Chance de ter infarto é maior em dias de Copa do Mundo

Aos fanáticos por futebol, cardíacos e hipertensos ou não, especialistas recomendam exames preventivos, evitar consumir bebida alcóolica e comida muito gordurosa

Redação
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As oitavas de final do Mundial da França, em 1998, fizeram muitos corações sofrerem, sobretudo os dos ingleses. O jogo entre Inglaterra e Argentina terminou em 2 a 2 e foi para os pênaltis, com a vitória dos hermanos por 4 a 3. Uma pesquisa publicada pelo periódico científico Bristish Medical Journal mostrou que houve um aumento de 25% no número de internações por infarto agudo do miocárdio no dia da derrota e nos dois seguintes na terra de Shakespeare.

A conclusão do estudo sugere que uma baita chateação emocional, como assistir ao seu time do peito perder uma partida importante, pode ser o gatilho para um ataque cardíaco. E nem precisa de uma emocionante final de Copa do Mundo para tanto. No último dia 27 de maio, na emocionante vitória de virada do Internacional-RS sobre o Corinthians por 2 a 1, pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, foram registrados, no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, um infarto de um torcedor e uma parada cardíaca de outro.

A Copa do Mundo da Rússia, que começa nesta quinta-feira (14), acende o alerta para os fanáticos por futebol, que costumam ficar tensos quando a seleção brasileira de futebol entra em campo durante os jogos do Mundial.  Mas por que a chance de ocorrer um infarto durante uma partida da Copa do Mundo é maior do que em um “dia normal”? O cardiologista Cláudio Tinoco Mesquita explica que estresse físico ou emocional pode precipitar o infarto agudo do miocárdio. 

Esses dados dão suporte à hipótese de que reações emocionais intensas associadas aos jogos de futebol podem desencadear infarto do miocárdio. Assim, todos os esforços devem ser feitos para que os indivíduos tenham uma vida saudável, corrijam os fatores de risco cardiovascular, como sedentarismo, hipertensão, diabetes e colesterol elevado, e reduzam a ansiedade associada a torcer pela seleção ou por seu time de coração”, ressalta Cláudio.

De acordo com Helio Castello, cardiologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o fato se deve provavelmente pelo aumento súbito da carga de estresse, que causa maior liberação de substâncias que desencadeiam aumento nos níveis de pressão arterial, maior frequência cardíaca e consequentemente maior força de trabalho do coração e, portanto, maior consumo de oxigeno pelo músculo cardíaco. Desta maneira, pacientes que previamente apresentam obstruções coronárias, predisposição para arritmias ou hipertensão, disparariam um gatilho que causaria uma emergência cardiovascular.

O especialista alerta que, mesmo em dias de jogos, os torcedores com problemas cardiovasculares e os hipertensos não devem deixar de tomar a medicação prescrita pelo seu médico. “Em dia de jogo, é comum reunir amigos e familiares, consumir alimentos ricos em açúcares e gorduras, muitas vezes acompanhados de bebida alcoólica. A euforia da partida não pode ser pretexto para o paciente deixar de tomar sua medicação e descuidar da saúde”, afirma Castello.

Pesquisas científicas comprovam riscos

A pesquisa realizada durante a Copa do Mundo na França em 1998 foi uma das primeiras evidências científicas a fazer essa relação entre a ocorrência de infarto e o estresse de um evento como o mundial de futebol. Uma série de estudos atestam o crescimento do número de casos durante a realização de Copas do Mundo. Em 2008, Ute Wilbert-Lampen e colaboradores publicaram noNew England Journal of Medicine uma avaliação prospectiva dos eventos médicos de emergência da área metropolitana de Munique durante a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006.

O grupo de pesquisadores avaliou a incidência de emergências cardíacas em hospitais de Munique, nos dias de partidas da seleção alemã, e comparou com os mesmos períodos em anos anteriores, que não aconteceram o campeonato. Os dados mostraram que nos dias de jogos da seleção da Alemanha, a incidência de pacientes em emergências cardíacas nos hospitais foi aproximadamente três vezes maior, sendo os diagnósticos mais comuns o infarto do miocárdio, angina instável, hipertensão arterial e arritmias cardíacas.

A incidência de emergências cardíacas foi 2,66 vezes maior do que durante o período de controle – nos homens, a incidência foi 3,26 vezes maior, e, nas mulheres, 1,82 maior no mesmo período. O mesmo quadro, segundo os pesquisadores, também foi visto em outros países em situações distintas de estresse da população, tais como terremotos e outras grandes catástrofes.

Em 2013, Daniel Guilherme Suzuki Borges e colaboradores publicaram nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia resultados similares aos anteriores, analisando os registros do Sistema Único de Saúde brasileiro. Os autores observaram um aumento de 16% na incidência de infarto do miocárdio nos dias de jogos da seleção brasileira de futebol. Na Copa do Mundo de 2014, houve dois casos de paradas cardíacas: no empate em 1 a 1 entre Chile e Brasil (que se classificou nos pênaltis para as quartas de final) e na vitória da Argentina sobre a Suíça por 1 a 0, também pelas oitavas de final, com um gol de Di Maria a dois minutos do fim da prorrogação.

Combinação perigosa com churrasco e bebida alcóolica

O cardiologista Marcelo Franken, que é gerente médico do Programa de Cardiologia do Hospital Albert Einstein, lembra que dias de jogos do Brasil acabam se tornando uma oportunidade para as pessoas se reunirem em confraternizações à base de churrasco e bebida alcoólica. “Essa combinação frequente pode levar ao aumento do risco cardiovascular”, alerta.

Sem falar no já citado nervosismo que toma conta de alguns torcedores mais passionais, o consumo além da conta de sal também entra na jogada. O ingrediente é encontrado em pitadas generosas nos alimentos processados, a exemplo de embutidos como linguiça, mortadela, presunto, alguns queijos e, dependendo das escolhas do churrasqueiro, na carne que vai ser assada.

A ingestão em excesso de fontes do condimento pode contribuir para quadros de pressão alta ou dificultar seu controle em quem já é hipertenso. Além disso, embutidos e certos cortes de carne, como a picanha, são ricos em gordura, nutriente que, consumido acima do recomendado, eleva as taxas de colesterol, favorecendo o entupimento das artérias.

Comemorar a vitória do Brasil com vários drinques ou cervejas a mais é outra forma de marcar gol contra a saúde cardíaca. “O primeiro efeito do álcool é estimulante”, explica Marcelo Franken. “Ele libera a circulação de adrenalina e outras catecolaminas.” Esses compostos aceleram a atividade do coração, aumentando o risco de arritmia. “Depois, o álcool age como depressor, dando sono”, completa. De acordo com o cardiologista, existe até um termo médico em inglês, holiday heart syndrome, que é a ocorrência de arritmias após a ingestão de bebidas alcóolicas em altas doses.

Já que o assunto é bebida alcoólica, misturá-la com energético é outro fator que predispõe a arritmias, principalmente nas pessoas que têm doença cardiovascular. Isso porque a cafeína encontrada nesse tipo de produto é outro estimulante. Ou seja, a probabilidade de acontecer um descompasso no ritmo do coração é ainda maior. “É uma coisa a mais a se evitar”, aconselha Franken.

Infartos são mais frequentes no inverno

“Outra coisa importante para o Brasil é que o Mundial acontece no inverno, e os infartos ocorrem com maior frequência nessa estação”, diz o especialista. Foi o que revelou uma pesquisa do Einstein liderada pelo cardiologista Eduardo Pesaro. Entre junho e agosto, meses marcados por temperaturas mais amenas, as internações nos hospitais públicos da cidade de São Paulo por infarto chegam a ser 16% maiores do que no verão. Um dos motivos é que o frio faz os vasos se contraírem e eleva a liberação de adrenalina. Com isso, a pressão arterial sobe. Além disso, nossas casas em geral não têm calefação.

Ao ver o bate-bola na TV, muita gente volta a praticar o esporte, nem que seja de forma recreativa. “É o campeonato da empresa, a pelada entre amigos antes de assistir ao jogo do Brasil”, descreve Franken. O problema é voltar a jogar futebol de uma hora para outra, sem condicionamento, o que também é perigoso para o coração. São os famosos atletas de fim de semana, que ainda por cima ficam suscetíveis a lesões ortopédicas devido à falta de preparo físico. Voltar aos campos sem pressa, regularmente e sob orientação especializada é o melhor lance.

Dicas para curtir a Copa sem sustos

Será que o torcedor está preparado para assistir aos jogos sem correr riscos? Quem deve se submeter a exames preventivos do coração? O que se deve comer e beber durante as partidas? Que outras medidas devem ser tomadas antes e durante a disputa do Campeonato Mundial de Futebol?

Para responder a essas dúvidas, um grupo de médicos do Hospital Pró-Cardíaco, de Botafogo, preparou uma série de recomendações sobre o que fazer para minimizar as chances de algum problema no coração ao acompanhar os jogos, como a realização de um checkup preventivo. Mas sem dúvida, para curtir o Mundial sem sustos, o ideal é não exagerar, evitar alimentação muito calórica e excesso de bebidas alcoólicas. Isso vale para as pessoas que têm risco cardíaco ou não.

Na hora de preparar o churrasco, prefira cortes magros, como alcatra e maminha. Há quem recomende cortar as porções com gordura antes do preparo. Outra dica é preferir o consumo de bacon vegano no lugar de alimentos processados, por exemplo. Em vez de carregar no sal, opte por alho e alecrim. Evite também conservas, que são cheias de sódio. Modere no álcool. E não abuse à mesa. Refeições fartas são outro gatilho para infarto, afirmam os especialistas.

Quais exames realizar e quem deve fazê-los?

A cardiologista Eliane Magalhães destaca que a competição é uma ótima oportunidade para se colocar a saúde cardiovascular em dia. E não apenas para quem possui algum fator de risco. Ela sugere a realização de um checkup com avaliação clínica e cardiológica, exame físico completo, exames laboratoriais e um eletrocardiograma.

Quem já tem problemas cardíacos ou pressão alta deve procurar o seu médico para verificar se sua condição clínica está controlada ou necessita de alguma orientação adicional. Mas indivíduos sem sintomas também precisam avaliar se apresentam quadros de hipertensão arterial, diabetes e dislipidemias, entre outros, especialmente se houver na história familiar casos de doenças do coração”, destaca Eliane. 

O que se pode comer e beber e o que evitar?

Boa alimentação é uma recomendação para melhorar a qualidade de vida e a saúde de todas as pessoas. Diante do estresse causado pelos momentos de tensão das partidas de futebol, a nutricionista Jacqueline Farret aconselha evitar o consumo exagerado de bebidas alcoólicas (principalmente associadas a energéticos) e de alimentos processados, salgados e gordurosos.

Segundo ela, “o ideal é consumir petiscos mais naturais, como pipoca feita na panela, mix de oleaginosas (castanhas, nozes e amêndoas) com moderação, temperos à base de ervas que não levam sódio e até o bacon vegano. Algumas boas opções para apurar o sabor são usar páprica doce ou gengibre, que têm efeito termogênico, cúrcuma ou açafrão, que têm ação anti-inflamatória, ou curry, que é um mix de temperos.”

Que outras medidas preventivas podem ser tomadas?

Com a experiência de ter sido médico da seleção brasileira de futebol em mais de uma Copa do Mundo, o cardiologista Ricardo Vivacqua, especialista em medicina esportiva, atesta que as fortes emoções vividas pelos torcedores são universais. Ele faz orientações específicas para dois grupos de risco.

Pessoas que possuem problemas cardiovasculares devem seguir as recomendações de seus médicos tanto em relação aos medicamentos quanto às regras de conduta para prevenir complicações. E pessoas sedentárias devem começar o quanto antes a realizar caminhadas diárias de, no mínimo, 30 minutos. Isso vai colaborar para sua performance aeróbica”, indica Ricardo.

Da Redação, com Assessorias

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