Câncer de pulmão mata mais do que a Covid-19

Índices de morte pelo novo coronavírus variam entre 6% a 10% acima de 80 anos e chegam a 99% para pacientes de câncer de pulmão de qualquer idade

Redação

A relação entre cigarro e Covid-19 – tema do Dia Mundial Sem Tabaco deste ano – é recente e se soma a uma “coleção” de doenças provocadas pelo tabagismo. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o consumo de derivados do tabaco causa quase 50 doenças crônicas, principalmente as cardiovasculares (infarto, angina), o câncer e as doenças respiratórias obstrutivas crônicas (enfisema e bronquite).

As doenças cardiovasculares e o câncer são as principais causas de morte por doença no Brasil, e o câncer de pulmão, a primeira causa, atingindo cerca de 2,1 milhões pessoas no mundo. No Brasil, o número de novos casos em 2020 pode chegar a mais de 30 mil, de acordo com dados do Inca.

Pessoas fumantes têm de 20 a 30 vezes mais chances de desenvolver o câncer de pulmão, segundo tumor mais comum em homens e mulheres no Brasil, excluindo o câncer de pele não melanoma, tanto em incidência quanto em mortalidade. Segundo dados, de 80 a 90% dos casos diagnosticados da doença está associado ao consumo de derivados de tabaco. Isso significa que pelo menos oito a cada 10 pacientes com câncer de pulmão já fumaram ou fumam.

Vale lembrar que em 2019, o câncer de pulmão foi o tema do Dia Mundial Sem TabacoNa ocasião, a jornalista Rosayne Macedo, editora-chefe do ViDA & Ação, ex-fumante há mais de 20 anos, foi convidada para mediar uma mesa de debates sobre o tema na sede do Inca.

O encontro contou com a presença de importantes especialistas sobre o assunto e trouxe à tona uma série de medidas que precisam ser tomadas para enfrentar esse grave problema de saúde pública, que expõe ao risco milhares de brasileiros.

Alerta para alta letalidade do câncer de pulmão

Especialista em câncer de pulmão, Ramon Andrade de Mello, médico oncologista, professor da disciplina de oncologia clínica da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e da Escola de Medicina da Universidade do Algarve (Portugal), faz um alerta:

A preocupação com a Covid-19 não pode substituir o diagnóstico e o tratamento contra o câncer. Em alguns casos, a letalidade dos tumores oncológicos são muito superiores ao da pandemia do novo coronavírus”, alerta.

O pesquisador compara os estudos entre a Covid-19 e o câncer de pulmão. No primeiro caso, os índices de morte variam entre 6% a 10% nas pessoas acima de 80 anos. Por outro lado, é de 99% a letalidade para pacientes de qualquer idade sem diagnóstico e tratamento adequados do câncer de pulmão. “Por isso, é imprescindível que o sistema de saúde não interrompa o diagnóstico e o tratamento dos pacientes diante dessa pandemia. Os pacientes oncológicos também são casos de emergência”, alerta o professor da Unifesp.

Em algumas situações, o paciente pode ser acompanhado por um sistema de telemedicina. “Cada caso é um caso, e cabe ao profissional que acompanha esse paciente a decisão de um atendimento presencial ou por outro meio”, explica o médico oncologista. Ele ressalta ainda a importância do isolamento social e cuidados no cotidiano para evitar aglomerações e infecções. “A pessoa em tratamento deve tomar cuidado redobrado e os familiares podem contribuir muito seguindo as orientações médicas para alcançar os resultados positivos do tratamento”, esclarece.

Risco em quem fuma aumenta em até 20 vezes

Um dos tipos de tumores mais comuns na população brasileira, o câncer de pulmão se tornou frequente graças ao tabagismo. Artur Ferreiraoncologista do Centro de Oncologia do Hospital 9 de Julho, explica que fumar aumenta em até 20 vezes as chances de desenvolver a doença. “Esse é o tipo de câncer que mais causa óbito no mundo e ações como parar de fumar podem ser determinantes para evitar a doença”, ressalta.

Existem dois grupos de alto risco para esse tipo de câncer. Pessoas entre 55 e 74 anos que fumam há 30 anos um maço por dia mesmo se a interrupção tiver ocorrido há 15 anos. O outro perfil são pacientes com 50 anos ou mais com histórico de tabagismo (um maço por dia por 20 anos seguidos) e mais um fator de risco associado, câncer de pulmão prévio, história familiar positiva ou exposição ocupacional. “Não são apenas fumantes que podem ter a doença, mas a incidência é maior nesse grupo de pessoas” alerta o médico.

Por ser assintomático, alguns pacientes podem perceber a doença só em estágios mais avançados, mas é importante ficar atento aos sinais. Com mais de 1,82 milhão de casos, a doença pode ser assintomática e se espalhar rapidamente pelo corpo. Entre os sintomas do câncer de pulmão, estão a tosse persistente, escarro com sangue e dor no peito. Os pacientes podem apresentar ainda rouquidão, falta de ar, perda de peso e de apetite, além de pneumonia recorrente ou bronquite.
pulmão é responsável por nos auxiliar durante a respiração. Quando algo não está bem, o corpo vai enviando sinais e a tosse é uma delas. Ela é comumente seca e pode durar semanas. No caso dos fumantes, a tosse pode se agravar. Já a falta de ar é um sinal de alerta importante porque representa a piora progressiva da capacidade de desenvolver atividades normais e ficar sem fôlego, principalmente no caso dos fumantes”, explica.
Para esses casos, é indicada a realização de exames anuais para rastreamento de eventuais tumores no pulmão. “Nós normalmente avaliamos lesões por meio de uma tomografia de baixa dose (TBD), que é feita sem o uso de contraste e com exposição a baixos níveis de radiação”.

Formas de tratamento

A letalidade dos casos de câncer de pulmão é bastante elevada, mas há esperança. “O tabagismo reponde por 85% das causas da doença e, nos estágios iniciais, há grande possibilidade de cura”, esclarece Ramon Andrade de MelloSegundo ele, a visita periódica ao médico é uma das maneiras de diagnosticar precocemente a doença, aumentando as chances de tratamento com resultados positivos”, explica o professor da Unifesp.

O tratamento desse tumor depende do tipo histológico e do estágio da doença. “O paciente pode ser tratado com cirurgia, quimioterapia ou radioterapia, dependendo do diagnóstico. Podemos ainda combinar modalidade de tratamento”, afirma o oncologista.

Segundo o especialista, nos casos da doença localizada e sem linfonodo, o tratamento pode ser cirúrgico, seguido ou não de quimioterapia e/ou radioterapia. Nos diagnósticos da doença localizada no pulmão e nos linfonodos, o tratamento é feito com radioterapia e quimioterapia ao mesmo tempo.

Nos diagnósticos com metástases, o tratamento pode ser com quimioterapia ou até mesmo com medicação baseada em terapia-alvo. A equipe médica é que melhor pode definir o tratamento de acordo com cada caso”, aponta o médico oncologista.

Novo medicamento aprovado pela Anvisa

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no final de abril o primeiro tratamento para pacientes adultos com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) avançado que apresentam a alteração genética do ALK e já não respondem adequadamente às terapias-alvo de primeira e segunda geração utilizadas para essa mutação.
Já aprovado nos Estados Unidos e na União Europeia, lorlatinibe é um potente inibidor de tirosina quinase de terceira geração. Primeira e única terapia alvo para pacientes que tiveram progressão do câncer de pulmão associado ao ALK mesmo após a utilização de inibidores de quinase de segunda geração, lorlatinibe foi desenvolvido para atuar nas mutações das quais os medicamentos anteriores poderiam apresentar alguma resistência.
A aprovação de lorlatinibe no Brasil é um grande avanço no tratamento do câncer de pulmão positivo para ALK e representa uma esperança para esses pacientes, que até então não contavam com opções específicas e eficazes de tratamento depois que os inibidores de tirosina quinase de primeira e segunda linha fracassavam”, afirmou Márjori Dulcine, diretora médica da Pfizer, que fabrica o Lorbrena (lorlatinibe) ao comemorar a liberação pela Anvisa.
Segundo ela, nos estudos clínicos, se mostrou capaz de proporcionar alívio dos sintomas, redução dos tumores e aumento da sobrevida livre de progressão da doença.  A taxa de resposta dos tumores ao lorlatinibe é um ponto de destaque, sem dúvida. Mas esses pacientes também tiveram o alívio de sintomas associados ao câncer de pulmão, o que se reflete em uma melhora no bem-estar físico, emocional e social. Isso significa que, além de prolongar a vida, estamos contribuindo para que essas pessoas possam viver melhor”, comenta Márjori.
Nos Estados Unidos, o lorlatinibe foi licenciado pelo programa de aprovação acelerada da Food and Drug Administration (FDA) a partir dos resultados positivos nos estudos clínicos com o medicamento. Pacientes que receberam lorlatinibe após o tratamento com inibidores de quinase de primeira e segunda geração experimentaram uma taxa mínima de sobrevida livre de progressão da doença de 5,5 meses. Além disso, em 48% dos casos, verificou-se a redução parcial ou total dos tumores.

Desafios à Medicina

Apesar dos avanços no tratamento, o câncer de pulmão ainda é o tipo de neoplasia que mais provoca mortes em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Para o Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta um total de 30 mil casos novos da doença por ano para o biênio 2020-2022. Só no ano de 2017, cerca de 27.929 brasileiros morreram em decorrência do tumor.

A falta de conhecimento sobre o câncer de pulmão representa um desafio significativo no combate à doença. Na América Latina, por exemplo, a desinformação a respeito das causas e sintomas da doença contribui para a demora na identificação do tumor: cerca de 85% desses pacientes são diagnosticados em estágios tardios, o que dificulta o tratamento.
Um outro desafio em relação ao câncer de pulmão é a questão do estigma. Como grande parte dos casos está associada ao cigarro, muitas vezes existe um olhar de culpa e desconfiança que pesa sobre esse paciente, mesmo quando ele não fuma”, disse Márjori. Cerca de 36% dos tumores pulmonares não estão associados ao fumo e se devem a fatores como poluição do ar, exposições ocupacionais ou mutações genéticas específicas.

As estatísticas a respeito da sobrevida em pacientes com câncer de pulmão variam conforme o estadiamento da doença no momento do diagnóstico. Apesar de o prognóstico para o câncer de pulmão não ser otimista, com o avanço das pesquisas na área de Oncologia, a exemplo da evolução dos tratamentos baseados em terapia-alvo, o combate à doença está mudando.

Hoje, temos uma compreensão melhor das características de cada tipo de câncer de pulmão e podemos tratar a doença de forma mais personalizada. Lorlatinibe é um reflexo dos esforços destinados ao tratamento do câncer de pulmão positivo para ALK, que incluem uma série de desafios, como a resistência e propagação do tumor para o cérebro. Nesse sentido, o medicamento supre uma importante necessidade não atendida dos pacientes”, conclui Márjori.

Estudo em pacientes não fumantes

Dr Ramon é responsável no Brasil por um estudo pioneiro no país vai sequenciar o código genético dos pacientes não fumantes brasileiros acometidos por câncer de pulmão. O trabalho quer identificar os fatores de risco dessa população e deve começar ainda no primeiro semestre de 2020. A iniciativa nasceu a partir de uma demanda do NCI (National Cancer Institute, Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos) e deve ser realizado em parceria com uma instituição dos EUA.

oncologista tem liderado pesquisas similares em Portugal, país que já realiza estudos sobre o assunto há mais de dez anos. Segundo ele, mais de 400 portugueses já tiveram a análise de genes. “Essa pesquisa é muito importante para identificar o melhor tratamento para muitos casos da doença, assim como os medicamentos mais indicados. O sequenciamento genético é um instrumento cada vez mais aplicado tanto no diagnóstico como no tratamento do câncer em todo o mundo. Vamos dar um passo muito importante no tratamento da doença no Brasil”, esclarece o professor da Unifesp.

Com Assessorias

Fonte Inca