Como as drogas agem no organismo

Rosayne Macedo

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O número de dependentes químicos se mantém estável desde 2011, mas a quantidade e a potência de drogas disponíveis no mercado avançam assustadoramente e quase 30 milhões de pessoas em todo o mundo já não ficam sem estas substâncias – e não sabem como livrar-se delas, como revelou recente relatório da  Organização das Nações Unidas (ONU) – veja aqui.

Uma das maiores dúvidas da ciência até hoje é como acontece o vício. O clínico geral clínico geral do Hospital e Maternidade São Cristóvão, Vagner Nakayama explica que muitos estudos acreditam que as drogas ativam o chamado circuito de “recompensa cerebral” no sistema límbico, responsável pelas emoções. Esse sistema começa no tronco cerebral, que é a área em que os impulsos elétricos são gerados a partir do uso das substâncias químicas, e vai até o córtex pré-frontal, região responsável pelo comportamento emocional.

“Os neurônios presentes aí são dopaminérgicos, então as drogas estimulam a produção e liberação de dopamina, substância relacionada ao prazer. A dopamina é o principal neurotransmissor do sistema límbico e sua hiperatividade é o elo comum entre todas as dependências químicas. O excesso desse neurotransmissor provoca destruição de neurônios, o que leva à perda do livre arbítrio do usuário, o qual não apresenta mais poder de escolha”, explica o médico  Vagner Nakayama. No entanto, ele ressalta que há atividades capazes de aumentar a liberação da dopamina de maneira saudável, como praticar esportes, sair com os amigos, namorar, ir ao cinema, entre outros lazeres.

“As drogas, principalmente o álcool, afetam os neurônios, comprometendo as ligações entre eles, o que prejudica o processo cognitivo”, comenta o médico. Para o tratamento, existe uma série de fatores investigados por um psiquiatra especialista neste tipo de transtorno, que analisará o tipo de droga consumida, o padrão de uso (quantidade e frequência), tempo da dependência, prejuízos sociais, ocupacionais e acadêmicos, o grau de consciência sobre o vício e muitos outros detalhes.

“A clareza do especialista na determinação do programa de tratamento com formulação de metas a serem atingidas é fundamental. A participação da família também deve ser essencial. O objetivo precisa ser a busca constante pela abstinência, a retomada dos estudos e do trabalho, do lazer, da prática esportiva e das relações interpessoais”, ressalta.

Como agem no organismo as drogas mais comuns

Caso haja suspeita de alguém próximo estar se tornando dependente químico, o médico aconselha a ficar atento a estes sinais: alteração de personalidade e de humor, irritabilidade constante, baixa tolerância à frustração, impulsividade, não seguir regras, atitudes irresponsáveis e agressivas, falta de motivação para as atividades do dia adia, baixa autoestima, negligência quanto aos cuidados com a higiene pessoal, além de sintomas físicos como fadiga, dores de cabeça, enjoos, entre outros. Ele alerta ainda quanto ao comportamento na escola, faculdade ou trabalho, que pode envolver perda de interesse, queda no rendimento, atrasos, faltas injustificáveis, problemas disciplinares, abandono dos esportes e desleixo nas vestimentas.

As três drogas ilícitas mais comuns são: a maconha, a cocaína e o “crack”. A primeira é responsável por danos à memória e pela síndrome amotivacional (perda de energia, cansaço, apatia, falta de motivação, desinteresse, inabilidade de realizar planos para o futuro, falta de ambição, queda no rendimento dos estudos ou trabalho, entre outros sintomas). “Também pode apresentar sinais psicóticos, como delírios, alucinações, alterações comportamentais, principalmente nos usuários com predisposição genética para a esquizofrenia”, relata o profissional. Ainda, há prejuízos físicos devido à fumaça inalada, aumentando as chances de inflamações e infecções nas vias respiratórias, como faringites, sinusites, bronquites e pneumonias.

Já a utilização da cocaína provoca aumento dos batimentos cardíacos, da pressão arterial, da frequência respiratória, dilatação das pupilas, tremores e sudorese, arritmias cardíacas, infarto e acidente vascular cerebral (AVC). “O dependente de cocaína também transparece algumas mudanças comportamentais, como agitação motora, inquietação, insônia, euforia, irritabilidade, impulsividade, perda do apetite, além de alucinações visuais e táteis”, detalha.

A “pedra de crack” também tem seus danos físicos e psicológicos. É uma mistura da pasta de cocaína com água e bicarbonato de sódio. “Essa droga é fumada com o auxílio de cachimbo ou similares, o que faz com que em menos de dez segundos a fumaça inalada atinja os pulmões, a corrente sanguínea e o cérebro”, descreve o especialista. Segundo ele, a sensação inicial é de prazer, mas depois vem a ansiedade, preocupações, irritabilidade, perda do apetite e insônia. Quanto às consequências físicas, são as mesmas da cocaína.

Saiba mais sobre o Relatório da ONU

Os transtornos relacionados ao consumo de anfetaminas também representam parcela considerável na carga global de doenças. Enquanto o mercado de novas substâncias psicoativas (NPS) ainda é relativamente pequeno, os usuários desconhecem seu conteúdo e a dosagem de substâncias psicoativas. Isso potencialmente os expõe a graves riscos adicionais de saúde, segundo o UNODC.

Segundo o documento, a hepatite C tem causado um prejuízo maior entre os 12 milhões de pessoas que injetam drogas em todo o mundo. Desse total, uma em cada oito (1,6 milhão) vive com HIV e mais da metade (6,1 milhões) vive com hepatite C, enquanto cerca de 1,3 milhão sofrem de hepatite C e HIV.

O documento final da sessão especial da Assembleia Geral da ONU de 2016 sobre o tema contém mais de 100 recomendações concretas para reduzir a demanda e a oferta de drogas. “Ainda há muito trabalho a ser feito para enfrentar os diversos danos causados pelas drogas à saúde, ao desenvolvimento, à paz e à segurança em todas as partes do mundo”, disse o diretor-executivo do UNODC, Yury Fedotov.

Tendências globais do mercado de medicamentos

O espectro de substâncias disponíveis no mercado de medicamentos aumentou consideravelmente no mundo, apontou o relatório. O mercado de opióides tem se diversificado, apesentando uma combinação de substâncias controladas internacionalmente, como a heroína, e medicamentos prescritos que são desviados do mercado legal ou produzidos como medicamentos falsificados.

A produção de ópio está em alta e o mercado de cocaína está crescendo. Em 2016, a produção mundial de ópio aumentou em um terço em relação ao ano anterior e isso se deveu principalmente a maiores rendimentos de papoula do ópio no Afeganistão. O relatório também aponta para a expansão do mercado de cocaína, de modo que, a partir de 2013-2015, o cultivo de arbusto de coca aumentou 30%, principalmente como resultado do aumento do cultivo na Colômbia. Após um período de declínio, há sinais de que o uso de cocaína tem aumentado nos dois maiores mercados, isto é, América do Norte e Europa.

Em 2014, o UNODC estimou que grupos do crime organizado transnacional em todo o mundo geraram entre um quinto e um terço de suas receitas com a venda de medicamentos. As redes de comunicação móvel oferecem novas oportunidades para os traficantes, enquanto a “darknet” (redes secretas de comunicação acessíveis somente por softwares específicos) permite aos usuários comprar drogas anonimamente por meio de moedas criptografadas, como o bitcoin.

Apesar de o tráfico de drogas na “darknet” ainda ser pequeno, houve um aumento de cerca de 50% nas transações de drogas entre setembro de 2013 e janeiro de 2016, de acordo com um estudo. Os compradores típicos são pessoas que usam drogas para fins recreativos, tais como cannabis, ecstasy, cocaína, alucinógenos e NPS.

Fonte: Hospital e Maternidade São Cristóvão e ONU

 

 

 

 

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