Como o sono e a memória são afetados em tempos pandêmicos?

Live do projeto #PapodePandemia traz neurologista, psiquiatra e psicanalista para avaliar como o sono e a memória foram atingidos e dar dicas

Redação

Pesquisa feita pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) mostra que 40% dos brasileiros perderam o sono durante a pandemia e o que é pior – ganharam peso. Outro estudo da Associação Brasileira do Sono (ABS) mostrou que a insônia atinge fortemente os profissionais de saúde, especialmente aqueles da ‘linha de frente’ da Covid-19.

Para piorar a situação, o isolamento social ocasionado pela pandemia de Covid-19 fez com que as pessoas passassem a usar mais celulares, computadores, TVs e videogames, aumentando o tempo de permanência em frente aos aparelhos eletrônicos. Como resultado, aumentaram os casos de estresse, ansiedade e insônia.

Não são poucos também os relatos de perda de memória recente, um sintoma mais comum entre pessoas acima de 60 anos que vem se tornando cada vez mais frequente entre pessoas de diferentes faixas etárias. ‘Será que estou com Alzheimer?’, questionaram-se muitas pessoas durante essa longa quarentena.

Como a insônia ou o sono irregular podem trazer problemas à memória e ao nosso organismo como um todo? Será que nosso cérebro suporta esse excesso de informações e exposição às telas ou há um limite? O que fazer para ter equilíbrio e manter a saúde, recuperar o sono e a memória e voltar a ter uma rotina de descanso? Estas e outras questões são tratadas na 24ª live do projeto #PapodePandemia que o Portal ViDA & Ação promoveu nesta quarta-feira, dia 4 de novembro, pelo Facebook.

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A live traz como convidadas especiais Andrea Bacelar, médica neurologista e presidente da Associação Brasileira do Sono (ABS); Danielle H. Admoni, médicapsiquiatra associada da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e especialista pela Unifesp, e Eloah Mestieri, psicanalista Clínica Integrativa, com abordagem Cognitivo/Comportamental, formação em PNL e Análise Transacional. O bate-papo é apresentado pela jornalista Rosayne Macedo, editora do Portal ViDA & Ação.

A neurologista Andrea Bacelar, presidente da Associação Brasileira do Sono, é uma das convidadas (Foto: Divulgação)

Falhas na memória aumentam durante a pandemia

Quem nunca esteve contando algum fato para alguém e acabou se esquecendo de alguma palavra no meio? Os chamados distúrbios de memória também podem envolver entrar em uma sala e esquecer-se do motivo, esquecer a senha do cartão de crédito ou perder a linha de raciocínio durante uma conversa. 

Com quarentena, trabalho em casa, aulas online e todas as mudanças geradas pela pandemia, tivemos grandes alterações na rotina. Somado ao acúmulo de atividades e responsabilidades, além das tecnologias que têm nos ajudado a sobreviver, mas, por outro lado, “pensam por nós”; muitos têm sentido perda da noção de tempo e lapsos de memória.

A psiquiatra Danielle Admoni fala da importância do sono para uma boa memória (Foto: Divulgação)

De fato, a memória é uma das nossas funções cognitivas mais importantes e serve para arquivar experiências e informações adquiridas ao longo da vida. A perda de memória patológica acomete, principalmente, a memória de curto prazo, aquela que usamos para nos lembrar de algo recente. Um exemplo é a pessoa que tende a repetir as mesmas perguntas que foram respondidas há pouco tempo”, explica a psiquiatra Danielle H. Admoni.

Outro fator muito importante é o sono. “Noites mal dormidas interferem muito na manutenção da memória, já que ela é consolidada neste período. O tabagismo e o uso frequente de álcool também são prejudiciais, pois provocam um envelhecimento cerebral precoce”, afirma a médica. Segundo ela, a melhor forma de diagnosticar estas patologias é por meio de uma avaliação neurológica e psiquiátrica.

Ansiedade contribui para enfraquecer a memória

A psicanalista Eloah Mestieri vincula a perda de memória ao transtorno de ansiedade (Foto: Divulgação)

Segundo Eloah Mestieri, psicanalista especialista em transtorno de ansiedade, mesmo que possa ser conveniente uma avaliação neurológica, esses pequenos lapsos de memória nem sempre são causados por um comprometimento da função cognitiva ou têm alguma ligação com a idade cronológica.

Para a especialista, esses pequenos esquecimentos devem-se, na maioria dos casos a dois motivos.  “Um deles é a mudança do foco da atenção, principalmente quando estamos com algum projeto ou alguma preocupação em primeiro plano”, elucida. A outra razão, segundo a especialista, é a ansiedade.

Ainda que casual, no caso de esquecimentos de palavras, por exemplo, quando não estamos nos sentindo relaxados, à vontade ou confiantes, como quando estamos falando em público, dando uma opinião formal, querendo causar boa impressão”, complementa.

Eloah também chama a atenção para os quadros de ansiedade. “Ansiedade e memória estão intimamente relacionadas. Você pode não saber, mas quanto mais ansioso estiver, menos memoração terá à disposição”, alerta. 

Dicas para manter a boa memória

A área da neuropsicologia, que estuda a memória, ainda é muito nebulosa. Mas estudos mostram que os bons hábitos de vida são verdadeiros aliados da boa memória. “Alimente-se bem, faça exercícios regularmente e tenha uma rotina adequada para dormir, como tomar um chá de ervas e ler um livro antes de pegar no sono”, encerra Eloah.

Já Danielle aponta a prática de atividade física aeróbica por, pelo menos, três vezes na semana. “O exercício intensifica a capacidade cognitiva, de atenção e concentração”, aponta Danielle H. Admoni.

Na tentativa de diminuir esses pequenos inconvenientes, Eloah aconselha fazer e manter um diário, realizar anotações após uma conversa ou reunião importante e certificar-se de manter o calendário sempre atualizado. “Defina coisas para fazer todos os dias. É uma forma divertida e útil de organizar e controlar o seu dia”, ensina. 

Vale citar também outras boas dicas que podem melhorar significativamente a memória e a atividade cognitiva, principalmente nos tempos atuais. Leitura, aprendizado de novas línguas, a prática de exercícios matemáticos e a constante sociabilização, ainda que virtual, são hábitos importantes para a manutenção da memória e para retardar o surgimento de demências comuns a idade avançada”, finaliza Danielle.

Em relação aos medicamentos, há controvérsias. Uma pesquisa recente indicou que o uso de donepezila, uma medicação utilizada para o Alzheimer, aumenta a capacidade da memória de portadores da síndrome de Down. Isso fez com que universitários americanos passassem a usá-la. “No entanto, ainda não há nenhuma comprovação científica que mostre a sua eficácia em pessoas que não possuem a síndrome. Alguns fitoterápicos, como ginko biloba, parecem melhorar o fluxo sanguíneo cerebral, beneficiando, indiretamente, a memória”, ressalta a médica.

Com Assessorias