pois esses pacientes têm uma demanda metabólica aumentada, porém geralmente têm uma redução importante do apetite. Ou ainda, alteração do paladar, além de efeitos colaterais ao tratamento, como náuseas e vômitos, que contribuem para uma perda de peso acentuada. A orientação do médico nutrólogo contribui para promover ganho de peso, recuperação do estado nutricional, que é fundamental para boa evolução do tratamento oncológico. Isso porque o gasto de energia diário de uma pessoa com câncer, pode chegar a 150% do usual, segundo pesquisas.

6- Obesidade aumenta o risco de câncer de mama?

Sim. A ligação entre obesidade e risco de câncer é clara. Pesquisas mostram que o excesso de gordura corporal aumenta o risco de vários tipos de câncer, incluindo câncer de mama. Dados de um experimento publicado no International Journal of Epidemiology, liderado pelos cientistas da Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC), indicam que o efeito do sobrepeso e obesidade no risco de câncer é pelo menos duas vezes maior do que anteriormente pensado.

7- Ingestão de peixes ajuda na prevenção da doença?

Sim. A literatura aponta que o consumo frequente (duas vezes por semana) de peixes que têm gordura insaturada como atum, salmão e sardinha contribui para evitar a doença. A sardinha também é rica em vitamina D, um proto-hormônio que pode interferir no crescimento do câncer.

8 – Consumo de frutas atua na prevenção?

Sim. Além disso, o consumo de frutas contribui para a prevenção na medida em que fornece menos calorias, mais fibras e auxilia na manutenção de peso saudável. A recomendação da Sociedade Americana de Câncer é consumir cinco porções de frutas por dia.

9 – Comer fibras ajuda a evitar os riscos da doença?

São necessárias mais pesquisas para afirmar precisamente, mas estudos sugerem que as fibras contribuem para o aumento da excreção de estrogênio, o que implica em menor risco de câncer de mama. A American Dietetic Association (ADA) estabelece como recomendação o consumo de 25 a 30g de fibras por dia, sendo 30% desse valor de fibras solúveis, encontradas principalmente na aveia e em frutas como abacate, pera e banana. A dica é inserir um produto rico em fibras, como pão integral e cereais, em todas as cinco refeições que você fizer no dia.

Nutrólogo: é possível evitar 35% dos casos com dieta

A campanha anual Outubro Rosa serve de incentivo e conscientização para que todas as mulheres façam o autoexame e detectem precocemente a doença, que é a mais comum entre elas no Brasil e no mundo, sendo também um dos que mais matam. Uma forma de prevenção da doença, juntamente com o exame clínico, pode se dar por meio de uma alimentação saudável. E não vale apenas para o câncer de mama.
“A alimentação é considerada um fator importante em 20% a 50% de todos os casos de câncer. É possível evitar 35% dos casos de câncer apenas alterando a dieta. Foi relatado que a dieta mediterrânea (MD) tem efeito benéfico em termos de prevenção do câncer. Esse padrão alimentar saudável consiste principalmente em alimentos com importantes propriedades antioxidantes, além de um perfil favorável de ácidos graxos (ômega-3), todos associados a um risco reduzido de câncer (Laudisio D, 2019)”, explica o nutrólogo Alexander Gomes de Azevedo. 
Alguns alimentos são funcionais para o organismo, funcionando como antioxidantes e prevenindo vários tipos de câncer e outras doenças.  “Os antioxidantes são alimentos que têm como propriedade doar radicais para algumas células/substâncias corporais que estão com radicais livres que são causados por vários tipos de estresses como já comentado, ocasionando problemas de saúde, entre eles o câncer“,  pontua o médico.
Segundo ele, uma alimentação equilibrada, com bastante alimentos de origem vegetal, como frutas, verduras, legumes e cereais integrais é necessária para o combate destes radicais livres e assim, consequentemente, do câncer.  O médico listou alguns antioxidantes: Vitamina C (frutas cítiricas), Vitamina E (óleos vegetais, grãos e nozes), Vitamina A (alimentos alaranjados, amarelos, vermelhos), Zinco (carnes, lacticínios). Ainda de acordo com o profissional devem ser evitadas as gorduras saturadas (de animais), e dar preferência ao óleo de peixe e ao azeite de oliva.

A vitamina D 

Quanto maior o nível de vitamina D no plasma em uma unidade, menor o risco de câncer de mama. Estilo de vida sedentário, área reduzida da pele exposta ao sol e baixos níveis séricos de vitamina D podem ser considerados como preditores de risco de câncer de mama. Incentivar a atividade física moderada e o consumo de certos alimentos pode, em parte, diminuir os riscos precipitantes de câncer de mama (Husain NE, 2019). São fontes de vitamina D:
● exposição ao sol (veja como no quadro O sol permitido)
●óleos de fígado de peixe (arenque, bacalhau, salmão, sardinha)
● alimentos lácteos
● azeite de oliva
● cereais e frutas secas
● gemas de ovos
● suplementos vitamínicos (ingerir apenas sob orientação médica).

Dicas simples para diminuir o risco de câncer

Algumas recomendações para prevenir o câncer, segundo o American Institute for Cancer Research: 
• Mantenha uma dieta rica em alimentos de origem vegetal (frutas e verduras;
• Reduza a quantidade de carnes vermelhas (gorduras saturadas) e aumente a quantidade de peixes que tem boas gorduras (ômega-3).
• Mantenha o peso saudável e pratique atividade física;
• Não fume de maneira alguma.
• Não fume de maneira alguma, e não beba bebidas alcoólicas ou beba quantidades moderadas (recomenda-se, no máximo, duas doses por dia para os homens e uma dose para as mulheres).
• Prepare e guarde os alimentos de forma adequada, evite frituras.

Alimentos que ajudam a prevenir esta e outras doenças

Para Ione Leandro, nutricionista da Onodera Estética, alimentação saudável é importante não só para a prevenção de doenças, mas também para uma boa qualidade de vida. “Se alimentar de forma adequada traz inúmeros benefícios, como disposição para atividades diárias, bom funcionamento do organismo, melhora a qualidade do sono e também do humor, elementos essenciais para diminuir o risco do câncer de mama”.

Ela lembra que uma pesquisa feita pela Harvard School of Public Health, universidade dos Estados Unidos, aponta alguns alimentos que podem ajudar na prevenção da doença. E ainda comenta cada um deles:

Cenoura: Consumir duas porções do vegetal todos os dias aumenta em até 17% a possibilidade da prevenção no desenvolvimento do câncer de mama. “Isso ocorre devido ao betacaroteno, que protege o DNA contra a oxidação e evita a formação de radicais livres”.

Romã: Cientistas afirmam que a romã proporciona o mesmo efeito de alguns medicamentos usados no controle do câncer de mama. Isso porque uma substância presente na polpa da fruta, chamada Elagitanino, inibe a produção de estrógeno, hormônio que alimenta as células cancerosas.

Brócolis: O Sulforano presente no brócolis pode combater as células cancerígenas do organismo. “Outros vegetais, como a couve-flor e o repolho, também produzem esse efeito. Por isso, invista em folhas verdes escuras”, diz a nutricionista.

Framboesa e amora: As frutas possuem Fitonutrientes anticancerígenos que desaceleram   o crescimento de células pré-malignas e impedem a formação de novos vasos sanguíneos, que podem alimentar um tumor.

Peixes: O ômega 3, presente em animais de águas profundas salgada, como salmão e sardinha, atua desestruturando uma parte da membrana celular, o que impede o crescimento de tumores. “Por ter baixo teor de gordura, os peixes têm a carne mais indicada a ser digerida regularmente, de preferência de 3 a 4 vezes por semana”, finaliza.

Com Assessorias