‘Apesar do sofrimento, a ECMO foi o que me salvou da Covid’, diz fisiculturista

Conheça as histórias de dois pacientes jovens que usaram mesma terapia de Paulo Gustavo e sobreviveram às complicações da Covid

O empresário e fisiculturista Kaique Barbanti, de 28 anos, ficou internado 62 dias, sendo 23 conectado à oxigenação por membrana extracorpórea (Foto: Divulgação)

O empresário e fisiculturista Kaique Barbanti, de 28 anos, é exemplo vivo de quem sofreu com as complicações gravíssimas da Covid-19 e foi salvo pelo procedimento da ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea). O tratamento de alta complexidade usado durante um mês pelo ator e humorista Paulo Gustavo, 42 anos, que morreu esta semana – funciona como um pulmão e um coração artificiais e é considerado por muitos médicos como o último suspiro do paciente.

Kaique, que ficou 62 dias internado, conta que os sintomas da doença surgiram após o sexto dia de infecção e, no 13º, a saturação do sangue estava em 87%. Nesse dia, foi internado na ala clínica do Hospital Marcelino Champagnat, em Curitiba, e, no dia seguinte, intubado na UTI – Unidade de Terapia Intensiva. Graças ao aparelho, o pulmão do atleta ficou 23 dias se recuperando. Isso possibilitou que, três dias após deixar o ECMO, voltasse a respirar sem ajuda nenhuma.

Apesar de eu me cuidar sempre, com atividade física e alimentação, a Covid -19 quase tirou a minha vida. Quando saí da terapia intensiva pela primeira vez, foi detectado um coágulo no sangue. Voltei para a UTI, logo fui intubado novamente e submetido à ECMO. Acordei achando que tinha passado um dia. Descobri dias depois sobre o procedimento, minha falta de resposta inicial e que a minha família chegou a ser chamada para se despedir de mim”, relembra.

Paciente submetido à ECMO: pulmão artificial funciona em 50% dos casos (Foto: Divulgação)

Kaique Barbanti, que perdeu quase 30 quilos em dois meses da Covid, foi o paciente que mais tempo foi submetido à ECMO no Paraná e um dos maiores períodos na região Sul do Brasil. No total, foram 23 dias ligados ao equipamento. Seu corpo começou a responder apenas no 15º. “Apesar de todo o sofrimento, a ECMO foi o que me salvou”, conta o jovem.

Diferente de Kaique, que não tinha comorbidades, o professor de Química Robert Gessner Junior, de 31 anos, tinha sobrepeso, hipertensão e era pré-diabético, quando foi internado com Covid-19 no dia 21 de dezembro, com 50% do pulmão comprometido. No dia seguinte, já na UTI, precisou ser intubado e, no dia 28, foi submetido ao tratamento da ECMO. “No dia 8 de janeiro, quando saí da sedação, não conseguia me mexer ou falar. Tinha perdido 32 kg, estava fraco e na primeira ligação com a minha família me comunicava mexendo os olhos. A ECMO salvou a minha vida”, afirma.  

O professor de Química Robert também ficou ligado à ECMO e conseguiu se recuperar (Foto: Divulgação)

Demanda por uso do equipamento subiu na pandemia

O hospital da capital paranaense começou a oferecer o procedimento em 2015. Com o início da pandemia, em março de 2020, a instituição registrou grande aumento na indicação do tratamento que faz a circulação e oxigenação total do sangue. Em um ano de pandemia,  oito pacientes haviam realizado a ECMO na instituição. Antes, a média de procedimentos realizados era de um a dois pacientes por ano.

O cenário é o mesmo observado em outros países. De acordo com a Elso (Organização para Suporte Vital Extracorpóreo), que é a instituição que regulamenta o uso e as diretrizes para a ECMO no mundo, antes da pandemia, a demanda pelo procedimento era prioritariamente para problemas cardíacos, com 70% dos casos, que, no total, giravam em torno de 150 a 200 por ano no Brasil.

A pandemia fez com que o número de pacientes submetidos à ECMO no país chegasse a cerca de 800 pacientes, pelas nossas estimativas, sendo que 85% deles relacionados à problemas no pulmão provocados pela Covid-19”, explica o cirurgião cardíaco e diretor da Elso de Campinas, Gustavo Calado. 

Taxa de recuperação dos pacientes é de 50%

O índice de sucesso no tratamento dos pacientes atendidos pelo Hospital Marcelino Champagnat é próximo a 50%, o mesmo do restante do país. O ECMO é considerado o último recurso. “Quando esgotamos todas as alternativas de tratamento, principalmente de fisioterapia e ventilação mecânica e não temos resposta, a ECMO é nossa última opção”, explica o médico intensivista Jarbas da Silva Motta Junior, coordenador da UTI do hospital.

Segundo ele, os pacientes submetidos à ECMO não tinham praticamente nenhuma chance de sobreviveras. Um protocolo internacional determina as condições dos pacientes que podem ser submetidos ao procedimento. “Não existe um tempo determinado para o paciente ficar na máquina. A membrana que utilizamos tem validade de 14 dias pelo fabricante. Os pacientes que se salvam, em média, ficam de 7 a 10 dias”, ressalta o intensivista.

Como funciona a ECMO?

O equipamento de ECMO faz o processo de oxigenação do sangue praticamente sozinho, permitindo que o pulmão descanse. Um tubo colocado na perna do paciente puxa o sangue com velocidade de até sete litros por minuto para a membrana extracorpórea, onde é realizada a troca gasosa, retirando o dióxido de carbono e colocando o oxigênio. Depois, o sangue oxigenado volta para o corpo do paciente por meio de uma conexão feita no pescoço.

Por se tratar de uma terapia complexa, para incorporar o tratamento com ECMO, além do aparelho, o hospital precisa de capacidade de intervenção bem avançada e equipes multidisciplinares treinadas para operar o equipamento e acompanhar os pacientes. No entanto, o médico intensivista alerta ser importante ressaltar que a terapia exige muito do corpo e não é indicada para todos. Infelizmente, Paulo Gustavo estava nos 50% que não responderam ao tratamento e morreu dia 4 no Rio de Janeiro.

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