As incertezas das gestantes em tempos de pandemia

Ginecologistas e obstetras esclarecem as principais dúvidas das mulheres grávidas em relação ao contágio pelo coronavírus

Redação
Para a maioria das mães, principalmente aquelas de primeira viagem, o nascimento do filho é um dos episódios mais emocionantes de suas vidas. Mas o que fazer quando esse momento é acompanhado por uma pandemia mundial de um vírus altamente contagioso do qual ainda estamos em processo de estudo? Diante de tal situação, é normal que muitas gestantes se sintam inseguras ou até com medo dos próximos passos.
Com o surto do novo coronavírus,  os números de casos vêm crescendo exponencialmente, o que torna a compreensão dos modos de infecção e prevenção um desafio e aprendizado diário. São inúmeras as dúvidas que surgem ao decorrer dos dias e, muitas vezes, o clima que prevalece é de medo, principalmente para aquelas que estão gerando vidas: as gestantes”, afirma Waldemar Carvalho, ginecologista e obstetra da Clínica Tempo Fértil.
Uma pesquisa realizada durante os dias 13 a 25 de março, pelo Centro de Medicina da Universidade de Columbia, em Nova York, EUA, revelou que, entre 43 grávidas que participaram do estudo, 37 (86%) possuíam sintomas leves, quatro (9,3) sintomas graves e duas (4,7) apresentaram quadro crítico. Também não foram detectados casos confirmados em neonatos após teste inicial no primeiro dia de vida.
Mas qual a influência do Covid-19 durante a gravidez e até mesmo depois dela, desde o pós-parto até o estabelecimento de laços, como começar a amamentar? A resposta é simples e um tanto tranquilizadora. Por enquanto, diz Waldemar, pouco se sabe acerca do impacto dessa infecção, mas há relatos de mães testadas positivo que geraram seus bebês livres do vírus.
Existem estudos em andamento que analisam o impacto direto do coronavírus na gravidez, mas não há precisão de dados que comprovam se o Covid-19 dificulta ou não a gravidez, bem como se interfere no desenvolvimento e saúde do feto ou após nascimento do bebê. Ou seja, ainda não há evidências que as gestantes correm mais riscos de contrair o vírus do que a população em geral.
Entretanto, todo cuidado é pouco. “Gestantes e até as puérperas – mulheres que deram à luz recentemente – fazem parte de “grupos de riscos”, até porque a condição da gravidez – e até mesmo depois do parto – exige uma série de cuidados em relação a não-gestante, por exemplo, que, quando não seguidos, pode acarretar diretamente na imunidade da mulher, podendo gerar problemas de saúde”, ressalta o especialista em reprodução humana no Portland Fertility Center, de Londres, Inglaterra.
Com o coronavírus a situação não é diferente: é preciso redobrar esses cuidados comuns da gravidez e seguir rigorosamente as medidas de segurança preconizadas pelo Ministério da Saúde em relação a pandemia. Os órgãos institucionais de reprodução humana e obstetrícia reforçam as medidas básicas de prevenção divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A principal orientação é manter o isolamento social, saindo apenas em casos de urgências.

Redobrar as medidas de precaução que são divulgadas pela mídia. É extremamente importante manter a higienização das mãos, preferencialmente com água e sabão, e se achar necessário, usar o álcool em gel. Em casos de contatos externos, também é importante o uso da máscara, tanto pela mãe quanto para outros familiares, para proteção do bebê.

Atualmente, a gestante pode recorrer a recursos tecnológicos para manter contato com o seu obstetra, inclusive para consultas, como a videoconferência. Nos casos de necessidade de exames de rotina, há laboratórios que disponibilizam o serviço em home care. Além disso, se houver a necessidade de exames como ultrassonografia, por exemplo, pode ser alinhado com o obstetra a possibilidade de postergar ou as orientações necessárias para ir até uma clínica realiza-lo. Minha orientação é analisar caso a caso, sempre em comum acordo entre médico e paciente.
Para o período de amamentação, as mães também podem ficar tranquilas. Segundo Waldemar, elas podem amamentar normalmente, pois também não comprovação de que esse vírus pode ser transmitido pelo leite materno. De qualquer modo, é preciso cumprir as regras de higiene e entender que nesse momento o isolamento social é fundamental.
Mesmo para as gestantes que estão na reta final, não é preciso ter ansiedade ou mudar os planos do parto. O importante ainda é que o bebê nasça no seu tempo e que os pais entendem que esse ritual do nascimento, que é muito social, nesse momento precisará ser mais íntimo para preservar a saúde da família, mas que logo todos poderão celebrar essa nova vida”, afirma o especialista.
Grávidas com comorbidades: novo grupo de risco da covid-19

Cuidados devem ser redobrados, alerta especialista

Com o avanço da pandemia o Ministério da Saúde incluiu gestantes e puérperas no grupo de risco para o coronavírus. Até então apenas as gestações de alto risco eram consideradas preocupantes para o desenvolvimento da doença. Mesmo não tendo um estudo concluído sobre o caso, as pesquisas já apontam que na infecção causada pelo novo coronavírus os riscos são semelhantes pelos mesmos motivos fisiológicos do vírus H1N1.
Para  Karina Tafner, ginecologista, obstetra e especialista em reprodução assistida pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), com essa nova informação, os cuidados devem ser redobrados entre esses dois novos grupos de risco, para evitar a contaminação e o agravamento dos casos.
Estamos falando de um vírus novo e, por isso, estudos estão surgindo a cada dia com novas informações sobre a doença. Nosso dever é orientar as gestantes de acordo com as evidências científicas disponíveis até este momento.As mulheres grávidas devem tomar as mesmas precauções para evitar a infecção por Covid-19 que as outras pessoas”, afirma a especialista, que atua na Santa Casa de São Paulo.
Gripe nas grávidas causa complicações mais graves

Ela responde algumas das principais dúvidas:

– Como a Covid-19 afeta as mulheres grávidas?
Os relatórios atuais mostram que as mulheres grávidas, de baixo risco, não apresentam sintomas mais graves do que o público em geral mas os pesquisadores ainda estão estudando como a doença afeta as mulheres grávidas.
No entanto, devido a alterações em seus corpos e sistemas imunológicos, sabemos que as mulheres grávidas podem ser seriamente afetadas por algumas infecções respiratórias. Portanto, é importante que tomem precauções para se protegerem contra o COVID-19 e relatem possíveis sintomas (incluindo febre, tosse ou dificuldade em respirar) ao seu médico.
– Como a  Covid-19 afeta o feto?
É muito cedo para os pesquisadores saberem como o Covid-19 pode afetar o feto. Algumas gestantes com a infecção tiveram partos prematuros, mas não está claro se os nascimentos prematuros ocorreram por conta da Covid-19. Não é provável que a doença passe para o feto durante a gravidez, trabalho de parto ou parto, mas são necessárias mais pesquisas.
– Quais medidas de proteção elas podem tomar?
Os médicos orientam que as mulheres grávidas tomem as mesmas medidas que o público em geral para evitar a infecção por coronavírus. Veja algumas medidas de proteção básica:
– Lave as mãos com frequência com  água e sabão por pelo menos 20 segundos
ou utilize álcool
– Mantenha espaço entre você e os outras pessoas e evitar espaços lotados.
– Evite tocar nos olhos, nariz e boca.
– Pratique higiene respiratória. Isso significa cobrir a boca e o nariz com o cotovelo quando tossir ou espirrar.
– utiliza máscara se precisar sair
– Se você tiver febre, tosse ou dificuldade em respirar, procure atendimento médico cedo. Ligue antes de ir a uma unidade de saúde e siga as instruções da sua autoridade de saúde local.
– Ficar em casa o máximo possível
– Como a mulher grávida pode se manter fisicamente saudável agora?
As mulheres grávidas podem se manter saudáveis, seguindo as recomendações usuais durante a gravidez, incluindo:
– Comer refeições saudáveis
– prática de exercício regular, em casa
– Dormir bastante.
– Evitando álcool e drogas
– O que devo fazer se estiver grávida e for diagnosticada com Covid-19?
Siga as orientações do seu ginecologista ou outro profissional de saúde. O conselho atual do CDC para todas as pessoas com Covid-19 inclui o seguinte:
– Fique em casa, exceto para obter assistência médica. Evite o transporte público.
– Converse com sua equipe de assistência médica por telefone antes de ir ao consultório. Obtenha assistência médica imediatamente se você se sentir pior ou achar que é uma emergência.
– Separe-se das outras pessoas em sua casa.
– Use uma máscara facial quando estiver perto de outras pessoas e quando for procurar atendimento médico.
– Como lidar com o medo durante a gravidez?
Algumas mulheres grávidas e pós-parto podem sentir medo, incerteza, estresse ou ansiedade por causa do COVID-19. Entrar em contato com amigos e familiares durante esse período pode ajudar. Também existem recursos de tratamento e suporte que você pode acessar por telefone ou online. Converse com seu ginecologista ou outro profissional de saúde sobre como obter ajuda se tiver sintomas como estes:
– Qual o parto ideal para evitar a transmissão – normal ou cesárea?

Outra dúvida comum é qual seria o parto mais adequado em relação aos riscos de transmitir coronavírus ao bebê, caso a mãe seja portadora do vírus. Segundo Fernanda, anda não se sabe se uma mulher grávida com Covid-19 pode transmitir o vírus ao feto ou ao bebê durante a gravidez ou o parto.

Até o momento, o vírus não foi encontrado em amostras de líquido amniótico ou leite materno. Se houver suspeita ou confirmação de Covid-19, os profissionais de saúde devem tomar todas as precauções apropriadas para reduzir os riscos de infecção para si e para outras pessoas, incluindo a higiene das mãos e o uso apropriado de roupas de proteção, como luvas, bata e máscara médica.

Ela lembra que o conselho da OMS é que as cesarianas só devem ser realizadas quando necessárias. O modo de nascimento deve ser individualizado e com base nas preferências da mulher, juntamente com as indicações obstétricas. Segundo ela, uma experiência de parto segura e positiva inclui:

-Ser tratado com respeito e dignidade;
-Ter um acompanhante de escolha presente durante o parto;
-Comunicação clara pela equipe de maternidade;
-Estratégias apropriadas de alívio da dor:
-Mobilidade no trabalho de parto, sempre que possível, e posição de nascimento de sua escolha.
– Seria mais seguro ter um parto em casa?
A ACOG ( American College of Obstetricians and Gynecologists) acredita que o local mais seguro para você dar à luz ainda é um hospital, um centro de parto hospitalar ou um centro de parto autônomo credenciado. As gestantes que optam por parto domiciliar devem ser informadas sobre os riscos e benefícios e garantir transporte seguro e rápido para os hospitais mais próximos caso seja necessário.
Mesmo as gestações mais saudáveis ​​podem ter problemas com pouco ou nenhum aviso durante o trabalho de parto e parto. Se ocorrerem problemas, um ambiente hospitalar pode oferecer a você e a seu bebê os melhores cuidados com pressa. E estudos mostraram que bebês nascidos em casa têm duas vezes mais chances de morrer na época do nascimento do que aqueles nascidos em hospitais”, ressalta a especialista.
Se a mãe for portadora do coronavírus, o ideal é que o parto seja sempre realizado em ambiente hospitalar, para garantir os cuidados necessários dados pela equipe médica para proteção e tratamento da mãe e profilaxia do bebê. Seu bebê pode precisar ser separado de você após o nascimento, se você estiver doente. A separação ajuda a impedir que você infecte seu bebê. Converse com sua equipe médica sempre.

Especialista em parto natural tira dúvidas

Antonio Julio Sales Barbosa, obstetra e fundador do Centro Paulista de Parto Natural, responde, abaixo, os principais questionamentos que tem recebido no consultório. Confira!

1) A covid-19 durante a gestação pode levar a má-formação?

Dr. Barbosa: Ainda não há relatos nesse sentido, já que, até o momento, não existe nenhum estudo que indique o vírus como causador de má-formações em bebês. Como a covid-19 ainda é recente, precisamos de um maior tempo de observação para fazer afirmações nesse sentido.

2) É possível transmitir o coronavírus de mãe para filho?

Dr. Barbosa: Até o momento, não foram constatadas transmissões verticais, nem na gravidez, nem durante o parto.

3) Precisarei deixar de amamentar se contrair coronavírus?

Dr. Barbosa: A Sociedade Brasileira de Pediatra (SBP), e mesmo a OMS, afirma que a amamentação pode ser realizada normalmente. A atenção fica aos cuidados, pois é necessário cumprir atentamente com as orientações para evitar a transmissão, como higienizar rigorosamente as mãos antes de pegar o bebê e usar máscara.

4) Gestante precisa de cuidado especial?

Dr. Barbosa: A gestante mas deve ter maior cuidado por ter a imunidade mais baixa do que a população em geral. Os cuidados são os mesmos amplamente divulgados para toda a população: fique em casa, evite aglomerações e contato com pessoas com suspeita da doença, lave bem as mãos e evite tocar no rosto. Aconselho particularmente as gestantes a seguirem à risca as orientações, não falhar na questão do isolamento social e, se eventualmente precisar ir a algum lugar, ter bastante cuidado e utilizar o álcool gel.

5) Devo comparecer às consultas de pré natal e realizar exames?

Dr. Barbosa: Para as minhas pacientes, se a gestação estiver no começo e correndo tudo tranquilamente, tenho indicado espaçar as consultas e exames, para garantir o resguardo e isolamento necessário nesse momento. Já aquelas acima de 32 semanas, quando precisamos ter uma vigilância um pouco maior, oriento seguir as consultas normalmente. Vale lembrar que as salas de espera não devem ter aglomerações e deve ser ventilada e higienizada constantemente, para dar as melhores condições à gestante nesse sentido. O mesmo serve para os exames. Quando necessário realizá-los, procurar por horários alternativos.

Importância do pré-natal

Gestantes e recém-nascidos – incluindo as afetadas pelo Covid-19 – devem sempre comparecer às consultas de rotina. O acompanhamento pré-natal feito com um médico obstetra permite identificar doenças já presentes, porém silenciosas, que podem afetar a gestação ou a saúde da mãe posteriormente. Além disso, detecta problemas fetais ou relacionados à placenta, permitindo uma ação mais rápida dos tratamentos ou ainda a prevenção de alguns desses problemas.

É indispensável para a saúde da gestante e do bebê passar pelo acompanhamento pré-natal. Esse trabalho minucioso dos médicos obstetras previne doenças e permite maior tempo e precisão para buscar o melhor tratamento para problemas descobertos ainda em fase inicial”, diz Walter Brandstetter, gerente clínico da divisão de HME da Samsung Brasil.

Com Assessorias