Médicos condenam uso de ‘remédio milagroso’

‘Não há comprovação de que este remédio seja eficaz contra o novo coronavírus’, afirma Instituto Questão de Ciência (IQC), da USP

Redação

Nos últimos dias, foi divulgado um estudo realizado na França em que a cloroquina – usada para tratar a malária – e a hidroxicloroquina – prescrita para casos de artrite reumatoide e lúpus – diminuíram a contagem viral do novo coronavírus. As drogas foram testadas em pacientes da Covid-19 na China e na Coreia do Sul e ainda estão sendo analisadas por pesquisadores de diversos países.

Na quinta-feira (19), o presidente Donald Trump anunciou que o governo norte-americano estuda a utilização da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. “Poderemos disponibilizar esse medicamento quase imediatamente”, disse Trump a jornalistas. Segundo ele, os testes iniciais são “muito, muito animadores”, o que provocou intensa procura pelo medicamento nas farmácias, deixando aqueles que precisam do medicamento para tratar doenças autoimunes desabastecidos.

No Brasil, o Instituto Questão de Ciência (IQC) da Universidade de São Paulo (USP) esclarece: não há comprovação de que este remédio seja eficaz contra o novo coronavírus. “É um tanto prematuro afirmar que a hidroxicloroquina possa curar ou prevenir a doença que está paralisando o mundo”, pondera a presidente do IQC, Natalia Pasternak, pesquisadora do ICB.

Até o momento, embora a droga seja promissora, não existe comprovação científica de que seja útil no combate ao novo coronavírus. Porém, criou o desabastecimento do produto, fazendo com que a Anvisa o transformasse em medicamento controlado nesta sexta-feira (20), por colocar em sério risco a saúde das pessoas que realmente precisam dele, como os portadores de doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide”.

Por isso, a cientistas considera irresponsável a divulgação ampla de um estudo preliminar sobre o assunto, que levou as pessoas a comprarem compulsivamente o remédio, já esgotado em diversas farmácias. “O trabalho, divulgado por pesquisador francês no YouTube, é inconclusivo e está repleto de imperfeições que amplificam dramaticamente o risco de resultados falsos positivos”, alerta a cientista.

Ludhmila Hajjar, cardiologista especializada em Cardio Oncologia e coordenadora do grupo de Cardio-Oncologia do Instituto do Câncer e do Instituto do Coração, fez um vídeo comentando sobre o uso destas drogas no tratamento do Covid-19 – veja aqui.

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Trabalho sério

O estudo francês é permeado de falhas e abrangeu número muito pequeno de participantes, apenas 26 no grupo tratamento, dos quais um morreu e cinco abandonaram o experimento. Além disso, faltam controles, randomização e “cegamento” do estudo (quando nem pacientes nem investigadores sabem qual grupo está recebendo o remédio e qual é o controle). “Do ponto de vista da lógica científica, não temos dados suficientes para tirar conclusões”, ressalta Natalia, acrescentando que uma rede social não é o veículo adequado para comunicar resultados de testes clínicos, menos ainda em meio a uma pandemia.

A presidente do IQC cita outro artigo científico, bem mais sério, divulgado em 9 de março, que comparou a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no combate à replicação do SARS-CoV-2 (o novo coronavírus) em células cultivadas em laboratório. A hidroxicloroquina e a cloroquina são medicamentos já aprovados para o uso, para tratar a malária e algumas doenças autoimunes. A diferença é que a primeira é mais segura, com menos efeitos colaterais para pessoas que sofrem de condições autoimunes, como o lúpus. O estudo, em células cultivadas, mostrou efeitos promissores para combater o coronavírus.

“Utilizar drogas já aprovadas por agências de controle, como o FDA, dos Estados Unidos, e a ANVISA, para tratar outras doenças é uma estratégia útil, uma vez que o medicamento já passou por testes demorados e rigorosos para demonstrar que seu uso em seres humanos é seguro. No entanto, no caso atual, o fato de um medicamento ser capaz de matar o coronavírus no laboratório não garante que funcionará contra o vírus já instalado no corpo humano”, explica Natalia.

“Sabonete e álcool gel destroem o vírus na superfície da pele, por exemplo, mas beber sabão líquido ou tomar cachaça não vai curar ninguém da COVID-19. Para avaliar se o medicamento funciona no interior do organismo humano, outros testes — em voluntários humanos — são necessários e demandam tempo, critério científico e seriedade, e devem ser feitos com o rigor científico necessário, que nos permita tirar conclusões e não gerar mais dúvidas”, conclui a pesquisadora.

Com Assessorias