Asma não é fator de risco para Covid-19, mas pacientes não devem se descuidar

Estudos recentes apontam que incidência de casos entre asmáticos é baixa, mas eles devem ficar atentos, especialmente no outono-inverno

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Global Asthma Report apontam que 4,4% da população mundial – mais de 300 milhões de pessoas – têm diagnóstico de asma. Cerca de 10% a 25% da população brasileira têm asma. Por ano, são registradas – aproximadamente – 2 mil mortes pela doença. No Brasil, esta é a quarta causa de internação na rede pública de saúde, levando ao óbito, quando não tratada. O quadro pode chega a matar de 3 a 5 pessoas por dia no Brasil.

A doença inflamatória crônica das vias aéreas que afeta os brônquios e resulta em crises de tosse, falta de ar, sibilância, dor no peito e opressão torácica. Por volta de 80% dos pacientes com asma têm rinite. Manter o tratamento da asma prescrito pelo especialista é fundamental, principalmente durante a pandemia, segundo aponta a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI).

Inicialmente inseridos no grupo de risco para a Covid-19, os asmáticos podem ficar mais tranquilos em relação ao coronavírus, mas devem seguir se cuidando. Pesquisa publicada na revista científica “Annals of the American Thoracic Society”, aponta que a asma  não é um fator de risco para quadros graves de Covid-19. Segundo os cientistas, uma revisão de estudos internacionais mostra um número baixo de asmáticos entre os pacientes hospitalizados com coronavírus.

Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) também avaliou a relação entre asma e coronavírus através dos antecedentes médicos de 161.271 pacientes que desenvolveram quadros de Covid percebeu que somente 1,6% dos pacientes tinham diagnóstico prévio de asma. 

Se uma pessoa com asma pega a Covid-19, o quadro pode ser mais grave, porque vão se somar duas inflamações respiratórias. Apesar de não ser a condição mais crítica em desfechos desfavoráveis como comorbidade no contexto de covid, como é a hipertensão, diabetes obesidade, é muito importante que quem tem asma use máscara, mantenha sua medicação em dia e tome os demais cuidados necessários para reduzir a chance de se infectar”, explica Alexandre Pinto Cardoso, o coordenador de Pneumologia do Hospital São Lucas, no Rio de Janeiro.

Para Suzana Pimenta, coordenadora de Pneumologia do Hospital 9 de Julho, em São Paulo, é fundamental o acompanhamento médico para o controle da doença. “Os pacientes que têm o quadro asmático controlado, com uso regular de medicamento, podem não apresentar evolução grave de Covid-19, caso sejam infectados. O agravamento acontece, geralmente, quando o paciente se encontra sintomático, apresentando inflamação das vias aéreas”, ressalta a especialista.

Mas nem sempre é assim e muitos não estão se cuidando. “Nesse um ano de pandemia percebi redução na procura de continuidade do tratamento, o que causa preocupação”, alerta a pneumologista pediátrica Patrícia García-Zapata. “O acompanhamento habitualmente  tem que ser a cada três meses, até para ajustar a dosagem dos remédios ”, afirma a médica, que atende no Tumi Espaço Clínico, no Órion Complex, em Goiânia.

Equívocos sobre a asma: mitos e verdades

Pela importância da doença, o mês de maio foi escolhido para celebrar o Dia Mundial da Asma (5/5). A data criada pela Global Initiative for Asthma (GINA), instituição fundada pela OMS para alertar sobre a importância do tratamento contra a doença e propõe um debate com o tema “Descobrindo os Equívocos sobre a Asma”. O objetivo é abordar mitos e verdades sobre essa doença,

Cardoso esclarece que quando alguém que tem asma é exposto a um ambiente que possui substâncias alergênicas, como mofo e pelos de animais. O organismo absorve essas partículas e desenvolve contra elas um anticorpo, uma Imunoglobulina, no caso da asma alérgica. Toda vez que isso se repete, o corpo reage com uma alergia inflamatória, que pode ser alta ou baixa intensidade.

No outono e inverno, aumentam as crises asmáticas por conta da grande circulação de vírus e outros poluentes no ar. Os principais sintomas são a tosse constante, principalmente à noite, e a falta de ar com chiado no peito. O tempo seco desta época do ano também contribui para o agravamento dos sintomas.

“Neste período temos uma maior circulação de vírus e quando está mais frio, ficamos em ambientes mais fechados, assim os fatores desencadeadores como poeira, pelos de animais e ácaros, ficam mais evidentes. Além disso, muitos pacientes têm gatilho, com a mudança do tempo os sintomas aparecem”, ressalta a especialista.

O tratamento padrão recomendado é o uso de corticoide inalatório associado ao broncodilatador, que apresenta mais eficácia e baixo efeito colateral. A médica chama a atenção para as medicações que são ministradas por spray inalatório, erroneamente chamados de bombinhas. “Esse não é um bom termo, gera pânico na família, o que não é necessário. O remédio em spray é apenas para tirar o asmático da crise ou para tratamento desinflamando a via aérea”, ressalta Dra Patrícia.

Prática de esportes entre os asmáticos

Além dos esclarecimentos sobre asma e Covid-19, a campanha deste ano lança luz sobre a relação entre a prática de esporte e a doença. Segundo a Global Initiative for Asthma, há um equívoco no senso comum de que o paciente asmático está impossibilitado de se exercitar. Ao contrário, as orientações médicas são de que, quando a asma está bem controlada, os portadores estão aptos a se exercitarem e até praticar esportes de primeira linha.

“Temos muitos casos de atletas medalhistas olímpicos que eram ou são asmáticos, como o judoca Aurélio Miguel, o nadador Mark Spitz. A asma não impede que alguém seja atleta, desde que a doença esteja controlada”, afirma o Dr. Alexandre.

Segundo a Dra. Suzana, a prática regular de exercícios físicos, principalmente aeróbicos, melhora o condicionamento físico e, consequentemente, a capacidade pulmonar. “O acompanhamento médico e o uso regular do medicamento adequado contribuem para uma vida saudável do paciente, que pode e deve praticar esporte para seu bem-estar”, completa a especialista do 9 de Julho.

Como diferenciar asma de Covid e bronquite

Dra Patrícia explica que a asma geralmente inicia na infância. No geral, o diagnóstico de asma se dá em torno dos seis anos, pois antes disso outros fatores podem desencadear os sintomas. A doença não tem cura, apenas tratamento, que é feito com um pneumologista, o qual prescreve as medicações. Ela revela quais sintomas em relação à doença os pais devem observar nos filhos.

A tosse é o principal sintoma em comum com a asma nas crianças. Tosse prolongada, tosse seca, chiado no peito, quando a criança cansa rápido durante atividades físicas, cansaço ou tosse após gargalhadas, tosse ou dor no peito quando está dormindo, podendo causar despertar noturno”, detalha.

Em relação aos quadros de Covid, a pneumologista pediátrica explica. “Em uma crise é diferente e a forma de apresentação é distinta, principalmente nas crianças, que na Covid-19 apresentam mais coriza, diarreia e dor abdominal. Vale destacar também que existe uma diferença de apresentação dos sintomas e da intensidade em que eles se apresentam, podendo variar entre adultos e crianças. “

Outra dúvida que as pessoas têm sobre a distinção da asma com a bronquite. “A bronquite é a inflamação das vias aéreas pulmonares, o que pode ocorrer em várias doenças. Quando se fala em bronquite alérgica ou bronquite asmática é o mesmo que asma”, salienta.

Importância do tratamento na cirurgia plástica

Cirurgião plástico e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Fernando Amato recentemente teve que adiar o procedimento em uma paciente por estar com a asma fora de controle. “O tratamento adequado da asma, com controle das crises e uso correto das medicações orientadas pelo especialista, é fundamental para o paciente realizar qualquer cirurgia, principalmente uma cirurgia plástica”, explica.

Dr. Amato explica que cirurgias em geral não são contraindicadas para pacientes com asma, desde que este esteja preparado, ou seja, sem crises, obstruções e sem sequelas pulmonares. “A orientação é que antes de uma cirurgia eletiva, o paciente faça um pré-operatório com especialista e realize os exames necessários para liberar a cirurgia”, conta o especialista.

Carlos Henrique B. M. Lemos, médico anestesista da equipe do Dr. Amato, orienta que, muito embora a asma não contraindique cirurgias eletivas, faz-se necessário uma consulta pré-anestésica pormenorizada na qual o anestesista vai avaliar o grau de gravidade da asma, frequência e recorrência, bem como fatores desencadeantes.

Em alguns casos deve-se fazer um preparo pulmonar pré-operatório. Além disso, cirurgião e anestesista devem entrar em acordo quanto a drogas, melhor técnica anestésica ou combinação de técnicas. Por último, em casos de cirurgias longas, frequentemente a realização de fisioterapia respiratória pós-operatória ajuda muito na recuperação e diminui bastante o risco de pneumonia pós-operatória relacionada à asma e à anestesia”, explica Dr. Lemos.

Campanha #AtualizaAsma alerta para medicamentos no SUS

A Associação Brasileira de Asmáticos (Abra) divulgou nesta quarta-feira, 5, Dia Mundial da Asma, a campanha #AtualizaAsma, para conscientizar as pessoas sobre a situação de pacientes com asma grave, que não têm acesso aos medicamentos adequados há mais de sete anos no Sistema Único de Saúde.  Diversos tratamentos inovadores foram lançados no mercado nos últimos anos. Porém, como esses remédios não fazem parte do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), não podem ser prescritos pelos médicos para os pacientes do SUS.

O PCDT de asma foi atualizado pela última vez em 2013. De lá para cá, várias outras drogas surgiram, principalmente para asma grave. Estes pacientes têm maior risco, por exemplo, de internação, de procurar um atendimento de emergência e, neste atual cenário, de apresentar complicações pelo novo coronavírus”, afirma o pneumologista José Roberto Megda Filho.

Um PCDT estabelece os critérios de diagnóstico de cada doença, os medicamentos adequados e a supervisão de possíveis efeitos adversos. Para as comorbidades com programas de tratamento fornecido pelo Estado, um PCDT completo e atualizado auxilia o médico na escolha da melhor terapia para cada paciente.

Dados da campanha mostram que, no Brasil, os asmáticos graves procuram 15 vezes mais hospitais do que os outros pacientes e são hospitalizados 20 vezes mais. Além disso, o custo do tratamento com estes medicamentos pode chegar a R$ 10 mil por mês.

Quando prescrevemos o medicamento correto para o paciente correto, reduzimos os gastos com saúde. Hoje temos a indicação para uso de corticoide sistêmico, com efeitos colaterais e comprometimento da qualidade de vida do paciente. Atualmente não há medicação biológica liberada pelo SUS”, destaca o pneumologista.

Recentemente, quatro medicamentos foram avaliados pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde e todos tiveram parecer negativo. Nesta quarta-feira, 5, a Conitec realizará uma reunião para a decisão final sobre três destas medicações.

Para conferir mais detalhes da campanha #AtualizaAsma, clique aqui.

Mitos e verdades sobre a asma

Gustavo Wandalsen, especialista da ASBAI, responde abaixo as principais dúvidas sobre a doença:

Pessoas com asma têm maior predisposição ao contágio do coronavírus?
Não foi documentado risco aumentado de infecção pelo novo coronavírus nos asmáticos.

Quem tem asma pode ter o quadro agravado se contrair Covid-19?
Ainda se discute se há ou não risco de evolução para quadros mais graves nos asmáticos.

Quem tem asma deve manter o tratamento durante a pandemia?
Sim, é de extrema importância manter a medicação prescrita pelo especialista para o controle da doença, evitando assim quadros graves e a necessidade de ir ao pronto atendimento.

Asma é uma doença de fundo psicológico?
A asma não é uma doença de fundo psicológico, mas parte dos pacientes relata piora dos sintomas associada com variações emocionais.

Bombinha de asma pode viciar?
Não. Esse é um mito que precisa ser combatido. As medicações inalatórias utilizadas no tratamento da asma não viciam. Porém, como a doença não tem cura, apenas controle, os pacientes usualmente voltam a apresentar sintomas se suspendem o tratamento.

Remédios para asma perdem a eficácia depois de um tempo de tratamento?
Não, esse é outro mito. Mas como foi comentado, são medicamentos de uso prolongado, muitas vezes, por toda a vida.

Se não tenho mais sintomas da asma, estou curado?
Não. É muito difícil falar em cura para a asma. A gravidade da asma pode variar como o tempo, desencadeando mais ou menos sintomas e pacientes assintomáticos por longo tempo podem voltar a apresentar sintomas.

Quem tem asma não deve se exercitar?
Outro mito. Praticar atividades físicas é parte importante de uma vida saudável e do próprio tratamento da asma. Asmáticos devem evitar atividades físicas apenas quando estão em crise.

Com Assessorias

In the news
Leia Mais