‘Aos 18 anos a gente se acha invencível’

Jovem que perdeu braços e pernas conta como superou a forma mais grave da meningite, que pode ser evitada com vacinas gratuitas nos postos de saúde

Redação

Pedro Pimenta era esportista e tinha uma rotina de alimentação saudável. Aos 18 anos, fazia cursinho pré-vestibular, ia para a academia, para as baladas nos fins de semana… Ou seja, tinha a vida social movimentada de um jovem de sua idade. Estava dormindo muito pouco e, segundo ele, isso baixou sua imunidade. Naquele ano, Pedro teve duas infecções na garganta, que foram tratadas com antibióticos, e uma mononucleose.

No dia 11 de setembro, acabou contraindo a meningococcemia, uma infecção generalizada causada pela mesma bactéria da meningite. Ele chegou ao hospital com menos de 1% de chances de vida e ficou quase 6 meses internado. O custo dessa sobrevivência foi a amputação dos dois braços acima dos cotovelos e das duas pernas acima dos joelhos.

Hoje, aos 28 anos, Pedro superou todos esses desafios e tem total independência.Mora sozinho nos Estados Unidos, dirige seu carro e viaja o mundo dando palestras sobre sua história de vida, superação e a importância da prevenção da doença, que tem neste dia 24 de abril o seu Dia Mundial de Conscientização. O principal alerta é que a vacinação é uma das melhores formas de prevenção contra a doença.

Pedro, que se tornou atleta, escritor e palestrante, conta que a doença evoluiu muito rápido e com gravidade extrema. A bactéria se espalhou rapidamente pela corrente sanguínea, levando à necrose de seus membros superiores e inferiores, e a necessidade da amputação. Foram quase seis meses internado e muito sofrimento.

“Jovem, aos 18 anos, a gente se acha invencível. Eu era o mais saudável da turma e aconteceu isso. É uma coisa que a gente não espera e que pode acometer qualquer pessoa. Essa doença evolui muito rápido, é gravíssima e altamente letal. Ou seja, é um milagre estar vivo. Mas ninguém precisa passar pelo o que eu passei. É muito importante que as pessoas se conscientizem, se vacinem e se protejam”, conta Pedro, que é autor do livro ‘Superar é Viver’.

Vacinação é a melhor forma de prevenir

O Dia Mundial de Combate à Meningite serve de alerta para os riscos, sintomas e formas de contágio. A doença é uma inflamação das meninges, revestimento do sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) e, se não tratada adequadamente, podecausar sequelas e até mesmo levar à morte. Se não for tratada, a meningite meningocócica é fatal em 50% dos casos e pode resultar em dano cerebral, perda auditiva ou incapacidade em 10% a 20% dos sobreviventes.

“É uma doença grave que pode levar a sequelas neurológicas irreversíveis quando não adequadamente tratada, desde alteração auditiva, paralisia cerebral, crises convulsivas e até mesmo óbito”, alerta Patrícia Bianchini, pediatra do Hospital São Luiz, em Cáceres (MT). “Diante de qualquer suspeita, os pais devem levar a criança ao pediatra para consulta. Quanto antes identificada e tratada, menores os riscos para o paciente”, completa.

A vacinação é uma das melhores formas de prevenção contra a doença. E a boa notícia é que há vacinas disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo elas a  Meningocócica C, Pneumococica 10 valente conjugada  e Haemophilus influenzae B.  Com a imunização, a prevenção ocorre de forma altamente efetiva, evitando que ocorra a doença e as graves sequelas. A vacinação no Brasil é recomendada na primeira infância.

“Os pais precisam se conscientizar sobre a importância de manter a vacinação das crianças em dia, a meningite é uma doença grave, mas que pode ser evitada”, ressalta Mariana. Outras formas que podem ajudar na prevenção incluem evitar aglomerações e manter os ambientes ventilados e limpos.

Doença Meningocócica

Considerada uma doença endêmica no Brasil, com casos esperados ao longo de todo o ano, a meningite meningocócica é uma infecção bacteriana grave, causada por diversos agentes infecciosos, como vírus, bactérias ou até mesmo fungos. Os casos mais graves geralmente são de bactérias, meningococo e pneumococo, especificamente, em que há alta taxa de mortalidade.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2018, foram registradas 1.060 ocorrências no Brasil, sendo que as regiões Sudeste (566 casos) e Sul (210 casos) apresentaram os maiores números de casos notificados. De acordo com Boletim Epidemiológico emitido pelo Ministério da Saúde, a prevalência de meningites é maior em crianças de até quatro anos de idade. 

Mas a meningite meningocócica não é uma doença só de criança e cerca de 23% dos adolescentes e adultos são portadores da bactéria, podendo transmití-la para outras pessoas através da saliva e partículas respiratórias, sem necessariamente desenvolver a doença.

A Doença Meningocócica é causada pela bactéria Neisseria meningitidis, que possui 13 sorogrupos identificados, sendo que cinco deles são os mais comuns (A, B, C, W e Y). Uma das formas de manifestação da doença é a meningite meningocócica, que é uma infecção das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal.  Uma outra forma mais grave é quando a bactéria atinge a corrente sanguínea, chamada de meningococcemia.

SINTOMAS E FORMAS DE CONTÁGIO

A doença é transmitida de pessoa a pessoa de diversas formas. O meningococo, bactéria que causa a meningite meningocócica, pode ser transmitido de uma pessoa para outra por meio do contato direto com gotículas ou secreções respiratórias, através de tosse, espirro e beijo, por exemplo.

“Pode ocorrer a transmissão por meio de gotículas de saliva ou secreção expelidas por pessoas infectadas ao falar, tossir, espirrar ou beijar”, conta dra Patrícia, também gerenciado pela Pró-Saúde. Aproximadamente 23% dos adolescentes e adultos possuem a bactéria na orofaringe (“garganta”) e podem transmiti-la mesmo sem adoecer – são chamados de portadores assintomáticos.

A tríade básica de sintomas mais marcantes é ter febre, dor de cabeça e vômito. Os sinais e sintomas iniciais da meningite meningocócica, que incluem irritabilidade,  perda de apetite e náusea, podem ser confundidos com outras doenças infecciosas.

Na sequência, o paciente pode apresentar pequenas manchas violáceas (arroxeadas) na pele, rigidez na nuca e sensibilidade à luz. Se não for rapidamente tratado, o quadro pode evoluir para confusão mental, convulsão, sepse e choque, falência múltipla de órgãos e risco de óbito. Essa rápida evolução e início abrupto, pode levar a óbito em menos de 24 a 48 horas. Por isso, é tão importante a prevenção da doença.

Diagnóstico e tratamento

O principal sinal que permite ao médico detectar a doença ao realizar o exame físico é a rigidez de nuca, pois a infecção causa a impossibilidade do paciente encostar o queixo no peito”, explica a infectologista Mariana Quiroga, do Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA).

A confirmação do diagnóstico é realizada por exames laboratoriais, como acoleta de líquido cefalorraquidiano, também conhecido como líquor ou fluido cérebro espinhal, e de sangue. O diagnóstico precoce e início imediato do tratamento são fundamentais para controlar a evolução da doença e varia de acordo com o agente causador. Para a Meningite viral, caso menos grave, o tratamento é sintomático e geralmente consiste em repouso, hidratação e medicamentos para alivio da dor, ou até mesmo antiviral.

Já para a Meningite bacteriana, o tratamento deve ser realizado imediatamente, com o uso de antibióticos, que varia de acordo com a bactéria causadora da doença. Quando a Meningite é fúngica (causada por fungos), o tratamento é feito por fungicidas, porém, este tipo de medicamento pode apresentar efeitos colaterais, por isso, são receitados apenas após a comprovação de que se trata deste tipo da doença.

Conheça os tipos de vacina disponíveis

Atualmente, existem vacinas para a prevenção dos 5 sorogrupos mais comuns no Brasil, as vacinas contra a meningite meningocócica causada pelo tipo B e as vacinas contra os tipos A, C, W e Y. Nos postos de saúde, a vacina contra a doença causada pelo meningococo C é disponibilizada para crianças menores de 5 anos de idade e adolescentes de 11 a 14 anos.

A vacina Meningocócica C protege contra a Meningite causada pela bactéria meningococo, o tipo mais agressivo e frequente na população brasileira. A primeira dose é dada aos 3 meses de idade, depois aos cinco meses, aos 12 meses de idade ocorre o primeiro reforço e o segundo vem entre os 11 e 14 anos.

Já a Pneumococica 10 valente conjugada, imuniza contra 10 sorotipos da bactéria pneumococo, responsável pela meningite, pneumonia e otite aguda. A primeira dose é feita aos 2 meses de idade e a segunda dose aos 4 meses de idade. O reforço é feito aos 12 meses de idade.

A Haemophilus influenzae B protege contra a bactéria influenza do tipo B. A primeira dose é feita aos 2 meses de idade, a segunda dose aos 4 meses e a terceira aos 6 meses. Na rede privada, há ainda a disponibilidade de outras duas vacinas, a Meningo B e a Meningo ACWY.  

A vacina contra os tipos A, C, W e Y, por exemplo, é recomendada nos calendários das sociedades médicas a partir dos 3 meses de idade, bem como para jovens e adultos (dependendo da situação epidemiológica). As vacinas para a prevenção da meningite meningocócica causada pelo tipo B têm indicações de idade diferentes, porém, abrangendo a faixa etária dos 2 meses aos 50 anos de idade, também recomendada pelas sociedades médicas.

É importante lembrar que a vacinação é um recurso importante para a prevenção, não só da meningite meningocócica, mas de outras doenças infecciosas também em crianças, adolescentes e adultos.

Da Redação, com Assessorias

 

 

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