CFM recomenda cirurgias bariátricas durante pandemia

Especialistas alertam que retardo no tratamento cirúrgico de pacientes com obesidade severa pode aumentar risco de morte em caso de Covid-19

Redação

Para evitar a transmissão da Covid-19 no ambiente hospitalar e manter leitos livres para atender os pacientes infectados pelo novo coronavírus, o Ministério da Saúde suspendeu em meados de março as cirurgias eletivas, que não são consideradas de urgência ou emergências. As orientações levam em conta também a realidade local no que se refere à taxa de infecção da população e taxa de ocupação hospitalar. Mas nem todas as cirurgias eletivas precisam ser suspensas. É o caso das cirurgias bariátricas, para aqueles que sofrem de obesidade severa.

Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou no dia 21 de maio a Recomendação Nº 1/2020 (acesse aqui) que dispõe sobre a continuidade das cirurgias bariátricas e metabólicas eletivas no período da pandemia da Covid-19 nos estados em que não houver determinação contrária do Conselho Regional. Na decisão, o órgão colegiado considerou que pacientes portadores de doenças graves e ou/crônicas como a obesidade e o diabetes precisam de tratamento e que a sua postergação pode resultar no aumento da morbidade e da mortalidade.

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) alertou para o fato que o retardo no tratamento cirúrgico de pacientes com obesidade clinicamente severa, principalmente dos que possuem comorbidades como diabetes tipo 2, hipertensão e problemas respiratórios – com indicação cirúrgica – pode resultar em aumento da morbi-mortalidade decorrente do Covid19 caso estes pacientes venham a contrair o vírus. Esta afirmação vem sendo documentada e divulgada em diferentes países no que se refere a redução das chances de sobrevivência para estes pacientes.

Doenças crônicas como obesidade, diabetes e hipertensão são tratadas com efetividade com a cirurgia bariátrica ou metabólica. E esses problemas mostram-se os principais fatores de risco para as formas graves do novo coronavírus e que inclui internamento em UTI e mortalidade da síndrome respiratória aguda grave. Além de todas as doenças e complicações que são evitadas com a perda de peso, podemos somar agora as gravíssimas consequências da Covid19″, explica o médico e cirurgião, Marcos Leão Vilas Boas, presidente da SBCBM.

Segundo Thomas Szego, um dos precursores da cirurgia bariátrica no Brasil e ex-presidente da SBCBM, a posição do CFM é importante para dar respaldo ao reinício das cirurgias bariátricas e metabólicas no país, uma vez que os pacientes que aguardam a operação apresentam risco aumentado diante doenças infecciosas como a Covid-19.

Fica muito claro que isso deve ser feito em comum acordo entre o médico e o paciente em instituições que tenham condições de manter a segurança da sua equipe médica, paciente e família. As instituições devem ter fluxo COVID FREE – sem risco de contaminação – feito com todo o cuidado e responsabilidade. É importante que adiantemos o tratamento desses pacientes, dando preferência aos pacientes mais urgentes, mas todos aqueles que aguardam podem ser operados seguindo as regras de segurança que foram descritas”, explica Szego.

Recomendações para cirurgias bariátricas e metabólicas

As cirurgias bariátrica e metabólicas devem ser feitas, preferencialmente, em instituições que tenham fluxo de atendimento independente do atendimento aos casos de Covid 19, com salas cirúrgicas isoladas e ambiente controlado. Segundo o relator Leonardo Emílio da Silva, paralelo aos casos de infecção pelo novo coronavírus existem doenças que elevam o índice de morbidez no Brasil, em particular a obesidade e o diabetes.

O conselheiro levou em consideração os números da última Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) que apontou que 55,7% da população adulta no país tem excesso de peso e que 19,8% é obesa; e os dados do 16º Boletim Epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde que aponta o diabetes como quarta principal causa de morte em homens e a terceira causa em mulheres.

As cirurgias bariátricas e metabólicas não são o último recurso para o tratamento dessas enfermidades crônicas, progressivas e letais, mas sim os mais eficazes, duradouros e seguros quando há falha do tratamento clínico. A tomada de decisão clínica deve ser uma baseada em evidências no contexto da gravidade da obesidade e suas doenças associadas”, evidencia o relator.

Prioridade deve ser dada aos pacientes mais críticos

De acordo com a Recomendação do CFM, devem ser priorizadas pessoas com maior peso ou gravidade está indicada apenas para os hospitais e serviços que possuam uma grande demanda de procedimentos para evitar riscos de agravamento das comorbidades e mortalidade. “Não devemos minimizar o sofrimento daqueles tantos outros que ainda estão em estágios intermediários da doença obesidade”, ressalta Marcos Leão.

Entre as recomendações para continuidade das cirurgias bariátricas e metabólicas, o CFM orienta alguns critérios de priorização de pacientes com quadros e comorbidades mais graves que devem ter seus procedimentos mais acelerados.

No pré-operatório, o CFM recomenda que sejam adotadas estratégias de triagem de possível contato dos pacientes com portadores de Covid-19 e realização de testes de diagnóstico. Em casos de sintomas respiratórios, febre ou suspeita clínica de infecção pelo coronavírus, a cirurgia deve ser adiada.

No pós-operatório, o CFM recomenda que os critérios para a alta do paciente devem ser os mesmos do período anterior à pandemia. Além disso, em relação a assistência ao paciente após a cirurgia, o Conselho sugere que as equipes disponibilizem assistência nutricional, clínica e psicológica remota – via telemedicina – para auxiliar no distanciamento social sem comprometer o acompanhamento.

Cirurgias de hérnia abdominal caem 29%

O número de cirurgias de hérnia da parede abdominal realizadas em fevereiro – quando foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 no Brasil – registraram uma redução de 29% em relação às operações feitas em janeiro, de acordo com dados apresentados pelo DataSus. A diferença é de cerca de 5,3 mil cirurgias em relação ao mês anterior, com redução de 17,9 mil para 12,6 mil. Todas as regiões do país registraram queda proporcional na quantidade de operações.

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Hérnia, Christiano Claus, atualmente são realizadas apenas cirurgias consideradas de urgência e emergência. “Nas hérnias abdominais isso ocorre em casos de encarceramento e estrangulamento da hérnia, que é a complicação mais temida. O conteúdo da hérnia, que geralmente é o intestino, fica preso no canal herniário podendo comprometer o fluxo de sangue”, explica.

O vice-presidente da SBH, Marcelo Furtado, explica que os casos de urgência devem ser avaliados de forma particular. “Os pacientes devem procurar o pronto-atendimento em caso de sintomas como ver a hérnia mais visível que o normal, dor intensa com piora rápida, abdômen distendido, sentir a hérnia dura e apresentar náuseas e vômitos”.

Ele explica que hérnia abdominal são orifícios ou fraquezas na musculatura da parede abdominal pelo qual os órgãos intraabdominais podem atravessar. O local de passagem do cordão umbilical é um exemplo de região de fragilidade, onde ocorrem as hérnias umbilicais. Entre os sintomas comuns está o aumento de um volume na região, causando um abaulamento (bola) na forma do abdome, associado a dor ou desconforto local.

Fonte: SBCBM, CFM e SBH