Como identificar o transtorno bipolar em crianças e adolescentes

Rosayne Macedo

Transtorno-Bipolar-Infantil-imagem

Convivi com o Transtorno Bipolar dentro de casa durante anos e, posso lhes assegurar, esta é uma das piores doenças que uma pessoa pode sofrer porque desestabiliza toda a família e traz imensos e profundos danos emocionais e muitas vezes até sociais e financeiros a todos. Minha mãe começou a sofrer desse terrível mal quando eu e meus dois irmãos eram adolescentes e minha irmã, uma bebê de pouco mais de um ano de idade. Hora ela se isolava em um quarto escuro, em profunda depressão. Ora perdia o sono e, mesmo assim, parecia emanar uma energia e alegria incomuns, que descambavam muitas vezes para a agressividade: era o outro polo, o da euforia.

O problema atinge pelo menos 5,7 milhões de adultos no Brasil (aproximadamente 4% da população) e, felizmente, tem tratamento. Mas afinal, o transtorno bipolar também pode se manifestar em crianças? Especialistas garantem que sim e leva a imensos prejuízos no relacionamento social e na evolução afetiva na infância. No entanto, seus sintomas já podem ser identificados antes dos 5 anos de idade. Portanto, quanto mais cedo o transtorno for identificado, melhor será o desenvolvimento na adolescência.

De acordo com o neuropediatara Clay Brites, um dos fundadores do Instituto NeuroSaber, o transtorno bipolar atinge 0,8% a 1% das crianças, e já pode ser identificado desde cedo, ao contrário do que muitos acreditam. Esse transtorno muitas vezes pode ser confundido com o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), um mal que hoje atinge de 6% a 10% da população infanto-juvenil. Segundo ele, de 5% a 15% das crianças com um tipo de transtorno tendem a apresentar o outro associado, mas mesmo assim existe uma importante diferença entre os dois.

Um estudo publicado pela Academia Americana de Psiquiatria Infantil e Adolescente (AACAP) mostrou que crianças pré-adolescentes com Transtorno Bipolar apresentam uma maior dificuldade de atenção, concentração, memória e aprendizagem. “Isso mostra que os indivíduos que não são diagnosticados na infância apresentarão problemas de oscilação de humor e prejuízos na capacidade de aprendizagem mais tarde durante a vida”, ressalta Clay Brites.

Confira sete sinais do transtorno bipolar

Neste Dia da Infância (24 de agosto), a psicopedagoga Luciana Brites, especialista em Educação Especial e também fundadora do NeuroSaber, lista sete fatores que podem ser analisados pelos pais como primeiro passo para o diagnóstico do transtorno bipolar. “É conhecendo mais sobre o assunto que nós conseguimos gerar consciência nas famílias”, resume. Luciana e Clay completam que é importante que os pais identifiquem esse comportamento nos filhos e busquem ajuda do profissional correto: um neuropediatra ou psiquiatra infantil. “O tratamento será melhor quanto mais interdisciplinar for a equipe de profissionais”, concluem.

1- Oscilação de humor

O primeiro ponto a ser analisado, segundo Clay Brites, é o sintoma chave do Transtorno Bipolar: a mudança repentina de humor. “A criança com Transtorno Bipolar muda de semblante de uma hora para a outra, e deixa de ser carinhosa para ficar repentinamente isolada do convívio de um dia para o outro, por exemplo”, explica.

2- Histórico familiar

Luciana Brites conta que o histórico familiar pode ser um fator em 80% dos casos de Transtorno Bipolar. “Muitos pais fazem pouco caso e acabam repetindo que a criança puxou o avô ou o tio, por exemplo, como se isso não fosse importante”, alerta a especialista. “Muitas vezes, pode ser que o tio ou o avô tivessem mesmo o transtorno e nunca foram diagnosticados”. 

3- Ambiente difícil

Segundo Clay Brites, uma predisposição genética pode ser agravada por um ambiente familiar muito rígido, difícil ou de pouca afetividade. “O ambiente menos acolhedor pode atrapalhar ainda mais o problema e promover crises ainda mais intensas”, resume.

4- Hiperatividade cíclica

Ao contrário da criança com TDAH, que está sempre agitada, a hiperatividade em uma criança com Transtorno Bipolar é cíclica e se alterna com um comportamento mais calmo em momentos alternados. “É preciso estar atento a essa alteração de comportamento, especialmente se ela for abrupta”, alerta a psicopedagoga Luciana Brites. 

5- Hiperssexualidade precoce

Segundo o neuropediatra, crianças bipolares costumam apresentar uma sexualidade precoce. “Geralmente, meninos e meninas com esse distúrbio podem ter insinuações, o desejo de se vestir como adulto com roupas curtas e maquiagem, por exemplo, e até mesmo um desejo sexual diante dos colegas da escola”, exemplifica. 

6- Comportamento controlador e ciumento

Enquanto que as crianças com TDAH apresentam maior dificuldade de aprendizado em matemática e linguagens desde idades mais jovens, em vez de desenvolverem apenas na pré-adolescência, o bipolar, via de regra, não apresenta este problema de início. “É um transtorno mais comportamental, que costuma deixar a criança extremamente ciumenta e controladora em relação às atitudes do dia a dia”, explica Luciana. “E eles apresentam uma irritabilidade independentemente de qualquer tipo de frustração”, explica.

7- Falta de sono

Por fim, os especialistas alertam para um detalhe importante e comum nesta fase da vida: a falta de sono. “Muitas pessoas confundem esse comportamento com o TDAH”, conta o médico. No entanto, a psicopedagoga completa que, ao contrário da hiperatividade, a insônia no Transtorno Bipolar não faz com que a criança apresente sonolência pela manhã. “Ela continua sem sono durante o dia”.

Fonte: NeuroSaber, com Redação

In the news
Leia Mais