Com 290 casos e quase 9 mil suspeitos, Brasil registra primeira morte

Homem de 62 anos, morador de São Paulo, morreu nesta terça-feira (17), 20 dias após a primeira confirmação de caso no país

Rosayne Macedo
Passageiros e funcionários circulam vestindo máscaras contra o novo coronavírus (Covid-19) no Aeroporto Internacional Tom Jobim- Rio Galeão (Foto: Internet)

Com 291 casos confirmados do novo coronavírus, o Brasil registrou nesta terça-feira (17/3) o primeiro óbito pela doença desde que a epidemia começou, há 20 dias: um homem de 62 anos, que tinha diabetes e hipertensão. Ele estava internado em um hospital de São Paulo, onde morava, e não tinha viajado ao exterior. Ele passou mal na semana passada e foi internado num hospital particular. O paciente não estava no balanço anterior da Secretaria de Estado de São Paulo.

De acordo com o Ministério da Saúde, a expectativa é que novos óbitos devem se iniciar a partir de agora – somente em São Paulo, existem outros quatro óbitos a confirmar. O número de casos suspeitos passou de 2.064 para 8.891 nas últimas semanas e deve subir muito nas próximas semanas, nas projeções do Ministério. A idade em média das vítimas é de 42 anos, com igual infecção para homens e mulheres. A média de internação é abaixo da média mundial – de 14 a 21 dias.

“Vamos passar de 60 a 90 dias de muito estresse. Até o final de junho, julho deve desacelerar. E em agosto, setembro deveremos ter maior controle, com a imunidade de mais de 50% da população (a esse vírus), graças a medidas como bloqueios, quarentenas ou limitação de ir e vir’, disse o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Do número total de pacientes até o momento, 16% têm mais de 60 anos, grupo que representa o maior risco. O ministro também fez um apelo para que as famílias cuidem de seus idosos, que são o público mais vulnerável e que pressionam mais os serviços públicos de saúde, já que são os que mais exigirão cuidados intensivos. Segundo ele, a média de internação de 15% dos casos ainda é considerada muito mais alta para o que o SUS poderia suportar.

A estimativa é de que mais de 85% de pessoas não vão necessitar de nada além de orientação e anti-térmico, tipo dipirona ou paracetamol. O problema é que 15% vão necessitar de internação hospitalar,  um número muito alto para o mundo.Nunca se tem 15% internados, nunca mais do que dois para cada leito de CTI por mês. Vamos ter uma sobrecarga. De 4% a 5% dos pacientes poderão necessitar de leito de CTI, por uma média de 14 a 21 dias”, explicou o ministro.

Atualmente 17 unidades da federação têm casos confirmados, a maioria em São Paulo (170), 5% deles com problemas respiratórios mais graves. No Rio de Janeiro, dos 35 casos confirmados – um deles em estado grave. Desses pacientes, 12% foram infectados por transmissão comunitária (quando não se consegue rastreia quem infectou) e o restante por transmissão sustentada. No Distrito Federal, há seis casos sem determinar a causa, além de um em Sergipe. Todos seguem em investigação.

De acordo com a pasta, o salto no número de suspeitos ocorreu pela incapacidade dos estados de checar as notificações, de forma automatizada.  A capacidade instalada no país não depende só de kits, mas de pessoal capacitado para realizar os exames, informou o Ministério da Saúde. Na sexta-feira (20), laboratórios públicos e privados vão se reunir para discutir formas de ampliar a oferta de testes para a população, atendendo à recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Cuidem dos seus idosos”, disse o ministro

Mandetta iniciou a entrevista coletiva demonstrando por estar anunciando o primeiro óbito entre quase 300 confirmados desde 27 de fevereiro, quando foi detectado o primeiro caso, o que pode indicar que o Covid-19 no Brasil não seja tão intenso como em outros países. No entanto, a preocupação é garantir o acesso a tratamento das pessoas que vão necessitar de leitos de tratamento intensivo (CTI), evitando a situação de colapso verificada em países de primeiro mundo, como a Itália, que já tem mais mais 2 mil mortes pela doença.

As próximas semanas a partir do surto epidêmico serão extremamente duras para as famílias. Cuidem dos idosos, é hora de filho, da filha cuidar do pai, mãe, avó, tia avó… Não levar as crianças sistematicamente até eles. Muitas crianças são assintomáticas e transmitem a virose. Não tem avó que não coloca neto no colo, não beije, não abrace. Isso seria muito duro, mas o momento agora é de proteção. Quanto menos idosos tiver essa gripe, menos pressão teremos nos leitos de CTI”, disse o ministro.

Ele também destacou uma boa notícia: uma possível vacina testada em voluntária americana hoje nos Estados Unidos. “Vamos ver como a ciência se comporta. Vacinas não são fáceis, mas são a melhor solução para lidar com a virose. Só vamos ter paz com esse vírus quando tivermos uma vacina”, disse. O ministro ressaltou ainda que não sabe como o Covit-19 vai se comportar ao entrar em local que não tem imunidade, como o Brasil.

O ministro também elogiou o Sistema Único de Saúde (SUS). “Esta é uma doença que tem abalado o mundo inteiro, não existe nenhum país 100% preparado para seu sistema de saúde ser em massa acionado para testes, isolamento, internações em leitos de CTI. Vemos países de primeiro mundo, com problemas graves de saúde, em colapso. É o caso da Itália. Temos um sistema minimamente consolidado e estamos procurando aumentar a capacidade instalada”, disse.

Um gabinete de crise foi instalado para conter a doença. “As determinações e recomendações serão feitas em conjunto com demais ministérios, já que afetam agricultura, segurança, logística nacional, para ajudar a minimizar o impacto na vida dos cidadãos brasileiros”, disse o ministro. Segundo ele, nos 10 últimos de março, as espirais vão ganhar força e novas medidas de restrição poderão ser utilizadas.

Medicina não é Matemática, não só complica em quem tem mais de 60 anos. Uma pessoa com 15 anos, com sistema imunológico mais baixo, atingida por cepa mais virulenta, pode necessitar também de cuidados mais intensos”, disse.

Segundo ele, deverá haver grande impacto no número de pacientes que não são tão graves para precisar de CTI, mas não são leves para ser liberados para casa. Esse deve ser o grande contingente de doentes, o que pode exigir a montagem de hospitais de campanha, de improvisação de escolas em hospitais,  de transformação de locais não clássicos para oferecer atendimento.

Veja outras medidas e recomendações anunciadas hoje

200 leitos de CTI adicionais serão abertos – Ainda esta semana serão entregues 80 para São Paulo, 40 para o Rio de Janeiro, 30 para o Rio Grande do Sul e 50 para Minas Gerais. Mais 340 serão abertos na semana que vem. “À medida que houver mais necessidade, vamos adquirir leitos para aumentar progressivamente os leitos de CTI “, disse Mandetta.

Mais recursos federais para os estados – OMinistério da Saúde vai mandar 2 reais per capita com objetivo de atender à demanda. São quase R$ 100 milhões para São Paulo, que tem 47 milhões de habitantes) para oferecer tratamento igualitário a todos. Ao todo, deverão ser destinados R$ 340 millhões.

Consultas médicas poderão ser feitas online – o ministro anunciou ainda a intenção de usar todo o potencial da Telemedicina para enfrentar o vírus, inclusive com consultas diretas à população. “A Telemedicina vai fazer não só o suporte de médico a médico, mas também ao cidadão. Vamos usar de toda a potencialidade da telemedicina, para fazer consultas com médicos capacitados para manejo clínico”, explicou.

Cirurgias eletivas (não urgentes) devem ser imediatamente suspensas –  O objetivo é que pacientes que ocupem leitos e não apresentam quadro de alta gravidade recebam alta hospitalar para que os leitos fiquem disponíveis para atender pacientes de Covid-19. ‘Todos os diretores clínicos devem passar visita ao pé do leito, saber por que está internado, qual motivo, utilizar-se de atendimento domiciliar, dar alta hospitalar para quem não necessita”. ressaltou.

Doentes crônicos devem garantir seus medicamentos por 6 meses – O ministro ressaltou que, com receitas aviadas para 6 meses, evita-se que essas pessoas tenham que fazer troca de receita para medicamentos de uso contínuo, o que causaria uma exposição desnecessária em unidades de saúde.

Internação compulsória para quem não quiser se tratar – Aqueles contaminados que não se submeterem a testagens e tratamentos ambulatoriais podem ser punidas até com pagamento de multa e prisão.