Câncer de cabeça e pescoço pode ser confundido com amigdalite

Doenças têm como principais causas o tabagismo associado à ingestão de bebida alcoólica, além do HIV transmitido por sexo oral sem proteção

Dificuldade para engolir, rouquidão, uma íngua na região do pescoço e afta na boca. Quem nunca teve estes sintomas e atribuiu o incômodo a uma amigdalite? Mas estes sinais, facilmente confundidos com os de uma gripe, podem ser indícios de um problema muito mais grave – o câncer de cabeça e pescoço, um conjunto de doenças que têm origem na boca (cavidade oral), nariz (nasofaringe, cavidade nasal e seios paranasais), garganta (orofaringe, hipofaringe, laringe), tireoide e nas glândulas salivares

Julho Verde é o mês de conscientização e prevenção da doença, que pode ser evitada na maioria dos casos. No Brasil, este é o terceiro câncer mais frequente nos homens e nas mulheres (quando somados, o câncer de boca, garganta e glândula tireoide). Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), mais de 23 mil diagnósticos anuais de câncer de cabeça e do pescoço devem ser feitos no país no período 2020-2022.

“O câncer de cabeça e pescoço representa em torno de 3% de todos os tumores, de acordo com os dados do Inca e são mais comuns em homens. Esses tumores acometem as regiões em geral da cavidade oral, que são representados pelos lábios, pela língua, o assoalho da boca e a região do palato. Pode ser também nas regiões dos seios da face,  nos seios  maxilares, nos seios frontais e, nas regiões de faringe e laringe”, afirma o médico oncologista Gustavo Buscacio, do Hospital Adventista Silvestre.

A faringe é dividida em nasofaringe: região localizada atrás da cavidade nasal; a orofaringe, que envolve amígdala e base da língua e hipofaringe, que é a porção mais final da faringe. O que chamamos de laringe, é região de glotes. A grande maioria dos tumores de cabeça e pescoço acometem essa região de laringe, principalmente a glote.

Segundo o oncologista Gustavo Buscacio,  os sintomas estão relacionados diretamente com a região em que a doença está acometida. Mas os sintomas da região do pescoço,  na maioria das vezes, estão relacionados à região de cavidade oral, laringe e faringe.

“Considerando que esses tumores estão nessa região de cavidade oral, de faringe, laringe, muitas vezes são provocadas lesões ou feridas de cavidade oral, que geram dor, desconforto e isso pode, obviamente,  também atrapalhar a região que tenha relação com a alimentação e deglutição. E muitas das vezes quando acomete essa região da faringe e, principalmente da laringe, pode gerar alterações de voz, dificuldade na alimentação, dificuldade até para respiração”, completa o médico.

Maioria dos casos é causada pelo tabagismo

De acordo com especialistas, a incidência tem sido mais frequente por conta de uma mistura explosiva: o tabagismo e o consumo exagerado de bebidas alcóolicas, além da infecção crônica pelo vírus HPV (papilomavírus humano). Esse último, embora muito associado ao câncer de colo de útero, é também responsável por tumores na orofaringe (terço médio da faringe).

“A maior parte dos casos de câncer de cabeça e pescoço ainda está relacionada ao tabagismo, que aumenta em cerca de 7 a 10 vezes a chance de desenvolvimento da doença. Para quem fuma e bebe, principalmente destilados, esse risco é 35 vezes maior do que para a população não tabagista”, diz o oncologista Pedro de Marchi, do Hospital Marcos Moraes e do Grupo Oncoclínicas.

Os tumores relacionados ao tabagismo acometem mais homens do que mulheres, em uma proporção de 3 para cada 1, pacientes mais velhos (acima de 60 anos) e que frequentemente apresentam comorbidades relacionadas ao hábito de fumar.  Isso pode limitar o tratamento da doença, que é complexo e deve ter uma abordagem multidisciplinar. Além do oncologista clínico, do cirurgião e do rádio oncologista, são necessários outros especialistas, como cirurgião plástico, radiologista e  médico nuclear. Também devem fazer parte da equipe enfermeiros, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, nutricionista, entre outros.
“Em tumores avançados não é incomum o paciente necessitar de um tratamento que envolve cirurgia, radioterapia e tratamento sistêmico (quimioterapia, imunoterapia e/ou terapia-alvo. Muitas vezes acontecem efeitos colaterais severos que eventualmente deixam sequelas importantes. Por isso, é fundamental conscientizar a população em relação a importância de não fumar e também os sinais e sintomas de alerta relacionados à doença. Quanto antes um médico for procurado, maior é a chance de a doença ser diagnosticada em um estágio precoce”, diz o Dr. De Marchi.

Infecção por HPV associada ao sexo oral

Outro fator de risco que tem sido observado de forma mais recente é a associação com a infecção crônica pelo HPV – este último associado à prática do sexo oral. Os casos provocados pelo vírus têm aumentado nos últimos anos e acometem principalmente pacientes mais jovens e uma proporção maior de mulheres, como demonstram pesquisas internacionais.

“Esses tumores, apesar de serem agressivos, têm melhor prognóstico que aqueles relacionados ao tabagismo. A vacina contra o HPV já se mostrou eficaz em reduzir a prevalência da infecção crônica por HPV na boca e orofaringe e há expectativa de que a longo prazo ela seja capaz de diminuir a incidência e a mortalidade da doença, principalmente quando utilizada antes do início da vida sexual”, diz o oncologista Pedro de Marchi.
De acordo com o especialista, o HPV tem levado pacientes em uma faixa etária mais baixa a desenvolver câncer da orofaringe. Como ele é sexualmente transmissível, reduzir o número de parceiros é a melhor maneira de diminuir o risco de infecção, já que o uso de preservativo não protege totalmente contra o HPV durante o sexo. Por isso, a melhor forma de prevenção é evitar o tabagismo, o consumo de bebidas alcoólicas, utilizar o preservativo oral.

“O HPV é um vírus que hoje, felizmente, a gente pode  evitar a infecção com a vacinação que está bem estabelecida já no Brasil em campanhas de vacinação paras crianças antes de iniciar a vida sexualmente ativa.  No caso do diagnóstico, quanto mais precoce maior a chance de uma intervenção ser bem-sucedida e, como consequência,  a cura. Como resultado de um diagnóstico tardio, os tumores são mais avançados e, consequentemente, com desfechos piores tanto com relação a sequelas quanto a menor chance de cura”, explica.

Infecção pelo HPV também atinge os homens

Flávia Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer, diz que os cânceres de ânus (88%) e na cabeça e pescoço (31%) estão também associados ao HPV. As lesões diagnosticadas em estágios iniciais apresentam melhores prognósticos.  Já nos estágios avançados, a sobrevida tende a apresentar queda para menos de 50% em cinco anos.

Muitos ainda associam o HPV com o câncer de colo de útero. Ao contrário do que muitos imaginam, a infecção causa vários tipos de câncer também em indivíduos do sexo masculino”, afirma a médica, ao lembrar que, nos homens, 50% dos cânceres de pênis estão associados ao HPV.

Incluída no Programa Nacional de Imunizações (PNI) desde 2017 para meninos, a vacinação contra o HPV, que é gratuita nos postos de saúde, ficou bem abaixo dos 80% para eles, como estimado pelo próprio Ministério da Saúde.

“Essa baixa adesão é consequência da desinformação. Por isso, as armas para combater essas doenças são o esclarecimento e o aumento da cobertura da vacinação”, aponta Flávia, que é doutora em Saúde Pública pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira/Fiocruz.

Tratamentos têm evoluído nos últimos anos

De acordo com o oncologista David Pinheiro Cunha, sócio do Grupo SOnHe – Oncologia e Hematologia, nos últimos anos grandes avanços foram atingidos no tratamento da doença. “Basicamente, temos três formas de combater esse tipo de tumor: cirurgia, radioterapia e terapia sistêmica (quimioterapia, anticorpos monoclonais e imunoterapia).

Na cirurgia, a incorporação da cirurgia robótica possibilitou procedimentos menos invasivos e com menores sequelas. Na radioterapia, as novas técnicas trouxeram maior precisão de tratamento nas áreas acometidas pelo tumor, possibilitando maiores doses e poupando os tecidos e órgãos saudáveis. Na oncologia, tivemos a aprovação da imunoterapia para os pacientes com metástases ao início do tratamento. Estes medicamentos estimulam o sistema imune”, explica.

Evitar fatores de risco é principal forma de prevenção

Para reduzir as chances de desenvolver qualquer tipo de doença, segundo o oncologista,  é necessário evitar a exposição aos fatores de riscos. “Em alguns cânceres, os fatores para seu desenvolvimento não podem ser evitados, como é o caso da idade ou predisposição genética. Quando falamos do câncer de cabeça e pescoço, com exceção ao câncer de tireoide, os seus fatores de risco podem ser evitados como evitar o tabagismo e consumo excessivo de bebidas alcoólicas, usar preservativo durante o ato sexual, tomar a vacina contra o HPV, manter alimentação equilibrada e realizar higiene oral”, recomenda.

O mês de julho, passou a ser conhecido como Julho Verde e destaca a importância da prevenção, através de campanhas, ações e materiais informativos.

Depois de dois anos de pandemia, muitos casos de câncer que poderiam ter um diagnóstico precoce e, consequentemente, uma maior taxa de cura foram prejudicados. Com o surgimento da Covid-19, muitas pessoas deixaram de realizar os exames de rotina. É muito importante que as pessoas não deixem de realizar consultas e exames com regularidade. Um diagnóstico precoce ajuda na eficiência e nos bons resultados de qualquer tratamento.

Os tumores de cabeça e pescoço, em maior parte, possuem dois principais fatores de risco: o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas. Esses tumores são chamados de Carcinoma Epidermóide ou Carcinoma Escamoso.

Atenção aos principais sintomas

Fiquem alertas a sintomas que persistam, como: lesão ou ferida, alteração de boca, cavidade oral, caroço (ou aumento de volume) na região do pescoço, alteração de voz, rouquidão persistente, dificuldade na deglutição, dificuldade para a respiração, podem ser sinais e sintomas de alarme e que merecem uma avaliação. Dependendo da região afetada, um dentista ou um otorrinolaringologista devem ser procurados em primeira instância.

“Diante da suspeita e diagnóstico de um câncer da cabeça e pescoço, é importante essa avaliação com um médico, em geral, se a suspeita realmente existe, é indicado uma biópsia que pode ser feita de diversas formas, depende da localização da lesão. Alguns exames ajudam a entender a extensão do problema: os de imagem, eventualmente tomografias, ressonância ou outros métodos de imagem que possam ajudar a  extensão e envolvimento do tumor e, a partir desses exames e da biópsia é que se determina então o tratamento adequado”, explica o Dr. Gustavo Buscacio.

Em caso de diagnóstico positivo para a doença, é muito importante que a pessoa acometida tenha o apoio da família, de amigos, uma rede de suporte para que ela possa seguir esse caminho do diagnóstico, do tratamento, da melhor forma possível.

“Os pacientes devem sempre buscar as informações mais adequadas com o profissional médico. É importante procurar um atendimento médico para que se inicie todos os passos de exames e o tratamento adequado. Neste processo, deve-se manter uma boa alimentação e seguir todas as orientações médicas que foram passadas ao longo do caminho”, finaliza o oncologista.

Três fatores vilões responsáveis pelo surgimento do tumor

Vilões bem conhecidos da população, de acordo com Dr. David, são responsáveis pelo surgimento do câncer de cabeça e pescoço.  Em primeiro lugar, está o tabagismo. O cigarro é a maior causa evitável de morte no mundo e para o esse tipo de tumor não é diferente.

Segundo ele, as pessoas que fumam têm um risco que varia de 5 a 25 vezes maior do que os que não fumam de ter câncer. Em segundo lugar está o uso abusivo de bebidas alcoólicas. Este hábito pode aumentar o risco desse tipo de câncer em 5 a 6 vezes, a depender da quantidade ingerida durante a vida.

“Quando associado ao tabagismo, o risco aumenta ainda mais. E, em terceiro lugar, mas cada vez mais importante, está a infecção pelo HPV. É o mesmo vírus que pode causar o câncer de colo de útero, vagina, vulva, anus e pênis.  Sua relação é mais importante com o câncer de orofaringe (garganta), sendo o subtipo HPV 16 o maior vilão”, explica o especialista.

Dr David ainda reforça que o câncer relacionado com o HPV apresenta algumas diferenças comparado aos relacionados ao cigarro e bebidas alcoólicas.

“Geralmente ocorre em pessoas mais jovens, os tumores primários são menores e apresentam maiores chances de cura. Uma das formas de contaminação é o sexo oral desprotegido, por isso a importância do uso de preservativo durante essa prática sexual. Outra forma de prevenção é a vacinação.  No Brasil, as indicações para a vacinação pelo Ministério da Saúde são para meninas de 9 a 14 anos e para meninos de 11 a 14”, recomenda.

O médico oncologista Pedro Ismael, do Centro de Terapia Oncológica (CTO),  diz que esse tipo de câncer atinge mais homens do que mulheres e é mais incidente no público com mais de 60 anos. Ele explica também que, além do cigarro e do álcool, o câncer de cabeça e pescoço também pode ser provocado pelo vírus HPV, que é transmitido por meio de relações sexuais.

“Assim como existe o Outubro Rosa, de prevenção ao câncer de mama, e o Novembro Azul, de prevenção ao câncer de próstata, é importante chamar atenção para as neoplasias de cabeça e pescoço. É preciso que os pacientes prestem atenção nos sintomas, como rouquidão, feridas na boca persistentes, emagrecimento sem causa aparente, dificuldade para engolir. São sintomas clínicos que, muitas vezes, o paciente sendo atendido por um profissional da área de saúde será encaminhado para um tratamento adequado que, se identificado de forma inicial, é curativo”, afirma Pedro Ismael.

Quando o câncer de cabeça e pescoço é identificado, o oncologista explica que  o tratamento consiste em cirurgia ou radioterapia associada à quimioterapia e imunoterapia. “Quanto mais cedo detectar a doença, maior a chance de cura”, diz o médico. Para evitar esse tipo de câncer, é preciso, segundo o médico, não fumar e evitar o consumo em excesso de bebidas alcoólicas, além de tomar a vacina contra o HPV e usar preservativo nas relações sexuais para não correr o risco de contrair o vírus.

Com Assessorias

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