Candidatas nas eleições 2020 são alvos de ataques em redes sociais

Candidatas a prefeitas ou vereadores, políticas recebem mais de 40 xingamentos por dia no Twitter, segundo estudo divulgado durante a campanha

Redação
Benedita da Silva, candidata à Prefeitura do Rio. é vítima de ataques de machistas e racistas nas redes (Foto: Reprodução do Facebook)

O monitoramento dos perfis de 123 candidatas às prefeituras e câmaras de vereadores nas eleições municipais de 2020 no Twitter registrou quase 11.000 tuítes com termos ofensivos em apenas um mês. Ao menos 1,2 mil deles eram xingamentos direcionados diretamente às candidatas, que geralmente apelam a estereótipos relacionados ao corpo, à sexualidade, à estética e à beleza. 

“Comunista” – expressão usada amplamente como uma espécie de ‘xingamento’ por bolsominions, sem a devida legenda – é a palavra que mais aparece, seguida de ‘Peppa’, uma referência à Peppa Pig, a simpática porquinha de uma popular série de desenho animado, num claro sinal de piada (só que sem a menor) gordofóbica. Logo depois, vêm as palavras “porca”, “burra” e “ridícula”. Quanta falta de civilidade, senhores eleitores (ou bots)!

Ao todo, foram identificados 93 mil tuítes com referência às candidatas monitoradas. Entre as 10 candidatas mais atacadas, estão três das 35 postulantes a prefeita monitoradas em levantamento realizado pelo Instituto AzMina, junto ao InternetLab e em parceria com o Instituto Update. A maioria dos tuítes ofensivos à Joice Hasselmann (PSL), candidata à prefeitura de São Paulo, caracterizava gordofobia. 

À segunda colocada no ranking, Manuela D’Ávila (PCdoB), em Porto Alegre, foram direcionados termos ofensivos como bandida e hipócrita, além de descredibilização por sua filiação partidária. Logo na sequência, está Benedita da Silva (PT), no Rio de Janeiro, alvo, principalmente, de racismo e machismo. Há ainda candidaturas que são alvo de comentários transfóbicos, como é o caso da co-deputada Érika Hilton, que disputa uma vaga na Câmara de São Paulo. 

Estes são alguns dos resultados do primeiro levantamento do MonitorA – ferramenta desenvolvida para avaliar o fenômeno da violência e do discurso de ódio contra as mulheres no âmbito da disputa política e de sua intensidade no ambiente virtual. O estudo foi apresentado na última quinta-feira (5/11).

Na primeira fase do observatório político de gênero, entre 27 de setembro e 27 de outubro, o MonitorA analisou os comentários no Twitter de candidatas de nove partidos políticos, de diferentes espectros ideológicos, que concorrem a cargos de vereadoras, prefeitas e vice-prefeitas, em cinco estados: São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pará e Santa Catarina, além das candidatas às prefeituras dos municípios de Rio de Janeiro e Porto Alegre

Para efeito de análise, foram considerados somente os tuítes que geraram engajamento (like e/ou retweet), um total de 1,2 mil postagens com xingamentos ou cerca de 40 por dia. Os termos ofensivos foram classificados de acordo com os atributos a que se referiam, como ofensa moral, intelectual, aparência física, descrédito (desmerecimento), gordofobia e transfobia, entre outros. 

Os resultados do levantamento serão fundamentais para a compreensão do papel das redes sociais no processo eleitoral e sobre o quanto questões de gênero, classe, raça e sexualidade perpassam o debate político e como influenciam a percepção de candidatos e eleitores. “Com este monitoramento, nosso propósito é contribuir para a discussão da violência de gênero em termos de políticas públicas e privadas nas redes sociais”, afirma Bárbara Libório, gerente de projetos no Instituto AzMina. 

Esse projeto vai dar acesso ao cotidiano de campanhas online de mulheres e ajudar a compreender os contornos das violências que ocorrem, tendo em vista inclusive que as mulheres são múltiplas”, acrescenta Mariana Valente, diretora do InternetLab.

Diversidade de raça, gênero, sexualidade e religião

A composição da amostra do MonitorA procurou contemplar também a multiplicidade no que diz respeito aos marcadores sociais (como raça, gênero, sexualidade, classe social). O monitoramento inclui mulheres negras, brancas, indígenas, heterossexuais, lésbicas, bissexuais, religiosas, cissexuais e transexuais, entre outras.

Essa diversidade possibilita analisar o direcionamento das agressões às mulheres e a existência de padrões de acordo com as variáveis ideológicas ou identitárias. O monitoramento ainda seguirá durante toda a campanha eleitoral, no primeiro e segundo turno, e deverá contemplar também outras redes sociais como Instagram e YouTube.

A ferramenta de análises de dados desses dados foi desenvolvida pela empresa Volt Data Lab. O MonitorA conta também com a parceria de veículos locais dos estados monitorados: Marco Zero Conteúdo),  BHAZ, Amazônia Real, Portal Catarinas  e Agência Mural, que produzirão conteúdo sobre seus respectivos locais de atuação. 

AzMina é um instituto sem fins lucrativos que combate os diversos tipos de violência que atingem mulheres brasileiras. Além de uma revista digital e um app de enfrentamento à violência doméstica, produz uma ferramenta de monitoramento dos direitos das mulheres no Congresso Nacional, além de campanhas para combater a violência contra a mulher no Brasil.

Já o InternetLab é um centro de pesquisa em direito e tecnologia que desenvolve pesquisas em temas de direitos humanos e tecnologia, orientadas a políticas públicas. Os trabalhos sobre o tema de violência de gênero na internet, bem como mulheres e privacidade e ativismo feminista, são publicados em forma de livros, relatórios, artigos e guias.