Corrida pela cura do coronavírus atropela outros pacientes

Pessoas com doenças autoimunes sofrem para obter cloroquina após Trump alardear cura para Covid-19. Bolsonaro manda Exército produzir mais

Rosayne Macedo
A jornalista Natália Vitória precisou contar com a solidaridade das redes sociais para conseguir o medicamento (Foto: Acervo pessoal)

Logo após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alardear mundialmente que a cloroquina pode ser eficiente para tratar a Covid-19 – doença provocada pelo novo coronavírus -, o medicamento desapareceu das prateleiras das farmácias no Rio de Janeiro. O anúncio causou um rebuliço nas redes sociais e aplicativos de conversas no Brasil. Um áudio circulando em vários grupos de Whatsapp anunciava a medicação como um “milagre”, o que provocou a corrida às farmácias.

Para desespero de pessoas que sofrem com doenças autoimunes e dependem dessa medicação, como a jornalista Natália Vitória, de 33 anos, que se trata com o medicamento para combater uma doença autoimune descoberta aos 18, a Síndrome Anti-fosfolípide ou Síndrome do Anticorpo Anti-Fosfolípide (SAAF). Com receita na mão do Reuquinol (nome comercial da cloroquina), ela enfrentou uma via-crúcis para conseguir adquirir o medicamento na sexta-feira (20). Durante 12 horas, percorreu inúmeras farmácias em busca do medicamento, que é vendido a preços que variam de R$ 70 a R$ 80 a caixa.

Gente, por favor, não faça estoque de Reuquinol. Eu tenho doença autoimune e tomo ele todo dia, desde meus 18 anos, não posso ficar sem. Estou muito preocupada com isso! E tem muitos pacientes com lúpus que usam ele também. Sem contar que ele tem efeitos colaterais. Eu faço exame duas vezes ao ano com reumatologista e oftalmologista pra ver os efeitos”, escreveu ela no Grupo JornalistasRJ, do Whatsapp.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a SAAF é um distúrbio autoimune na coagulação do sangue causa trombose (coagulação anormal) em artérias e veias, além de complicações na gravidez (abortos repetitivos, pressão alta e prematuridade do bebê). Esta síndrome ocorre devido à produção de anticorpos contra proteínas do próprio organismo (chamados de anticorpos anti-fosfolipídes) que são dosados no sangue através de exames laboratoriais. Clinicamente o doente pode apresentar dor, inchaço e vermelhidão na perna afetada. No caso de trombose do sistema arterial, a manifestação mais comum é de derrame cerebral ou acidente vascular cerebral (AVC).

Foi preciso a solidariedade dos amigos para que Natália garantisse o medicamento. Ela só conseguiu uma caixa de Reuquinol depois que uma amiga viu seu apelo nas redes sociais e garantiu com outra amiga que trabalha numa drogaria na Zona Oeste do Rio. “Se eu não controlar a SAAF ela pode evoluir para uma lúpus e, além de desestabilizar minha imunidade, que em tempos de coronavírus precisa estar mais forte ainda por eu ser considerada do grupo de risco”, lembra a jornalista.

Veja no vídeo o depoimento de Natália Vitória ao Portal ViDA & Ação

 

Anvisa bloqueia venda sem receita médica

Ainda na noite da última sexta-feira (20), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou que enquadrou a hidroxicloroquina e a cloroquina como medicamentos de controle especial. “A medida é para evitar que pessoas que não precisam desses medicamentos provoquem um desabastecimento no mercado. A falta dos produtos pode deixar os pacientes com malária, lúpus e artrite reumatoide sem os tratamentos adequados”, justificou.

A Anvisa alerta ainda que não há confirmação sobre a eficácia da medicação, o que foi endossado também por diversos especialistas. “Apesar de alguns resultados promissores, não há nenhuma conclusão sobre o benefício do medicamento no tratamento da doença causada pelo novo coronavirus. Ou seja, não há recomendação da Anvisa, no momento, para a sua utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus”, informa a nota.

Médicos condenam uso de ‘remédio milagroso

Bolsonaro manda Exército fabricar remédio sem eficácia comprovada

Neste sábado (21), porém, o presidente Jair Bolsonaro,  contrariando a determinação da Anvisa, colocou ainda mais lenha na fogueira, ao anunciar, por meio de suas redes sociais, que determinou ao Exército brasileiro a ampliação da produção de cloroquina, após reunião com o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. “Decidimos que o laboratório químico e farmacêutico do Exército deve ampliar imediatamente a produção desse medicamento”, disse o presidente, em vídeo no Twitter com o título “Hospital Albert Einstein e a possível cura dos pacientes com o Covid-19”.

Sem máscara e ao ar livre, Bolsonaro justificou que profissionais do Hospital Albert Einstein, em São Paulo – onde foram identificados os primeiros casos da doença, há um mês -, iniciaram pesquisas para avaliar o uso da medicação para tratamento de pacientes com coronavírus. E lembrou que, na última sexta-feira (20), a Anvisa decidiu que o remédio não poderá ser vendido para outros países. “Temos fé que brevemente ficaremos livres desse vírus”, finalizou.

Ao gravar o vídeo, no dia do seu aniversário de 65 anos – ‘celebrado’ com panelaços de protesto em várias cidades do país -, Bolsonaro estava acompanhado dos filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o senador Flávio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), como mostra uma fotografia publicada nas redes sociais.

Natália Vitória criticou o anúncio de Bolsonaro: “Acho que o presidente da república deve levar em consideração o que a classe médica e científica aponta sobre o uso do medicamento antes de tomar uma decisão política, inclusive porque produzir a cloroquina envolve uso de recursos e precisamos ser assertivos num momento como este, que também afeta a situação economia e financeira do país”, destacou.

A jornalista Malu Fernandes, de 54 anos, também está preocupada com a medida do Bolsonaro. “O que os médicos estão dizendo que é uma decisão mais política do que científica, pelo menos com o que há de informações até hoje sobre os benefícios da cloroquina para o coronavirus”, diz ela que toma o Reuquinol há 15 anos para Sindrome de Sjogren, uma doença autoimune que se caracteriza principalmente pela manifestação de secura ocular e na boca.

Descobri a doença quando apareceu artrose no ombro direito e meus olhos passaram a ficar tão vermelhos e queimando, como se eu estivesse acendendo um isqueiro neles. Descobri cedo porque a minha mãe também tem, ou seja, peguei no início e entrei no tratamento, o que me faz viver normalmente sem os sintomas”.

Ministério da Saúde admite uso só em casos muito graves

João Gabbardo, do Ministério da Saúde – Foto Arquivo

O anúncio de Bolsonaro gerou certo “mal estar”‘ pouco depois entre autoridades de saúde do próprio governo, em coletiva de imprensa para atualização dos casos de Covid-19 no país. Sobre a autorização do presidente Jair Bolsonaro para que o Exército amplie a produção dos medicamentos, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, esclareceu que a medida tem caráter preventivo no caso de um eventual aumento da demanda futura, diante da possibilidade de obter bons resultados em casos muito graves.

“Em função da possibilidade da utilização desse medicamento no tratamento da Covid-19 para casos graves de coronavírus, estamos pensando na necessidade de ampliação de produção. É isso que o presidente autorizou: que o Exército possa ampliar a produção de medicamentos. Já temos alguns serviços em São Paulo usando isso de forma experimental para avaliar resultados em pacientes com síndrome respiratória grave”, afirmou. 

Gabbardo lembrou que a  droga já é fabricada no Brasil, pelas Forças Armadas e pela Fiocruz, e é vendida nas farmácias, para o tratamento de malária, lúpus e artrite reumatoide. E confirmou que a pasta autorizou o uso experimental da cloroquina apenas em pacientes graves internados em alguns serviços de São Paulo, sempre associada a outros medicamentos. No entanto, informou que a eventual liberação dos remédios terá caráter experimental e valerá apenas para pacientes internados em estado grave.

Questionado sobre a eficácia da medicação, o secretário esclareceu que os dois componentes têm efeitos colaterais fortes e não podem ser estocados para serem usados em caso de eventual gripe. “Essa droga tem efeitos colaterais gravíssimos, não existe nenhuma indicação para pacientes com sintomas de Covid-19. Em pacientes graves com corona em hospitais, hoje, é só em pesquisa clínica, com prescrição médica, se for utilizado em pacientes em associação com outros medicamentos. Não é para quem está gripado. Foram isso não existe indicação.

Nota técnica sobre uso do medicamento sai até terça-feira

Segundo ele, o Ministério da Saúde pretende, até terça-feira (24), divulgar uma nota técnica determinando o bloqueio de vendas nas farmácias sem receita médica, para evitar que pessoas que dependem da fiquem sem esses remédios. Ele lembrou que a Anvisa restringiu a venda dos remédios com a retenção de receita médica nas farmácias apenas para pessoas com as três doenças tratadas pelos medicamentos. Vai ser utilizado só para as três doenças: malária, lúpus e artrite. Ninguém pode tirar pra guardar pra usar no corona”, disse.

O secretário ainda chamou atenção para evitar automedicação, disse que os efeitos ainda são questionáveis e que seu uso experimental deve ocorrer somente em caso em que não haja outra alternativa. Não se utiliza medicamento para o qual não está prescrito antes de avaliar nova alternativa. “Hoje, [os medicamentos] são usados em pesquisas clínicas, com autorização dos comitês de ética dos hospitais, em associação com outros medicamentos. Caso o Ministério da Saúde libere a prescrição, poderá ser usado para pacientes graves, internados em hospitais. Não é para ser usado por quem está gripado e acha que se tomar esse medicamento e não vai ter complicações”, destacou.

Segundo ele, a Secretaria de Ciência e Tecnologia deverá estabelecer um protocolo, avaliando o efeito do medicamento de acordo com o perfil dos casos, não devendo ser indicada para casos leves de Covid-19, mas por orientação médica nos casos graves, com controle da equipe do hospital. Se for comprovada a eficácia, poderá haver ajuste na bula, incluindo protocolo terapêutico para tratamento da Covid-19.

O aumento da produção vem em boa hora. Temos programa de prevenção e controle da malária e o Brasil vem fazendo várias medidas para redução dessa doença, também utilizando esse medicamento. Toda a estrutura da produção será fundamental. Caso não haja achados específicos para ser indicado para a Covid 19, usaremos para tratar essas outras doenças”, destacou.

Veja abaixo as regras da Anvisa para venda da cloroquina

Como ficam os pacientes que já precisam do medicamento?

Os pacientes que já fazem uso do medicamento poderão continuar utilizando sua receita simples para comprar o produto, durante o prazo de 30 dias. A receita será registrada pelo farmacêutico, que já está obrigado a fazer o controle do medicamento no momento da venda.

A nova categoria significa que o medicamento só poderá ser entregue mediante receita branca especial, em duas vias. Médicos que fazem a prescrição de hidroxicloroquina ou cloroquina já devem começar a utilizar este formato.

A hidroxicloroquina já estava enquadrada como medicamento sujeito à prescrição médica. Com a nova categoria, a venda irregular pelas farmácias é considerada infração grave.

O uso sem supervisão médica também pode representar um alto risco à saúde das pessoas.

Confira as principais perguntas e respostas sobre o que a Anvisa está fazendo com relação aos medicamentos para a Covid-19.

Da Redação, com Agências