Consciência negra: literatura ajuda a contar história do racismo estrutural no Brasil

Ler Faz Bem selecionou cinco sugestões de leitura que ajudam a entender escravidão e preconceito racial ontem e hoje

O professor de literatura Adriano Moura, autor de Invisíveis', traz contos sobre intolerância, preconceito racial e abandono social (Foto: Divulgação)

No mês em que lembramos o Dia da Consciência Negra (20 de novembro), a seção Ler Faz Bem seleciona cinco recomendações de leituras que ajudam, direta ou indiretamente, a contar a história do racismo estrutural no Brasil, do passado aos dias de hoje, e nos escancara a realidade de pessoas negras, muitas vezes, invisíveis aos nossos olhos.

Além de duas biografias, que revelam as histórias de um herói nacional – o humanista Antônio Bento – e de um poeta escravo – o afrocubano Juan Francisco Manzano -, há duas obras que retratam personagens reais – como a moradora de rua morta com água fervente, descrita pelo autor negro Adriano Moura em Invisíveis – e as mulheres usuárias de crack pesquisadas pela antropóloga Luana Malheiro. Questões raciais também estão presentes no romance O Abrigo de Kulê, da jornalista e escritora Juliana Valentim.

Confira os lançamentos!

Um herói nacional que lutou contra o racismo

A Redenção de Antônio Bento é a primeira biografia de um dos maiores abolicionistas brasileiros e e revela bastidores da luta contra a escravidão. De impressionante atualidade, a obra mostra a saga do humanista Antônio Bento, da metade do século XIX, que lutou contra a escravidão, o racismo, a falta de assistência aos menos favorecidos, a corrupção no sistema político, a mídia corrompida e a injustiça social.

O livro reúne 300 referências bibliográficas e é resultado de 10 anos de pesquisas sobre a história desta personalidade. Para contar a vida e obra de Antônio Bento (1843 – 1898), os autores Luiz Antônio Muniz de Souza e Castro, bisneto direto do biografado, e a professora Débora Fiuza de Figueiredo Orsi realizaram uma pesquisa profunda e criteriosa com fontes primárias.

As principais referências da obra são da imprensa, como o jornal A Redempção, de 1887 a 1899, reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Enriqueceu a produção a viúva de Antônio Bento, dona Benedicta Amélia, que criou o pai do autor e se constituiu na ponte de gerações ao transmitir esses registros históricos.

A obra presta uma homenagem ao herói e também esclarece diversas controvérsias sobre a vida de Antônio Bento. O trabalho de uma década deu luz a um verdadeiro herói nacional pouco reconhecido, mas que, justamente por isso, concedeu aos autores a chance de levar aos leitores os bastidores da luta contra a escravidão, o comando da Ordem dos Caifazes, a Hospedaria dos Negros – em contraponto à Hospedaria dos Imigrantes -, o Quilombo do Jabaquara, e tantos outros fatos da época. 

A Redenção de Antônio Bento é uma obra atemporal que provoca reflexão sobre os dias atuais. Com endosso do sociólogo e político Florestan Fernandes (1920 – 1995), o lançamento relata a luta contra a escravidão de uma São Paulo na qual prevaleciam os interesses dos escravagistas.

Somente Antônio Bento perfilha uma diretriz redentorista, condenando amargamente o engolfamento do passado no presente, através (sic) do tratamento discriminativo e preconceituoso do negro e do mulato. Em consequência, o mito floresceu sem contestação, até que os próprios negros ganharam condições materiais e intelectuais para erguer o seu protesto. Um protesto que ficou ignorado pelo meio social ambiente, mas que teve enorme significação histórica, humana e política. De fato, até hoje, constitui a única manifestação autêntica de populismo, de afirmação do povo humilde como gente de sua autoliberação.”
(Florestan Fernandes – A Redenção de Antônio Bento, pág. 26)

Os bastidores da organização dos Caifazes, movimento abolicionista paulistano, também são destaque na obra, já que Antônio Bento assumiu a liderança da ação após a morte do poeta Luís Gama. O volume é rico em fotos, memórias e documentos da vida do juiz considerado “o John Brown brasileiro” por Joaquim Nabuco, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

Sobre os autores: 

Luiz Antônio Muniz de Souza nasceu em São Paulo, é economista, bacharel em Direito e empresário. Débora Fiuza de Figueiredo Orsi, paulista, é professora de Língua Portuguesa, editora, redatora e revisora.

Ficha Técnica:
Título
: A Redenção de Antônio Bento
Autores: Luiz Antônio Muniz de Souza e Castro e Débora Fiuza de Figueiredo Orsi
Editora: Reality Books
Páginas: 456
Preço: R$ 136,00
Link de venda:  www.antoniobento.com e https://amzn.to/2XOyjig

Autobiografia inédita sobre escravidão na América Latina

Para entender melhor a história da América Latina, a escravidão e os seus efeitos para a sociedade, no mês da Consciência Negra a Tocalivros Social, junto com a Linha da Cultura do Metrô de São Paulo, traz gratuitamente o audiolivro A Autobiografia do Poeta-Escravo, de Juan Francisco Manzano. O poeta afro-cubano aprendeu a ler e a escrever por conta própria, em um ambiente em que os escravizados que buscavam a alfabetização eram punidos e até assassinados.

Este foi o único registro de um ex-escravizado latino-americano em uma autobiografia em cativeiro e o único registro de sua experiência dessas condições. Um dos poucos relatos dessa longa e terrível história de escravidão das Américas, já que os escravagistas não tinham interesse de registrar seus horrores e, os escravizados, as condições necessárias para fazê-lo.

A narração é do ator Eduardo Silva – o eterno Bongo do Castelo Ra Tim Bum. Atuando desde 1978 em novelas, programas infantis e educativos, Eduardo foi vencedor de prêmios por seus longas e curtas-metragens, no teatro fez 12 peças infantis ganhando 15 prêmios e 25 espetáculos adultos nos quais ganhou 4 prêmios.

Publicada no Brasil pela primeira vez e transformada em audiolivros pela Tocalivros, essa impactante autobiografia está disponível gratuitamente como o livro do mês de novembro para que todos possam da voz a narrativa negra. Para acessar, basta clicar no link com o voucher POETAESCRAVO, baixe gratuitamente o audiolivro. Veja ainda no Instagram.

Invisíveis retrata abandono social causado por questões étnicas

Invisiveis’ é o quarto livro de Adriano Moura, que também escreve peças teatrais (Foto: Editora Patuá/Divulgação)

Lançado em junho deste ano, em plena pandemia, InvisíveisContos sobre miséria e abandono (Editora Patuá) é inspirado na vida de pessoas que vivem a marginalidade das ruas, mas também das que se encontram em situação de miséria e abandono afetivo. Em sua obra, Adriano Moura, professor de literatura, escritor e autor teatral, retrata questões como preconceito racial e intolerância religiosa, tão comuns em dias atuais.

O livro reúne narrativas curtas, muitas inspiradas em histórias reais, sobre personagens marginalizados devido a questões étnicas, econômicas ou de gênero, que nos sensibilizam com suas dores e dissabores. O autor negro escreve para escancarar a hipocrisia de um Brasil formado por “cidadãos de bem”, que relega as pessoas tidas como marginalizadas ao mais completo abandono social.

O soco no estômago começa com “Ainda jogo água fervendo nela”, sobre a história de Patativa, que “bebia pra cantar e não pra esquecer; cantar é que a fazia esquecer”. Conhecida como Camochila, a mulher negra foi queimada com água fervendo.

No conto de Moura , ela é vítima da intolerância: incomodou uma cristã no momento da comunhão. Patativa só chorava sobre sua miséria quando não bebia. Ia sempre cantar, sob efeito do álcool, e pedir comida na porta de dona Noêmia, mulher de fé, orações e missas.

Dona Noêmia dizia que um dia ainda jogaria água fervente em Patativa. Um dia, Patativa cantou durante uma missa, com dona Noêmia contrita, a rezar, a pouco de fazer sua comunhão. E dona Noêmia cumpriu a promessa: Patativa morreu das queimaduras. Quanto à religiosa, ganhou o perdão do padre, após uma confissão.

Na obra, o escritor nos diz que o livro é sobre o que ele vê. “O que vi e me despertou a vontade de narrar sobre pessoas ‘invisíveis’ foi o sentimento de abandono lido na pupila dos que fingimos não ver nas esquinas, bares, casas, ruas”, conta Moura, sobre seus processos de inspiração e criação. Segundo o escritor, “escrever é tocar aquilo que vejo com a pinça da palavra e, com sua (im)precisão, tornar esse mundo captado visível ao leitor”.

Com seus contos curtos e secos e rascantes, Moura torna, com sua tessitura, imagens invisíveis em visíveis para nós, leitores. E nos brinda com belas metáforas, que levaremos vida afora. Ele considera que livros, como amuletos, guardam o poder mágico de nos proteger: “Livros abrem caminhos e protegem contra a sensibilidade e a ignorância, como amuletos. Livros são patuás. Só trazem sorte aos que leem”.

Sobre a obra, escreveu a jornalista (Tribuna de Minas) e professora Marisa Loures na orelha do livro: “Por um instante, a sensação era de folhear um jornal. Não um livro de ficção. Tamanha a realidade nua e crua jogada na minha cara conto após conto. Mas claro que não encontrei ali um texto frio, imparcial, sem o envolvimento do autor”, relata.

Se “Invisíveis” faz pensar na proximidade com o Jornalismo, é com aquele humanizado, que nos sensibiliza diante da dor do outro, que nos faz querer sair da apatia e ter vontade de reagir diante de notícias de que executaram uma moradora de rua porque ela pedia R$ 1 para matar a fome.

Sobre o autor:

Morador da cidade de Campos dos Goytacazes, no Norte do Estado do Rio de Janeiro, Adriano Moura é um “ponto fora da curva” dentre tantas pessoas da raça negra que lutam para sair da invisibilidade. Mestre em Cognição e Linguagem pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), é professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa do Instituto Federal Fluminense, onde coordenou a a pós-graduação latu sensu Literatura Memória Cultural e Sociedade.

Em meio a seu doutorado em Estudos Literários, na Universidade Federal de Juiz de Fora, Moura lançou ‘Invisíveis‘. Mas ele não é novato no ramo. Publicou também Liquidificador: poesia para vita mina (2007), O julgamento de Lúcifer (2013) e Todo verso merece um dedo de prosa (2013). Para o teatro, escreveu as peças Relatos de Professores, Meu Querido Diário, A Matrioska ou o Jogo da Verdade – esta última, premiada com o troféu João Siqueira da Federação de Teatro Associativo do Rio de Janeiro (Fetaerj).

Ficha técnica:

Livro: InvisíveisContos sobre miséria e abandono

Autor: Adriano Moura

Editora: Patuá

Páginas: 110

Onde encontrar: No site da editora Patuá ou Amazon.com.

Livro sobre mulher usuária de crack revela racismo

“Tornar-se mulher usuária de crack: cultura e política sobre drogas”, publicação da Editora Telha, é resultado de pesquisas da antropóloga Luana Malheiro, que acompanhou, por três anos, 20 mulheres em situação de rua e usuárias da droga. A obra busca apresentar como as violências raciais e de gênero podem ser a verdadeira porta de entrada do uso compulsivo de crack, levando-nos a refletir que a saída para resolver o problema da droga está inteiramente ligada com a resolução de desigualdades raciais, econômicas e de gênero.

A cultura de uso de crack no contexto das ruas é um fenômeno que tem gerado inúmeros debates e opiniões em nossa sociedade. A mídia tem sido responsável por noticiar de forma alarmante o grande mal que destruiria o nosso futuro: o crack. Alçado a grande mazela dos nossos tempos, o crack passou a ser descrito como o responsável pelo consciente caminho para a morte, de inúmeros usuários e usuárias”, explica a autora.

A partir da pesquisa apresentada neste livro, Luana Malheiro conclui que a política de drogas, tal como se apresenta na atualidade, reforça opressões de raça, gênero e classe constituindo uma arena marcada pela injustiça social na vida das mulheres. A resposta a essas opressões aparecem na pesquisa a partir da construção do campo do feminismo anti-proibicionista que tem organizado politicamente mulheres afetadas pela guerra às drogas.

Sobre a autora:

Luana Malheiro
é bacharel em Ciências Sociais com concentração em Antropologia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA (FFCH/UFBA), especialista em Saúde Coletiva com ênfase em Saúde Mental pelo Instituto de Saúde Coletiva da UFBA (ISC/UFBA), mestra em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA (PPGA/UFBA) e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA (PPGCS/UFBA).

É membro fundadora da Rede LatinoAmericana e Caribenha de Pessoas que Usam Drogas (LANPUD), da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (RENFA) e do Movimento Brasileiro da Redução de Danos (MBRD). Atualmente é articuladora política na Secretaria Executiva da Plataforma Brasileira de Políticas Sobre Drogas (PBPD) e conselheira da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD).

Ficha técnica:
Título: Tornar-se mulher usuária de crack: cultura e política sobre drogas
Editora: Telha
Autora: Luana Malheiro

Número de páginas: 372
Preço: R$ 65,00
Pré-venda: http://www.editoratelha.com.br
Onde encontrar: Amazon, Americanas, Blooks Livraria, Livraria da EdUERJ, Livraria Leonardo Da Vinci, Magazine Luiza, Mercado Livre, Shoptime e Submarino

Uma busca incondicional pela liberdade

O ano é 1940. A cidade, uma dessas onde os velhos espiam pelas janelas com seus olhos cheios de memórias, onde as crianças brincam pelas ruas, com seus pés nus, e meninas sem luxo se enfeitam para ver a festa na praça. Maria, uma moça que ama os livros e sonha em ver o mundo, encontra Gabriel, um caixeiro-viajante vendedor de brinquedos. O que eles não sabiam, na beleza inocente da juventude, é que o destino tem seus caprichos. O que eles não sabiam, é que a liberdade é o bem mais precioso de quem vive. E é por ela que se luta, todos os dias! 

O Abrigo de Kulê, lançamento da escritora Juliana Valentim, traz temas atemporais como questões raciais e sororidade – a solidariedade feminina. Ambientado nos anos 40, o romance aborda temas como amor e solidariedade, ultrapassando as barreiras do tempo O trabalho escravo nas fazendas brasileiras na década de 40 é o tema central do lançamento.

A obra narra a história de Gabriel, um caixeiro viajante contador de histórias, e Maria, uma jovem que ama os livros e sonha em conhecer o mundo. Juntos, eles traçam um caminho em busca da liberdade. O livro coloca em discussão assuntos que atravessam décadas e permanecem vivos até os dias atuais. Fala de amor, coragem e sororidade, a solidariedade feminina que nasce em tempos desafiadores. A narrativa é construída de forma leve e cheia de fantasia, fazendo o leitor passear por paisagens e costumes do interior do Brasil.

Assim como os protagonistas da obra, no alto dos seus 20 anos, o enredo se revela ao público jovem com uma sucessão de acontecimentos marcantes que transitam pela paixão, decepção, saudade, liberdade, encanto e desencanto. Na escrita fluida, Juliana Valentim convida a todos a embarcarem nessa narrativa que enaltece a juventude e mostra que a liberdade é um direito pelo qual se deve lutar, sempre!

Despediram-se, então, com uma inquietação na alma. Sentiam vontade de viver demasiadamente, até o talo da vida.
As peles queimavam feito uma febre faminta de tudo. Sentiam vontade de engolir o mundo. (O Abrigo de Kulê, p. 20)

Sobre a autora:

Juliana Valentim é jornalista de formação e e escritora porque a paixão pelas palavras é o que faz sua alma vibrar. Desde sempre! É autora de dois livros, de crônicas e poesias, e agora se aventura na narrativa do seu primeiro romance. Escreve também em seu site www.palavrasquedancam.com.br e possui um sólido trabalho nas redes sociais., em seu perfil literário @palavrasquedancam, escreve diariamente textos curtos e fragmentos poéticos.

Gerenciar um perfil literário na internet me fez conhecer melhor o meu o leitor. O que eu mais gosto de fazer na vida é escrever um texto e ver como ele chega nas pessoas. Sou eu em cada palavra, viajando por casas e corações que jamais conheceria, não fosse pela poesia”, diz a escritora.

A capa é um trabalho da desenhista Elaine Lyra, com ilustração digital da Flávia Hashimoto. “Imaginei uma capa que abordasse essa busca pela liberdade de forma lúdica. Por isso, trouxemos o desenho da jovem aprisionada, mas com lindas asas coloridas. É uma imagem que diz muito”, afirma a autora.

Ficha técnica:
Título: 
O Abrigo de Kulê
Autora: Juliana Valentim
Editora: All Print
Páginas: 204
Preço: R$ 32,00 
Links de pré-venda: https://amzn.to/2RtPUsn

Com Assessorias

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