Anitta revela que sofre com endometriose: entenda essa doença

Doença que já atingiu Tatá Werneck, Wanessa Camargo e Malu Mader pode levar a fortes dores no período menstrual e até a infertilidade. Especialistas explicam

A cantora Anitta revela que sofre há nove anos com dores nas relações sexuais devido à endometriose (Reprodução de Instagram)

A declaração de Anitta de que as mulheres devem falar e conhecer mais sobre a endometriose, a partir de sua própria experiência, está repercutindo nas redes sociais. A cantora relatou na última quinta-feira (7), em sua conta do Twitter e também neste domingo (10), no Fantástico, que sofre há nove anos com essa que é uma das condições mais associadas à infertilidade feminina, chegando a ser diagnosticada em mais de 30% das pacientes que não conseguem engravidar e buscam avaliação médica.

Entre idas e vindas a médicos e a falta de informação sobre a doença, o diagnóstico foi fechado após Anitta realizar uma ressonância e também ao descartar a presença de bactérias. Ela afirmou sofrer com as dores há anos, principalmente após relações sexuais e que, por muitas vezes, foi julgada por se descuidar da higiene íntima ou não fazer o uso de preservativos, informações rebatidas pela cantora. A artista revelou estar com uma cirurgia marcada para resolver a questão.

Famosas como a apresentadora Tatá Werneck, a cantora Wanessa Camargo e a atriz Malu Mader já relataram sofrer com a condição e recorreram à cirurgia para aliviar as dores causadas pela endometriose, uma doença muito comum que atinge pelo menos 10% da população feminina, porém, o seu diagnóstico é complexo e pode demorar em média oito anos, daí a necessidade de observar os próprios sinais que o corpo dá.

Quando não tratada da forma correta, a doença causa fortes cólicas – assim como em casos mais graves pode causar infertilidade e câncer de ovário. Grande parte dos casos está relacionada à endometriose superficial, considerada um dos tipos mais comuns, e que acomete cerca de 10% a 15% da população feminina que não tem sucesso na gravidez.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), sete milhões de brasileiras possuem a doença. Segundo a Associação Brasileira de Endometriose, entre 10% a 15% de mulheres em idade reprodutiva podem desenvolver a doença- e 30% podem se tornar estéreis. Dados do Ministério da Saúde apontam que uma a cada 10 mulheres entre 25 a 35 anos no Brasil sofre de endometriose.

O endométrio e a endometriose

A doença inflamatória do sistema reprodutor feminino acontece quando o endométrio se implanta em vários locais na cavidade abdominal, como ovário, intestino e bexiga. Mas para entendermos o que é a endometriose, precisamos saber o que é o endométrio.

O endométrio, tecido que reveste o útero internamente, se torna mais espesso a cada mês, quando o corpo feminino se prepara para fecundar óvulo e espermatozoide, formando o embrião. Quando a gravidez não ocorre, o tecido endometrial é eliminado na menstruação.

“O endométrio é a camada interna do útero que sofre alterações de acordo com estímulos hormonais, podendo aumentar ou diminuir a sua espessura durante o ciclo menstrual. No início do ciclo, o endométrio se descama, trazendo a menstruação. Quando o sangramento menstrual termina, o endométrio inicia novamente o seu processo de espessamento, até alcançar o pico máximo e novamente descamar”, explica Nilo Frantz, especialista em reprodução humana da Nilo Frantz Medicina Reprodutiva, em São Paulo.

Frantz afirma que a endometriose é uma doença ginecológica crônica em que ocorre a implantação e o crescimento benigno de tecido do endométrio fora do útero, causando reações inflamatórias. Normalmente, as principais zonas afetadas são as estruturas reprodutivas, como os ovários. Segundo ele, é possível que mulheres consigam engravidar tratando a doença, porém, a doença pode dificultar uma gestação.

“O endométrio pode impedir a passagem do óvulo para o útero, provocar alterações nos hormônios responsáveis pelo processo de ovulação e na implantação do embrião. A endometriose também pode alterar a anatomia do aparelho reprodutor feminino, causando uma mudança de posição do útero, de modo que o espermatozoide não consiga chegar aonde precisa para que possa fecundar”, explica Frantz.

Dentro das dificuldades da gestação, a doença pode afetar o desenvolvimento do feto e aumentar as chances de aborto espontâneo. Em casos de endometriose profunda, a mulher está mais sujeita a desenvolver uma gravidez fora do útero, também chamada de gravidez ectópica.

Há três tipos de endometriose

O médico ginecologista Rodrigo Hurtado, da clínica Origen BH, explica que a endometriose – doença benigna que se manifesta, principalmente, por dor pélvica e dificuldade de engravidar – ocorre quando o tecido do endométrio, por uma disfunção ainda muito clara para os médicos, se reproduz em locais fora do útero, como ovários, tubas, peritônio, bexiga, intestino, entre outros. Algumas pesquisas indicam que fatores genéticos e/ou imunológicos estão ligados à origem da endometriose.

“Uma das primeiras explicações para a causa da endometriose foi a teoria do “fluxo retrógrado da menstruação” – quando o tecido do endométrio que deveria ser eliminado com o fluxo sanguíneo pelo colo do útero vai no sentido contrário, ou seja, do útero para as trompas e para o interior da cavidade pélvica e abdominal”, explica.

Segundo o especialista, que também é professor do Departamento de Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), há três tipos de endometriose: a superficial, endometriomas l e a profunda. A superficial como o nome já diz e é a mais comum, pode atingir a superfície dos ovários, tubas, bexigas e do útero, até 5mm, e uma simples cauterização é o suficiente para eliminá-la.

“Já a endometriose profunda é um agravamento da superficial. Ela vem acompanhada de dor intensa no período menstrual, durante e após a relação sexual; dificuldade em urinar; ciclos menstruais desregulados; sangramento anal em período menstrual e infertilidade. Nesses casos, o foco invade o tecido por mais de 5mm, provocando lesões mais profundas. Pode comprometer o apêndice, útero, intestino, reto, vagina, bexiga e ureteres”, acrescenta

Principais sintomas

Um dos principais sintomas apontados pela cantora Anitta foram as dores após as relações sexuais. Porém, existem outros sintomas que podem acender o alerta para a doença.

Entre os principais sintomas da endometriose estão as cólicas fortes, as quais podem impedir a mulher de praticar atividades comuns, como trabalho e exercícios físicos – e as dores abdominais frequentes, que podem também ocorrer fora do período menstrual.

Outros sintomas são a presença de nódulos e cistos, fortes dores abdominais no período pré-menstrual, náuseas, vômitos, sangramentos intensos na menstruação, dor no intestino, dores ao evacuar e urinar e outros.

Além desses, também são comuns:

Sangramento menstrual desregulado e intenso;

Fadiga e cansaço;

Sangramento intestinal durante o período menstrual;

Dores fortes durante relações sexuais;

Dificuldade de engravidar.

  • Dificuldade no diagnóstico

  • De acordo com Thiers Soares, especialista em endometriose, adenomiose e miomas, muitos casos demoram anos para ser diagnosticados. O atraso médio mundial é de oito anos entre as primeiras queixas e o diagnóstico definitivo. A identificação acontece, muitas vezes, a partir de exames de imagem, como a ultrassonografia transvaginal e a ressonância magnética da pelve.
  • “A demora em diagnosticar os focos da doença pode levar ao estado mais grave do quadro, quando é necessário partir para uma intervenção cirúrgica”, explica o médico. Mesmo assim, é importante lembrar que a endometriose não tem cura: é uma condição crônica, que deve ter acompanhamento constante.
  • Segundo o especialista, campanhas como o Março Amarelo ajudam no alerta para identificar a doença, onde “a informação é o primeiro passo para o diagnóstico precoce e, com isso, evitarmos o comprometimento da qualidade de vida das pessoas afetadas por essa doença tão enigmática”, afirma.

Tratamentos podem incluir analgésicos, hormônios e cirurgia

Primeiramente é importante realizar um acompanhamento com o ginecologista para entender o grau da condição e como prosseguir com o tratamento. A endometriose pode ser tratada com o uso de analgésicos, hormônios ou cirurgia. Porém, é necessário que a paciente procure um profissional que encontre o tratamento adequado para a gravidade da endometriose levando em conta a vontade ou não da mulher ter uma gestação.

Para tratar a endometriose, inicia-se com o bloqueio do hormônio estrogênio, fisiologicamente ativo, por meio de progestagenos, anticoncepcional ou análogos do GnRH (assim os ovários não produzem estrogênios). A segunda linha é tratar a dor pélvica, geralmente com analgésicos e anti-inflamatórios, de acordo com a intensidade e a localização da dor.

Para mulheres já diagnosticadas, sem filhos e que querem ser mães, o médico alerta para a importância de se buscar informações. Muitos ginecologistas tratam as mulheres do ponto de vista hormonal, da dor e cirurgicamente. Muitas vezes, o uso do anticoncepcional para suspender a menstruação é adotado para reduzir as dores.

Mesmo assim, quando necessário intervenções cirúrgicas, a ciência já avançou bastante para garantir procedimentos mais simples, que causem menos impacto na rotina dos pacientes. No caso da cantora Anitta, ela optou por realizar uma cirurgia que será feita em breve.

Laparoscopia e cirurgia robótica diminuem riscos e cicatrizes

Entre as alternativas que podem colaborar no tratamento da doença no curto prazo está a laparoscopia, cirurgia para a retirada dos focos de endometriose espalhados pelos órgãos. No procedimento, ao qual Anitta irá se submeter, o médico analisa por meio de pequenos cortes a área a ser estudada, podendo cauterizar os pontos necessários.

Muitas mulheres manifestam o medo de não conseguirem engravidar devido à endometriose, mas Thiers Soares, especialista em laparoscopia e robótica, afirma que com o tratamento adequado para cada caso, é totalmente possível que a paciente tenha uma vida reprodutiva normal.

“A maioria das pessoas não sabe, mas existem métodos minimamente invasivos para esse procedimento, como a videolaparoscopia e a cirurgia robótica”, explica o especialista. Essas técnicas têm um pós-operatório muito mais seguro, com menos tempo de internação, menos chance de infecção e trombose, retorno mais precoce às atividades diárias e ao trabalho, entre outras vantagens.

Com os avanços tecnológicos, atualmente, a robótica é a técnica mais moderna e chega como alternativa para diminuir a necessidade de procedimentos mais complexos. Diferente da videolaparoscopia, a modalidade traz a visão 3D para a rotina do cirurgião, com movimentos mais refinados e articulação dos instrumentos muito mais ampla em comparação com a videolaparoscopia. Apesar da facilidade, nem todos os profissionais estão aptos a trabalhar com o equipamento, sendo necessário uma habilitação especial.

Congelamento de óvulos pode ser necessário

“Se as queixas da paciente vêm acrescidas da dificuldade de engravidar, aí apresentamos os tratamentos de reprodução assistida (RA). Na Origen, trabalhamos sob duas óticas: “menor acometimento por endometriose, é possível adotar a inseminação artificial; maior acometimento, fertilização in vitro passa a ser a melhor opção”, esclarece Hurtado.

A possibilidade de ter a reserva ovariana diminuída pela operação de endometriose é real – por mais cuidadosa que seja, a cirurgia ovariana interfere diretamente na reserva da mulher, que fica menor do que era antes.

Ele lembra que a mulher nasce com essa reserva ovariana já pré-estabelecida e, com o passar dos anos, sua taxa de óvulos vai declinando, pelo número de menstruações e pela idade. Portanto, antes da cirurgia, é aconselhável a preservação através do congelamento de óvulos ou embriões complementa.

Com Assessorias

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