CPI da Covid: presidente da Anvisa é contra postura negacionista de Bolsonaro

Antônio Barra Torres descarta pressão de Jair Bolsonaro para recusar Sputinik e discorda de suas atitudes ao promover aglomerações

Barra Torres, presidente da Anvisa, em depoimento na CPI da Covid (Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado)

Quarto a depor na CPI da Covid-19, que aponta possíveis erros e omissões do governo federal na pandemia do novo coronavírus, o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, surpreendeu as bancadas governista e de oposição do Senado Federal ao se manifestar contrário às ideias negacionistas do presidente Jair Bolsonaro. Médico e almirante da Aeronáutica, Barra Torres se disse contra o uso de cloroquina e a favor do uso de máscara e do distanciamento social como estratégias para controlar a pandemia, além, é claro, das vacinas.

O depoimento do presidente da Anvisa – que abre a segunda semana de depoimentos na CPI da Pandemia nesta terça-feira (11) – foi comparado com o do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na última quinta-feira (6), em que o que mais se ouviu foi: “não faço juízo de valor” toda vez em que se era questionado sobre as fórmulas.

Barra Torres também disse desconhecer estudos para utilização de um spray israelense supostamente eficaz para combater o vírus. Numa missão a Israel, capitaneada por Flávio Bolsonaro, agentes do governo queriam trazer a novidade para o Brasil. A viagem da comitiva oficial custou cerca de 400 mil reais aos cofres públicos.

Comando paralelo na crise da Covid

O depoimento do presidente da Anvisa nesta terça-feira (11) evidenciou a existência de um comando paralelo no enfrentamento da crise na saúde pública, na avaliação do senador e vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Segundo o senador, a existência desse comando paralelo começou a transparecer nos depoimentos dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, e foi tangenciada no primeiro depoimento de Marcelo Queiroga. Para Randolfe, o depoimento do atual ministro deixou patente que o comando da pandemia não está no Ministério da Saúde, o que impõe a necessidade de uma nova convocação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

Médica que defende cloroquina quer ir à CPI da Covid

Fontes do Palácio do Planalto informaram que o presidente Jair Bolsonaro ficou furioso com as declarações de Barra Torres, mas não pode exonerá-lo porque ele é eleito e tem estabilidade. Houve reações contrárias também de uma parte da classe médica, que é favorável às ideias de Bolsonaro e preconiza o uso de medicamentos sem comprovação para tratar a doença.

Uma delas foi a médica oncologista e imunologista Nise Yamagouchi, defensora da cloroquina no tratamento da Covid-19 e que seria uma das conselheiras de Bolsonaro e participaria de um suposto conselho paralelo ao Ministério da Saúde. Ela foi citada nos questionamentos dos senadores e respostas do presidente da Anvisa e emitiu uma nota no fim do dia, reafirmando haver comprovação científica sobre uso de medicamentos na fase inicial da doença.

Em relação à declaração do presidente da Anvisa à CPI da Covid-19, o Exmo. Dr. Almirante Barra Torres, esta não representa a realidade. Sou médica oncologista e imunologista, com 40 anos de experiência clínica. Assessorei cientificamente os últimos quatro governos federais, bem como o do Estado de São Paulo. Já existem evidências científicas comprovadas para o uso de medicações que possam auxiliar no combate às fases iniciais da Covid-19 e, caso seja convocada, estarei à disposição da CPI da Covid-19 para esclarecimentos”, escreveu na nota. 

O senador Randolfe Rodrigues disse que a comissão deverá avaliar a convocação da médica Nise Yamaguchi. “No momento oportuno será exame de deliberação. Há um conjunto de requerimentos a serem deliberados. A direção da CPI deve se reunir. Vamos definir o momento mais oportuno para deliberação de todos os requerimentos de convocação. Já temos calendário para o mês de maio”, afirmou.

Em fevereiro, Nise esteve à frente de um movimento a favor do tratamento precoce, assinado pela Associação Médicos pela Vida, com sede em Recife, reunindo ainda Antonio Jordão, Paulo Olzon, Djalma Marques e Matheus Drummond (confira o documento na íntegra aqui). Ela ainda participou da Jornada Médica on-line Tratamento Inicial da Covid-19, realizada na primeira semana de março, com o propósito de compartilhar informações, experiências, atualizações e resultados recentes sobre o tema.

Nise Yamagouchi atua como imunologista e oncologista clínica dos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, em São Paulo. É pesquisadora sênior da Universidade de São Paulo e da International Prevention and Research Institute (IPRI), em Lyon (França). Dirige o Instituto Avanços em Medicina e coordena o Instituto Nise Yamaguchi de ações sociais, além de atuar em pesquisa de novos tratamentos do câncer e das doenças crônicas e degenerativas, dentro da visão integrativa da Medicina.

Mudança na bula da cloroquina

Na opinião do senador Randolfe Rodrigues, o depoimento de Barra Torres foi “contundente e sincero e dá conta que ele estava presente na reunião em que tentou ser imposta a [mudança da] bula da cloroquina”, como forma de incluir a substância no tratamento da covid-19 — conforme já afirmara Mandetta em seu depoimento à comissão.

Nessa dita reunião, ele não se resignou a aceitar, se insurgiu contra aquela posição. Isso mostra a existência de um comando paralelo e uma obsessão pelo “tratamento precoce”, sem nenhuma evidência científica, e subvertendo a Anvisa para impor o tratamento com hidroxicloroquina. O depoimento [de Barra Torres] foi de suma importância”, afirmou.

Já defensores do governo, como o senador Marcos Rogério (DEM-RO), avaliam que o depoimento do dirigente da Anvisa não acrescentou nenhuma novidade às apurações feitas pela CPI. Sobre a confirmação da reunião ministerial em que houve pedido para mudança da bula da cloroquina, o senador afirmou:

Em algum lugar desse país é possível modificar bula de remédio por decreto presidencial, estadual ou municipal?. Isso é como alguém tentar matar alguém e na munição você ter apenas pólvora ou então você utilizar uma arma de brinquedo e tem lá uma bala de algodão. O acusado vai ser absolvido sumariamente porque vai estar diante de um crime impossível”.

Marcos Rogério ressaltou que Barra Torres não afirmou que a proposta de mudança da bula tenha partido do presidente da República, Jair Bolsonaro, mas de uma “convidada” a participar da reunião. Na avaliação do senador, a CPI vem se tornando, a cada dia que passa, a “CPI da cloroquina”, na tentativa de desviar a atenção sobre o uso de recursos públicos destinados à saúde.

Ao encerrar a reunião desta terça-feira, o presidente da CPI, senador Omar Aziz (MDB-AM) disse que ficou claro o posicionamento da Anvisa a favor da ciência.  O próximo encontro da comissão de inquérito é nesta quarta-feira, às 9h30, para depoimento do ex-secretário de Comunicação Social da Presidência da República Fabio Wajngarten.

Fonte: Agência Senado e Assessorias

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