O desafio da maternidade entre mulheres que dependem de diálise

Flávia e Etiene realizaram o desejo de ser mães e Rosilene teve seu terceiro filho mesmo com os riscos. Conheça as histórias dessas mulheres

Paciente de diálise há 10 anos, Flavia, com a filha Maria Alice: apesar do risco, gravidez foi normal (Foto: Divulgação)

Em estágios avançados da doença renal, especialmente quando a paciente depende de diálise, pode ocorrer a redução de hormônios ligados à fecundidade, responsáveis pela liberação dos óvulos femininos. Aumenta, assim, a dificuldade para engravidar. E mesmo quando a fecundação ocorre, a manutenção da gravidez até o fim é outro grande desafio, pois há riscos de complicações para a mãe e especialmente para o desenvolvimento do bebê.

Normalmente, a recomendação é que a gravidez ocorra depois de um transplante do rim. Mas, como nem sempre é possível realizar o procedimento no tempo desejado, algumas mulheres optam por tentar a gravidez. Mas o sonho de ser mãe, mesmo em diálise, não é impossível, com cuidados especiais e dedicação tanto da paciente quanto da equipe de saúde.

E foi seguindo os passos corretamente da equipe de saúde que algumas pacientes renais conseguiram realizar seu grande sonho. Moradoras do Rio de Janeiro, Flávia dos Santos de Jesus, de 36 anos, e Etiene de Oliveira Del Castilho, 32, conseguiram engravidar e manter a gestação mesmo sendo pacientes renais. Já Rosilene Aparecida Venâncio José, 44, engravidou do terceiro filho aos 38 e, apesar do alto risco, teve parto normal, sem complicações.

Neste Mês das Mães, conheça as histórias de cada uma delas:

Flávia passou bem na gestação, mas teve parto prematuro

Flávia dos Santos de Jesus, moradora da Praça Seca, descobriu-se paciente renal aos 26 anos, porém, não havia uma causa definida. Quando foi feito o diagnóstico a doença já estava avançada e seus rins já se encontravam atrofiados. Por achar que não engravidaria com facilidade, ela deixou de tomar pílula anticoncepcional e a gravidez veio aos 29 anos. A gestação durou 34 semanas, mas foi bem tranquila, com a pressão normal.

Já faço hemodiálise há dez anos e na gravidez minhas taxas ficaram muito boas. Foram as melhores até hoje. Planejamos fazer um parto cesáreo, por causa da pressão e do problema renal, mas quando a bolsa estourou antes da hora, tive normal. Graças a Deus deu tudo certo, a pressão ficou em 12×8 e nasceu a Maria Alice, hoje com seis anos”, conta Flávia, que é paciente do Centro de Nefrologia e Diálise Taquara.

Não fosse pelo problema que passou a ter nos ossos por conta da doença renal, ela diz que tentaria outro filho. “Hoje tenho hiperparatireoidismo, não posso mais, mas se eu tivesse uma estrutura óssea melhor tentaria de novo”, afirma. Quando há excesso do hormônio paratormônio, responsável pelo equilíbrio do cálcio, vitamina D e fósforo presente no sangue, esse problema pode surgir nos pacientes renais.

Rosilene: gravidez inesperada e de alto risco aos 38 anos

Aos 38 anos, 8 após iniciar a terapia de diálise, Rosilene foi mãe novamente (Foto: Divulgação)
Rosilene com o filho Rafael, de 6 anos (Foto: Divulgação)

Rosilene Aparecida Venâncio José, moradora de Vaz Lobo, se tornou renal crônica aos 31 anos, por possuir Glomerulonefrite, uma doença que tem como uma das principais consequências o comprometimento da função renal. Sua gravidez foi inesperada e veio aos 38 anos, quando já era mãe de dois filhos, um com 22 e outro com 16 anos, quase oito anos após iniciar a terapia de diálise.

Foi uma surpresa para todos, também por conta da minha idade, era uma gravidez de alto risco, mas recebi todo o apoio na clínica e no hospital especializado em gestante de alto risco. O maior desafio para mim foi passar a dialisar seis vezes por semana, antes eram três. Mas deu tudo certo, meu Rafael nasceu com nove meses, de parto normal, e sem intercorrências. A minha pressão ficou boa durante toda a gravidez”, relata a paciente da Clínica Renal Vida de Vaz Lobo.

Etiene deu à luz após 18 anos fazendo hemodiálise

Etiene de Oliveira Del Castilho, moradora de Senador Camará, na zona oeste carioca, faz hemodiálise desde os 14 anos, quando já era hipertensa, uma das doenças que acomete os rins. Mesmo já tendo ficado em coma por seis dias, aos 20 anos tinha o desejo de ser mãe e chegou a ter depressão quando os médicos informaram que seria quase impossível. Mas depois de 12 anos de hemodiálise, em 2013, decidiu tentar gerar o seu primeiro filho.

A primeira gravidez foi muito difícil, o bebê nasceu com 25 semanas de gestação, pesando 650 gramas, e com dois meses de vida teve uma infecção no hospital que lhe tirou a vida. “Meu mundo caiu, mas mesmo assim não desisti. Minha fé foi maior do que minha tristeza, mesmo com todo aquele sofrimento”, relembra.

Dialisada há 18 anos, Etiene deu à luz Heitor Gabriel, que nasceu prematuro em 2019 (Foto: Divulgação)

E foi aí que em 2019, já com 18 anos de hemodiálise, após uma gestação de 7 meses, nasceu seu tão esperado filho, o Heitor Gabriel, com 950 gramas. “Ele ficou 85 dias na incubadora e teve várias bactérias, mas Deus me deu o maior milagre que uma mulher pode receber. Hoje ele está com 1 ano e 7 meses e com muita saúde”, conta Etiene, que é paciente da Clínica Renal Vida de Campo Grande,

Médica explica cuidados em torno da decisão de engravidar

Quando uma mulher com doença renal planeja ter um bebê, precisa levar alguns riscos em conta. Enquanto na população em geral a incidência de pré-eclâmpsia é de 8%, na doença renal, principalmente se há também hipertensão arterial, esta complicação pode afetar até 50% das gestantes.

Apesar de a fertilidade diminuir à medida que agrava a disfunção renal, a mulher com doença renal pode engravidar, sendo muito importante que conheça os riscos envolvidos para mãe e filho, para poder decidir de forma consciente o seu planejamento”, destaca a nefrologista Ana Beatriz Barra, diretora médica da Fresenius Medical Care.

Medicamentos precisarão ser substituídos ou acrescentados e uma dieta saudável e rigorosa deve ser seguida. “Se estiver em diálise, as sessões deverão ser incrementadas para seis, ou, se possível, sete vezes por semana, sempre mantendo as quatro horas de duração”, explica.

Esta medida é essencial para a saúde do bebê, que precisa se desenvolver em um ambiente sem as toxinas urêmicas que usualmente se acumulam entre as sessões de diálise. Além do nefrologista e do nutricionista, é essencial o acompanhamento conjunto com um ginecologista com experiência em gravidez de alto risco.

Mesmo no estágio mais avançado da doença renal, quando a paciente já necessita de diálise para substituir os rins que não estão funcionando mais, os desfechos, tanto para a mãe quanto para o bebê, melhoram bastante com um tratamento intensivo, que envolve a atenção de uma equipe multidisciplinar e a aderência das orientações pela paciente”, comenta a especialista.

Fonte: Fresenius Medical Care

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