‘Bolsonaro é um vírus maior do que o corona’, diz sanitarista

Em entrevista à jornalista Ana Helena Tavares, médico Eduardo de Azeredo Costa analisa papel do governo no enfrentamento à pandemia

Ana Helena Tavares
Para Eduardo Azeredo Costa, comportamento do presidente da República atrapalha controle da pandemia (Foto: Divulgação)

O presidente Jair Bolsonaro voltou a desafiar as autoridades sanitárias ao desrespeitar as recomendações de isolamento social e ir às ruas testar sua popularidade em tempos de pandemia. Um péssimo exemplo, na avaliação de inúmeros médicos e especialistas que acompanham a maior crise mundial provocada por um grave problema de saúde pública no último século.

Para o sanitarista e epidemiologista Eduardo de Azeredo Costa, a disciplina social é central para controlar doenças. “Mas como exigir do povo essa disciplina se o principal mandatário da República debocha da situação e não passa confiança?”, questiona a jornalista Ana Helena Tavares ao especialista, em entrevista exclusiva para seu blog Quem Tem Medo da Democracia“, que reproduzimos aqui no ViDA & Ação.

Confira:

‘Falta a ele sentimento de seu dever social’

Eduardo Azeredo Costa, que trabalhou na Organização Mundial de Saúde (OMS) para a erradicação da varíola e por 30 anos atuou na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde foi diretor de Farmanguinhos, explica que a disciplina social ocorre quando uma autoridade  institucional acreditada pela população se posiciona.

Quer dizer, a autoridade vem dessas duas coisas. Do papel formal que ele exerce e de que as pessoas reconheçam que ele faz isso seriamente. Quando não tem, cada um faz o que acha melhor. E não pode. Fica um tumulto”, avalia o médico.

Segundo ele, sabe-se que o tumulto está instalado quando, por exemplo, observamos a queda de braço entre o presidente e governadores. Enquanto estes tomam medidas como o fechamento de estradas, Bolsonaro vai lá e os desautoriza.

Falta a ele (Bolsonaro) sentimento de seu dever social; entender que, por mais que seja difícil esse momento, nós temos que tentar convergir para a mesma posição. Porque o país precisa hoje é que todos trabalhemos juntos para o controle do coronavírus. É preciso um mínimo de harmonia (entre poderes e instâncias). Você não consegue convencer as pessoas com argumentos dissonantes. A verdade é que, pelo despreparo dele, pelo grau de incapacidade social ser muito grande, por ser um cara que pensa em termos de clã, nos está fazendo perder nesse momento a capacidade de coordenação nacional do combate à pandemia.”

No caso da união estratégica de um povo, quando entra numa guerra, não dá para ficar pensando quem era ou não contra a guerra, não adianta ficar querendo mudar uma história que já aconteceu. Se está declarada a guerra, eu vou fazer o quê? É preciso tomar resoluções. No momento atual, o que vejo é que temos uma política negativa com relação à saúde por parte do governo federal. O ataque desse governo é à saúde e não ao vírus. Este será controlado mais rapidamente.”

‘Desastre Bolsonaro vai durar muito tempo’

O epidemiologista não hesita ao definir o atual governo federal como “um vírus maior do que o coronavírus”.

O importante é pensar numa estratégia de mudança de governo – e talvez esse vírus até acelere isso. Porque o mal que estava sendo feito, desde antes dessa pandemia, para a economia, para a vida das pessoas, é terrível. Como a precarização das leis trabalhistas, as pessoas sem seguridade social. Ou seja, o desastre Bolsonaro é muito maior do que o do coronavírus.”

O especialista não vê saída tão cedo para a situação difícil em que o país se encontra.

O desastre Bolsonaro vai durar muito tempo. O coronavírus vai levar de quatro a cinco meses e depois as coisas se acomodam. O Bolsonaro ainda tem mais 3 anos e, mesmo depois disso (ou mesmo que ele caia antes), vai nos deixar muitas dificuldades para retornarmos a um país fraterno, para retornar a um país conciliado consigo mesmo, com um bom projeto de desenvolvimento, com justiça social. É chato a gente ter certeza de que há um vírus maior do que o coronavírus aqui entre nós.”

Além de médico, Eduardo Azeredo Costa é político. Foi secretário de saúde de um dos governos de Leonel Brizola no Rio de Janeiro. Foi secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos estratégicos do Ministério da Saúde, durante o governo de Dilma Rousseff. Com a experiência de quem transitou tanto por laboratórios de pesquisa científica como pelos corredores do poder, Costa lamenta que o governo federal represente um ataque à saúde e não ao vírus, como deveria ser:

Como eu já trabalhei em controle de doenças, tenho a opinião de um sanitarista. Claro que com seus conflitos, entre a sua profissão e suas crenças. Nesse sentido, eu diria que questões específicas de saúde têm uma predominância tal que não devem entrar em intrigas políticas, na luta política partidária, por exemplo.

Epidemiologista Eduardo Azeredo Costa compara “desastre” do governo Bolsonaro ao causado pelo novo coronavírus (Reprodução do Youtube)

Isolamento horizontal é o melhor método

Na etapa atual, o Brasil está na chamada “fase de ataque” contra o novo coronavírus. Costa avalia que o isolamento horizontal, que abrange toda a população, é o melhor método para ser aplicado no momento.

O isolamento e a quarentena são das coisas mais antigas que existem no controle de saúde pública. São instrumentos importantes. Na época da gripe espanhola, era a rigor a única medida disponível. Em cerca de dois anos, ela desapareceu. Era outro mundo. Mas ela também se alastrou por vários países, houve aqui também. Alastrou-se rapidamente, porque a transmissão era grande. E queimou como fogo de palha, porque ninguém tinha imunidade alguma. Essa também é uma questão que envolve a Covid-19. Nossa população não havia tido ainda contato com esse vírus ou qualquer outro  imunologicamente cruzado com ele, então se espalha muito rápido.”

Além do isolamento horizontal ou populacional, existe o isolamento vertical ou parcial, que engloba apenas casos de alto risco. Este se baseia na premissa de que a covid-19 atinge fatalmente mais aos velhos. No entanto, na cidade do Rio de Janeiro, o maior número de infectados são jovens entre 30 e 40 anos.

A estratégia populacional é sempre melhor, que é essa que está sendo feita (de isolamento horizontal). A de alto risco (vertical) é mais complexa e de efeito limitado. Há uma grande contribuição de um epidemiologista inglês, com quem estudei – Geoffrey Rose – demonstrando as grandes vantagens da estratégia populacional sobre as estratégias de risco. Com essa epidemia vemos, por exemplo, que a separação dos velhinhos, além de ser ineficaz para conter  a transmissão, pelos laços familiares, ofende a própria cultura. Assim, acho que nós estamos no caminho certo”, conclui.

Costa analisa que a epidemia é dinâmica e elenca três fatores importantes para combatê-la. A primeira é a disciplina social frente a situação, que fará todas as alternativas ineficazes. “É melhor errarmos juntos do que nos separar, mesmo que possamos ter outras ideias, o que não é proibido e pode até ser o próximo passo coletivo”, aposta.

A segunda é a inteligência central, ter um sistema de informações rápido e confiável, como vimos antes, a distribuição dos leitos de UTI está dissociada da distribuição da grande maioria da população, pela enorme concentração de renda do Brasil e isso é um complicador operacional importante. E a terceira é assistência econômica e social na crise econômica que acompanha essa epidemia.”

Estratégias podem exigir maior ou menor grau de isolamento

As estratégias de enfrentamento a pandemias são dinâmicas, alteráveis dependendo da experiência do momento. Mesmo no meio científico, há ainda muitas dúvidas sobre o novo coronavírus. E, dependendo das respostas que possam ser encontradas, a evolução pode surpreender e as estratégias podem mudar, exigindo, por exemplo, um maior ou menor grau de isolamento. Essa incerteza ocorre por vários fatores. Um deles é a característica mutável dos vírus em geral, como explica Eduardo Azeredo Costa.

Os vírus, como são estruturas simples e precisam de um hospedeiro para serem replicados, têm uma capacidade,) grande de sofrer alterações menores e mutações (alguns mais estáveis, outros menos. Neste caso podem passar a atacar diferentemente, com menor ou maior agressividade (virulência). É como se o vírus ao entrar na membrana desse uma mensagem química para o núcleo da célula hospedeira e dissesse assim: ‘faça outro igual a mim’. Ela vai buscar o material que tem e faz. Uma linhagem do vírus ao passar por células de populações diferentes, provoca um processo de resultado pouco previsível, que vai marcá-lo em termos de estrutura.

Esse fato permite, por exemplo, dizer empiricamente de onde veio um vírus, ele fica marcado pelo tipo de população pela qual ele está circulando. Permite comparativamente ver se o que circula no Brasil por exemplo teve origem na Itália ou nos Estados Unidos, mesmo sem saber onde a pessoa se infectou. Isso quer dizer que temos de acompanhá-lo para não sermos surpreendidos por mudanças mais significativas que possam aumentar ou diminuir a virulência. E, nosso tempo epidêmico atual, representa um período muito curto, podemos ter surpresas.

‘Mandetta tem senso de responsabilidade’

No último dia 20 de março, o médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, que já tem o seu lugar reservado nos livros de história simplesmente por ser o ministro da Saúde no Brasil durante a pandemia de coronavírus, declarou que, se nada for feito, o SUS entrará em colapso em abril, quando se prevê o pico da doença no país. Embora Mandetta tenha mudado de discurso depois, a sua previsão, que num primeiro momento poderia soar apocalíptica, tem base na realidade, segundo o experiente médico sanitarista;

Ele aprova o alerta de Mandetta à população sobre as consequências assistenciais de uma epidemia como a do coronavirus, por seu caráter explosivo dada sua alta infectividade. “É uma realidade. Não mentiu nisso. Ele mostrou que tem senso de responsabilidade. Em primeiro lugar, o ministro tem que mostrar porque se não o fizer não consegue aportar recursos desse governo para o SUS”, ressalta.

Ele diz ainda que a situação prevista com as experiências já vividas por China, Itália, Espanha e outros países mostram que é necessário mobilizar a população para que a curva epidêmica se alongue, dando oportunidade para o desenvolvimento e aquisição de testes diagnósticos e outros insumos estratégicos, além de não sobrecarregar hospitais.

Mas a voz dele é insuficiente no inacreditável quadro brasileiro. Nesse sentido, ele precisa que a população o acompanhe para ter alguma influência dentro do governo, para não ficar isolado. E essa não foi ação de caráter político menor, não é uma ameaça. A verdade, como ela é, ajuda até para traçar estratégias corretas”, analisa.

‘Em menos de um ano não vai ter vacina’

O fato de o problema ter começado no final de dezembro e já estar nessa dimensão foi surpreendente, mas comparável com a pandemia de gripe espanhola de 1918. Muito do que se antecipa hoje se baseia na experiência de então, inclusive na repercussão econômica. E também, as estratégias vão acompanhando esse legado. Nós temos muitas medidas de controle. Desejamos muito uma vacina, mas ela leva tempo para ser feita, dependendo de diversos fatores. Em menos de um ano, não vai ter (vacina)”, antecipa o médico.

A duração da imunidade de quem já pegou uma doença é fator importante para a produção de vacinas. É longa, dura muitos anos? Apesar de já terem surgido algumas notícias dando conta de que uma mesma pessoa contraiu a Covid-19 duas vezes em curto espaço de tempo, ainda não há consenso sobre se o tipo de vírus foi o mesmo.

A maioria das doenças virais têm imunidade duradoura. Dengue não. Por isso, até hoje não se consegue vacina. Não é para qualquer coisa que você pode ter vacina. A imunidade duradoura é um elemento importante numa estratégia de longo prazo. No curto prazo, é menos importante, porque o que se busca é conter a epidemia”, explica.

Segundo ele, há uma fase de ataque, quando se concentra todos os esforços, fazendo uma varredura para controlar a situação. Depois tem a fase de consolidação e, em seguida, a da vigilância. “Nessa etapa, as operações de contenção e bloqueio, associadas à investigação epidemiológica dos casos, contribuem fortemente para a consolidação do controle efetivo. São mais ou menos essas as fases dentro de uma programação”, enumera o epidemiologista.

E se não tiver vacina, mas tiver medicamento? Nesse caso, o médico elucida que o fato de haver remédio “não diminui a transmissão”. “E nós ainda vamos ter um complicador: as pessoas vão ficar mais tempo no hospital sob tratamento. Por isso, o medicamento, mesmo eficiente individualmente, é paliativo no controle da situação epidêmica”, esclarece.

Vírus da Amazônia também pode espalhar pelo mundo

O problema do novo coronavírus começou no final de dezembro na China. Por conta disso, muitas pessoas, incluindo o presidente dos EUA, Donald Trump, o chamam de “vírus chinês”, nomenclatura considerada preconceituosa. Azeredo Costa lembra que países como o Brasil também têm o potencial de iniciar uma pandemia e que a China não forneceu ao mundo somente um vírus.

O Brasil tem, na Amazônia, a maior riqueza de vírus desconhecidos do mundo. De vírus conhecidos, catalogados, são centenas. De repente, daqui a pouco pode saltar um vírus da Amazônia e atingir o mundo todo. A pandemia de gripe ‘espanhola’, por exemplo, parece ter se originado no Kansas, sul dos Estados Unidos, em 1918.

Uma coisa que a China fez, fantástica no meu ponto de vista, foi imediatamente identificar e decodificar o vírus. Chegar ao RNA dele, que é encapsulado e mostrar fornecer para todo o mundo com todas as suas características. Eles são altamente tecnológicos e rápidos, ao ponto de, ainda na primeira quinzena de janeiro, terem distribuído todos os dados, em vez de segurarem para depois ficarem donos de alguma coisa como arma ou como uma maneira de ganhar dinheiro.

A China mostrou que lá existe um pensamento de solidariedade diferente. O que eles estão dando para a gente não é só um vírus, mas os métodos diagnósticos, material para desenvolvimento e modos diferentes de fazer as coisas que nos levam a refletir perante os nossos”, assegura.

* Entrevista concedida a Ana Helena Tavares, do blog ‘Quem Tem Medo da Democracia’, com edição de Rosayne Macedo.