Ansiedade da pandemia pode atrapalhar planos de engravidar

Expectativa do teste positivo pode ser influenciada por sentimentos de estresse gerados durante o período de isolamento social. Junho é o mês de conscientização sobre a fertilidade

Redação

A crise do coronavírus está gerando estresse na população. A constatação é da Organização Mundial da Saúde (OMS), e não é difícil ver isso na nossa vida.  Para quem está no caminho de um tratamento de Reprodução Assistida é possível que seja ainda mais penoso: ser invadido por essa pandemia, Covid-19, coloca os pacientes frente a uma trama que pode causar a sensação de ameaça dos planos tão desejados.

Em 11 de março de 2020, a OMS declarou a doença de coronavírus 2019 uma pandemia. Desde então, todas as autoridades federais e locais bem como agências reguladoras desenvolveram políticas robustas para reduzir a disseminação da doença. Vieram ainda preocupações sobre os riscos para as mulheres grávidas e a transmissão materna para bebês.

Em estudo publicado na revista Frontiers in Pediatrics, cientistas chineses relatam que a transmissão de coronavírus não deve ocorrer de mãe para filho (a). Com base nos casos de mães que foram infectadas na China, os pesquisadores descobriram que o vírus não foi transmitido para os recém-nascidos durante a gravidez. Claro que há uma série de cuidados que a gestante deve adotar, mas não significa impedimento nos planos de engravidar.

Covid-19 deve ser nova indicação para preservar fertilidade

No que diz respeito à medicina reprodutiva, médicos e pacientes ainda estão procurando as melhores maneiras de enfrentar os desafios que estão por vir. “A Covid-19 pode ser uma nova indicação para preservação da fertilidade por um período, até o retorno completo da reprodução assistida”, comenta Marcos Sampaio, diretor da Clínica Origen.  Ele destaca que é muito provável que todas as sociedades científicas da medicina reprodutiva publiquem suas diretrizes para orientar as autoridades locais e profissionais de medicina reprodutiva sobre o que seria a melhor conduta.

Para aqueles em quem o desejo de ter filho está latente, o ideal é procurar um especialista em reprodução humana que possa esclarecer as dúvidas e indicar o melhor caminho”, esclarece Sampaio.

Fazer um adiamento no tratamento ou pensar nele como fator de risco pode ser devastador para algumas pessoas. De acordo com especialistas em fertilização, sintomas de medo, tristeza e ansiedade estão sujeitos a causar uma pressão psíquica e trazer questionamentos angustiantes que não contribuem para um tratamento tranquilo do ponto de vista psíquico.

No entanto, em meio ao cenário de incertezas por conta do coronavírus, é inevitável a sensação de fragilidade e impotência. Para mulheres que estão tentando engravidar, a ansiedade do momento atual é um grande obstáculo para comemorar o teste positivo.

Explicação científica para o fenômeno

Segundo Karina Tafner, ginecologista e obstetra, especialista em Endocrinologia Ginecológica e Reprodução Humana pela Santa Casa e especialista em Reprodução Assistida pela Febrasgo; isso ocorre porque o estresse e a ansiedade podem alterar certas funções fisiológicas relacionadas à fertilidade.
“O núcleo arqueado, localizado no hipotálamo, é o principal local de produção do hormônio GnRH, essencial no funcionamento do eixo hipotálamo-hipofise- ovário, que induz a ovulação e, assim, o ciclo menstrual. O núcleo arqueado recebe vários circuitos neuronais do sistema límbico, responsável pelas emoções, que podem modificar a intensidade e a frequência dos pulsos de GnRH”, explica a especialista.
Segundo ela, a alteração desses pulsos leva a inibição do eixo hormonal que estimula o ovário, explicando as várias formas de alterações menstruais observadas em mulheres submetidas a fortes impactos emocionais. “Na dependência da intensidade e duração desses estímulos, as mulheres podem, inclusive, desenvolver amenorreia hipotalâmica funcional ou anovulação crônica hipotalâmica”, explica, de forma científica.

Problema afeta 15% dos casais, aponta médico

Junho é reconhecido como o mês mundial da conscientização da infertilidade e tem o objetivo de alertar a população para este desafio. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 15% da população sofre com a dificuldade de engravidar. Os números chegam a 80 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo 8 milhões de casos apenas no Brasil.

Um casal é considerado infértil quando não consegue engravidar após 12 meses mantendo relações sexuais sem o uso de métodos contraceptivos. Se a gestação não acontecer naturalmente, é hora de procurar ajuda de um especialista. A infertilidade é um problema que afeta tanto a mulher como o homem e pode ser agravado por hábitos de vida como tabagismo, ingestão de bebidas alcoólicas, obesidade, exposição ambiental a produtos químicos.

Marcos Sampaio ressalta que é importante saber que as causas podem ser tanto da mulher como do homem. “Em geral, os fatores estão distribuídos igualmente entre homens e mulheres, além de um percentual sem causa aparente”, diz o diretor da Clínica Origen.

“Em números pode-se dizer que 40% dos casos de infertilidade é responsabilidade da mulher e 40% do homem. Os outros 20% não possuem causas definidas”, enfatiza Prado. Nos homens a causa mais comum de infertilidade está relacionada à baixa contagem e qualidade de espermatozóide. Há históricos também em que a varicocele, doença que interfere na drenagem do sangue dos testículos, interfere na fertilidade masculina.

Mulheres adiam plano de engravidar em nome da carreira

Atualmente, no caso das mulheres, umas das causas mais frequentes da dificuldade em ter filhos é a idade. Dados do IBGE comprovam que as mulheres estão optando por adiar os planos de maternidade devido a outras prioridades, que incluem investimento em carreira profissional, desejo de se estabilizar profissionalmente e financeiramente ou a dificuldade de encontrar o parceiro que considere ideal, o que geralmente não acontece antes dos 30 anos.

O problema é que após essa idade, as chances de engravidar diminuem caindo para 10% após os 40 anos. Com o passar dos anos, a diminuição progressiva da fertilidade acaba sendo natural.

A fase mais fértil da mulher acontece na faixa dos 25 aos 30 anos. Após esse período, é normal a diminuição da produção e da qualidade dos óvulos”, afirma Fernando Prado, ginecologista e obstetra especialista em reprodução humana, responsável médico da Clínica Neo Vita.

Doenças sexualmente transmissíveis, menopausa precoce, além de efeitos colaterais de tratamentos oncológicos estão entre os fatores que podem colaborar para o desenvolvimento da infertilidade. “A doença tubária, por exemplo, decorrente de DSTs é responsável por praticamente 25% dos casos de infertilidade conjugal”, complementa o especialista.

A endometriose também representa 10% dos casos da infertilidade feminina. “A doença é diagnosticada pelo crescimento anormal do revestimento interno do útero. Geralmente começa com lesões superficiais, facilmente tratáveis, mas pode evoluir para quadros graves que atingem os ovários e intestino”, explica. Segundo o último estudo da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, cerca de 60% das mulheres afetadas pela endometriose conseguirão engravidar.

Qual é o tratamento mais adequado para engravidar?

Muitos casos de infertilidade estão sendo solucionados com o avanço dos tratamentos de reprodução assistida como a fertilização in vitro. “Mesmo assim a idade da mulher continua sendo fundamental para o bom prognóstico e sucesso na gestação”, finaliza.

A  boa notícia é que devido aos avanços da medicina e das técnicas de reprodução assistida muitos casais conseguem realizar o sonho de ter filhos. Não é por acaso que o congelamento de embriões vem aumentando. De acordo com a Gerência de Sangue, Tecidos, Células e Órgãos (GSTCO) da Anvisa, em 2018, foram congelados 88.776 embriões para uso em técnicas de reprodução humana assistida, 13,5% a mais do que em 2017 (78.216).

É imprescindível que o casal infértil procure auxílio médico para que possam juntos buscar a solução que melhor se adapte aos seus interesses e às suas necessidades”, explica Dr Sampaio.

Entre as opções de tratamentos existem inseminação artificial, fertilização in vitro, às vezes, basta a indução da ovulação com medicação para que o casal consiga efetivamente engravidar, em outros casos faz-se necessário um procedimento cirúrgico. Mas tudo isso vai depender de qual é o obstáculo que impede a gestação, bem como a identificação de qual é o momento no processo da concepção em que há erro. Por isso a importância de procurar um especialista em reprodução humana.

5 dicas para autocuidado

O que fazer para evitar níveis de estresse mais elevados que podem reduzir a fecundidade? Como determinar a influência do estado psicológico sobre a função reprodutiva? Nos homens, também há prejuízos na fertilidade em função da ansiedade?
Em meio a esse turbilhão de emoções e diante de um cenário tão cruel de um adoecimento mundial e com tantos efeitos, seria possível tornar as medidas do isolamento social mais leves e com menos efeitos drásticos aos pacientes já tão marcados?

A psicóloga Laudiane Cruz, da Clínica Origen, diz que antes de tudo, é preciso se autocuidar e buscar ajuda médica, se necessário. Aqui ela traz cinco dicas importantes. Confira:

  1. 1. Use a internet a seu favor

A internet é uma das maiores aliadas nesses dias de quarentena. Aproveite para estreitar laços afetivos e diminuir a angústia e o medo da solidão que o isolamento social pode causar. Chamadas de vídeos, compartilhamento de fotos, diálogos na troca dessa vivência são fundamentais para enfrentar o vazio frente ao outro. Mas não use o tempo todo para não tornar um isolamento social dentro de outro isolamento.

  1. 2. Acompanhe as notícias, mas não todas

É importante acompanhar e saber as reais causas, divergências políticas e orientações de cuidados dos órgãos competentes, mas o excesso tem o risco de deixar a pessoa em pânico e até paralisada. Cuidado com as fake news que atrapalham muito na veracidade dos fatos e só contribuem para o desencadeamento de sentimentos negativos.

  1. 3. Organizar é importante

A pausa na rotina e nas diversas organizações que cada sujeito construiu ao longo do tempo causa sempre um estranhamento, mas pode ser também um período produtivo na vida pessoal ou profissional. Tem sempre uma gaveta para ser arrumada, livros a serem lidos, filmes a serem assistidos. Treine pratos de culinária, separe algo para doação. Organizar e reorganizar contribui para que a pessoa traga um novo sentido para esse caos e para tantos efeitos à saúde psíquica.

  1. 4. Use a sua criatividade

Use a criatividade para se arriscar e fazer coisas novas. Seja produzindo um artesanato e outras coisas manuais, seja estimulando novas formas de se relacionar com quem está isolado com você. Retome brincadeiras, jogos de tabuleiro e tantos outros. Faça algo que possa trazer satisfação e fortalecer os laços familiares e que, naturalmente, traga fôlego para seguir na caminhada rumo à realização do desejo.

  1. 5. Busque orientação com seu médico

Nesse momento, a confiança no médico que acompanha o tratamento é fundamental. Importante também, se necessário, cuidados com a saúde psíquica e orientações médicas. Confie sempre em dados profissionais e nunca em informações lidas na internet.

E sobretudo, relaxe e engravide.

Com Assessorias