É possível viver bem depois de um tumor cerebral?

Dois neurocirurgiões explicam sintomas de uma doença que, ao contrário do que muita gente pensa, tem cura e pode permitir uma vida normal

Em uma pesquisa recente, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estimou que 11.100 novos casos de tumores cerebrais e/ou do sistema nervoso central fossem diagnosticados entre os anos de 2020 e 2022. O número reforça a importância da conscientização e da disseminação de informações sobre os sintomas, viabilizando o tratamento com urgência.

“As massas, que podem ser cancerígenas ou não, são caracterizadas pela presença e crescimento de células anormais no cérebro e/ou nas meninges (membranas que revestem o cérebro e a medula espinhal)”, explica Marcelo Valadares, médico neurocirurgião da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e do Hospital Albert Einstein.

Quando alguém é diagnosticado com um tumor cerebral, é comum associar automaticamente a doença ao câncer maligno e incurável. Porém, essa realidade está mudando. Por meio da cirurgia minimamente invasiva, é possível curar tumores cerebrais, lesões vasculares cerebrais e metástases. É o que afirma a neurocirurgiã Danielle de Lara, especialista em cirurgia cerebral minimamente invasiva pela Universidade do Estado de Ohio (EUA) e que atua no Hospital Santa Isabel (Blumenau/SC).

O uso de pequenas câmeras de vídeo ou um robô, está se tornando cada vez mais comum, não somente em cirurgias cerebrais, mas também em outras especialidades. Por meio da técnica de cirurgia minimamente invasiva, nós conseguimos diminuir os riscos de novas sequelas durante os procedimentos e, em alguns casos, curar tais doenças”, relata Danielle.

Tumores cerebrais benignos ou malignos

Quando falamos em tumor cerebral, estamos nos referindo ao aumento anormal de um tecido ou de uma região do corpo humano. Um tumor geralmente se forma a partir de uma célula defeituosa que se multiplica desordenadamente produzindo outras com o mesmo defeito e resultando no aumento do tecido. Existem dois tipos de tumores cerebrais: os primários, que se iniciam no cérebro e, os metastáticos, que se iniciam em outros órgãos e se disseminam para o cérebro.

É preciso ressaltar que nem todo tumor é maligno. Os tumores também podem ser benignos. Ao contrário dos malignos, estes crescem lentamente, sem destruir os tecidos ao seu redor e sem enviar metástases para outros órgãos, podendo ser tratados e sem necessitar de intervenção cirúrgica”, explica a médica.

Segundo o Dr. Marcelo Valadares, grande parte dos tumores intracranianos é benigna. O mais comum deles, chamado de meningioma, frequentemente é curável com cirurgia e, algumas vezes, sequer pode precisar de operação. O meningioma é responsável por cerca de 30% das incidências. São benignos e mais comuns em adultos e idosos, acometendo mais mulheres do que homens.

Tumores que surgem dentro do próprio cérebro ainda sim podem ser benignos, curáveis com cirurgia, ou de baixa agressividade, fazendo com que o paciente possa realizar tratamentos diversos e ter uma vida longa e de qualidade”, diz o médico.

Diferenças entre os tumores benignos e malignos

Um tumor cerebral benigno não é um câncer, ou seja: não é capaz de invadir os tecidos cerebrais normais e destruí-los. Além disto, ele frequentemente pode ser tratado com cirurgia. “De qualquer forma, mesmo um tumor benigno pode crescer em um local complexo que impeça sua remoção ou comprima tecidos e vasos, podendo levar a problemas graves”, explica o Dr. Marcelo Valadares.

Um tumor maligno, por outro lado, possui mutações em suas células que são capazes de invadir os tecidos cerebrais, destruindo-os. Neste caso, as células crescem de forma desordenada, acelerada e cada vez mais agressiva. Os principais tumores malignos no cérebro são os gliomas, que crescem a partir de diversos tipos celulares chamados, em conjunto, de glia.

Estas são células dão suporte aos neurônios, além de realizar diversas outras funções no cérebro. Os tumores da glia (ou gliomas) são os tumores intrínsecos mais comuns (que surgem do próprio cérebro, e não de outras partes ao seu redor). Além disto, ele pode ser um glioblastoma, um subtipo de glioma altamente agressivo, ou seja: um câncer muito grave”, exemplifica.

O médico conta, ainda, que muitos tumores malignos do cérebro são controláveis com o tratamento disponível e, em poucos casos, existe possibilidade de cura. Para os gliomas, o Dr. Marcelo Valadares garante que o tratamento pode ser cirurgia para remoção de parte ou todo o tumor identificável.

“Normalmente o paciente precisa realizar quimioterapia e radioterapia após a cirurgia. Diversos outros tratamentos estão sendo pesquisados para os tumores malignos do cérebro”, afirma. No caso dos meningiomas, o principal tratamento é a cirurgia. Alguns tipos, mesmo benignos, podem precisar de radioterapia.

Tumores cerebrais podem ser hereditários? 

Danielle explica que, raramente os tumores cerebrais são hereditários. “Há algumas exceções, como os tumores do sistema nervoso central associados a síndromes genéticas como a Neurofibromatose, a Doença de Von-Hippel-Lindau e a Cavernomatose familiar”, observa.

Existem diferentes tipos de genes, alguns podem facilitar o surgimento de tumores pelo corpo e outros impedem naturalmente a formação dos mesmos. “Portanto, os tumores podem ser considerados genéticos, mas, o seu aparecimento pode surgir por meio de situaçõesàs quais somos expostos. Como por exemplo, a influência de infecções virais, exposição a radiação e substâncias químicas. No caso do câncer de pulmão as substâncias químicas presentes no cigarro são cancerígenas, por exemplo”, aponta Danielle.

Como diagnosticar um tumor cerebral

O neurocirurgião da Unicamp explica que os principais sintomas causados por tumores cerebrais são relacionados aos locais onde eles se desenvolvem. “Como o cérebro é relativamente dividido em áreas responsáveis por funções específicas, os tumores que se desenvolverem nessas regiões vão prejudicar essas atividades. Por exemplo: tumores que surgirem próximo às áreas responsáveis pelos movimentos dos membros podem causar fraqueza e até paralisia. Tumores nas áreas responsáveis pela visão podem causar perdas visuais, manchas ou embaçamento”, expõe.

Embora tumores benignos e malignos possam causar sintomas semelhantes, os malignos têm maior chance de se desenvolverem rapidamente, levando a uma frequência maior de dores de cabeça, convulsões e alterações neurológicas, como o coma. “Isso é menos frequente em tumores benignos”, elucida o médico.

No entanto alguns sintomas podem surgir independentemente do local da lesão. “Em quase todas as áreas do cérebro, os tumores podem causar convulsões, embora isso seja mais comum nos lobos frontais e temporais. Quando são grandes, podem causar dores de cabeça. Além disto, alguns tumores podem sangrar e levar a pioras neurológicas repentinas”, reitera o Dr. Valadares.

Principais sintomas

Para diagnosticar um tumor cerebral, Danielle ressalta que é preciso sempre estar atento aos sintomas que o nosso corpo demonstra. Para facilitar esta observação, a médica listou alguns sintomas mais comuns (veja abaixo). “Caso a pessoa identifique estes sintomas com frequência e estejam associados a outras alterações, é preciso procurar um médico para identificar o problema e tratá-lo o mais breve possível”, finaliza a especialista.

dor de cabeça (cefaléia)

desmaios e crises epilépticas (epilepsia)

perda de força (paralisias, plegia ou paresia)

formigamentos (parestesias) e outras alterações da sensibilidade

alterações visuais (perdas visuais, visão dupla, pontos luminosos) e alterações da fala (gagueira, afasia)

alterações do estado mental (confusão, agitação), perda de memória

tonturas, alterações do equilíbrio e marcha

movimentos involuntários (tremores, tics)

alteração do humor (irritabilidade, depressão)

Vantagens das cirurgias minimamente invasivas

A médica neurocirurgiã lista as principais vantagens das cirurgias minimamente invasivas para tratar tumores cerebrais, mas, segundo ela, nem todos os tipos podem passar por este procedimento. Confira os pontos favoráveis destacados por ela:

Feitas por vídeo ou por cateteres;

Menor tempo de internação;

Sem cicatriz aparente (ou muito menor, quando algum corte na pele for inevitável);

Tempo menor para recuperação;

Visualização direta do problema, facilitando as chances de sucesso da cirurgia.

Com Assessorias

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